Psicanálise e cinema dialogam em livro que será lançado em Salvador. Veja entrevista
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Psicanálise e cinema dialogam em livro que será lançado em Salvador. Veja entrevista

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Vitor Souza (Diego Freitas)

Vitor Souza (Diego Freitas)

“Em um período tão assustador em nossa história, no qual a intolerância religiosa vem causando tantos ecos na mídia, é reconfortante ouvir um psicanalista e teólogo apresentar opiniões tão embasadas sobre esse tema”

Por João Paulo Barreto

A psicanálise e o cinema são os objetos de estudo do autor Vitor Sousa em seu livro de estreia, Sonhos que Vimos Juntos – Aproximações entre Psicanálise e Cinema, que terá seu lançamento em 03 de outubro, na Livraria LDM do Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha, em Salvador.

Nessa entrevista, Vitor nos apresenta um aprofundamento sobre o seu método de pesquisa para a composição do livro, a relação do cinema com o campo científico e o modo como o fazer cinematográfico encontra ecos na psicanálise. Além disso, traz um esclarecido ponto de vista sobre a atual fase do contexto social do Brasil no que se refere à expansão do fundamentalismo religioso e como o conhecimento fílmico pode nos ajudar a entender melhor essa fase.

Em um período tão assustador em nossa história, no qual a intolerância religiosa vem causando tantos ecos na mídia, é reconfortante ouvir um psicanalista e teólogo apresentar opiniões tão embasadas sobre esse tema. E se a discussão puder contar com o cinema como pano de fundo, bom, só nos cabe ouvir com ainda mais atenção.

Confira o papo abaixo!

Como surgiu a ideia de unir em um estudo a psicanálise e o cinema?

Na verdade, foi meio que um processo. Porque, até como eu fiz questão de ressaltar em toda a divulgação do livro, o texto original da publicação foi pensado como uma monografia, meu trabalho de conclusão da formação em Psicanálise, e isso foi importante para a escolha do tema. Primeiro, porque eu segui as dicas mais fundamentais oferecidas por todos os professores de Metodologia que já tive: “comece a pensar seu tema no início do curso” e “escolha um tema que você goste, algo que lhe dê prazer ao escrever”. Minha ideia, inicialmente, era desenvolver um projeto sobre os sonhos e sua importância para o desenvolvimento dentro da teoria freudiana. Então, eu já vinha acumulando bibliografia sobre isso e elaborando meu discurso enquanto seguia, também, adquirindo conhecimento teórico em sala de aula e experiência prática na interpretação de sonhos durante as sessões com meu terapeuta didata. Tudo isso estava bem encaminhado, até eu bater de frente com o Cinema, em abril de 2011 (risos). É claro que eu já era um amante da sétima arte há bem mais tempo, e já tinha feito até uma oficina de roteiro pra Cinema e TV, mas foi no curso de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, de Pablo Villaça, que eu me dei conta de que dava para juntar, perfeitamente, essas duas paixões aproveitando, inclusive, o que eu já havia pesquisado sobre os sonhos. A partir daí, quanto mais eu lia, mais me questionava “por quê não pensei nisso antes?”. As duas áreas são muito interligadas. Uni-las era quase uma questão de lógica.

Você sempre esteve ligado às artes de alguma forma. E o cinema também sempre fez parte desse consumo cultural. Ao se tornar um psicanalista, o plano de associar a sétima arte à psicanálise em um estudo mais aprofundado era tido como uma meta ou foi algo que aconteceu naturalmente?

Isso é verdade. Como qualquer criança dos anos 80, eu assistia muitos filmes, desenhos animados e seriados de TV, só que minha diversão preferida era escrever e desenhar minhas próprias histórias. Ainda tenho algumas delas guardadas. Minha frequência ao cinema era muito ocasional nesse período, o que tornava cada ida ao cinema muito mais memorável. Lembro de quase todos os filmes que vi, quando criança, em tela grande e, especialmente, da satisfação de estar ali para assisti-los. Como psicanalista, aprendi a buscar as emoções presentes nas memórias e reconhecer a importância delas na formação da minha personalidade. Associando-as dessa forma, fui percebendo o tamanho da paixão que nutria por ambas. Então, promover essa união num texto foi algo bastante natural, sim.

Qual critério de seleção dos filmes que você usou na pesquisa?

Os filmes representam, obviamente, um universo de pesquisa muito vasto. A rigor, eu diria que todos sofrem, de alguma forma, a influência da Psicanálise. Por isso, a princípio, eu precisava restringir meu objeto de pesquisa. Como a ideia era fazer um resgate histórico dos encontros entre Psicanálise e Cinema, o critério foi “qual filme exemplifica melhor os períodos iniciais dessa relação?”. Inevitavelmente, caí nos clássicos. No livro, eu não faço críticas ou análises dos filmes. Procuro falar de determinados aspectos que evidenciam a parceria Psicanálise-Cinema e apresento algumas obras como exemplo.

No livro, você cita o cinema como método terapêutico, comparando uma sessão de um filme a uma com um psicanalista. De que forma isso é realizado?

Na verdade, no livro eu aponto para o cinema, o ato específico de assistir ao filme, nesse caso, como uma possível ferramenta a ser explorada pelo analista. Eu acredito que isso seja plenamente possível. Fica mais fácil responder essa pergunta se eu usar, mais uma vez, a dinâmica dos sonhos como exemplo. Em linhas gerais (e eu estou sendo bastante generalista aqui), um sonho é a maneira como o nosso inconsciente encontra para trazer pro nível do consciente algumas de nossas energias psíquicas, nos fazer lidar com nossos sentimentos mais profundos (medos, desejos etc). Um exemplo clássico: o indivíduo tem um medo enorme de aranha; o inconsciente, para fazê-lo lidar com esse medo, produz um sonho em que esse indivíduo está cercado por dezenas de aranhas; não tem pra onde correr, o indivíduo vai ter que acordar e, mesmo que esqueça o conteúdo do sonho, vai guardar aquela sensação estranha e incômoda, entende? Numa sessão de análise, essa sensação que permanece (ou a lembrança dela) é que vai conduzir a interpretação. Agora, pense isso no nível do cinema. Somos, muitas vezes, confrontados com discursos ou atitudes que nos causam incômodo. E é muito comum que aquela sensação de estranheza permaneça por muito tempo depois de termos visto o filme. Para mim, são nessas sensações que residem um dos grandes potenciais do cinema como método terapêutico. Explorar a maneira como lidamos com o que vemos, investigar o porquê de sentirmos o que sentimos quando vemos.

Entrevista

E esse já é um método aplicado? Existe quem faça?

Olha, João, eu não saberia te dizer se isso é feito exatamente da forma como eu descrevi aqui, mas existem, sim, alguns terapeutas que já trabalham com o cinema. Um deles, talvez o mais conhecido, é o psicólogo americano Gary Solomon. Pelo que pude perceber, apesar de não conhecer a fundo a obra desse autor, ele faz indicações de filmes específicos que possam auxiliar no estado emocional de seus pacientes. Como uma espécie de auto-ajuda… Não deixa de ser uma experiência válida, mas eu ainda penso que esse seja um campo a ser mais explorado.

Você cita uma incorporação gradual dos conceitos psicanalíticos ao fazer cinematográfico. Sem entregar o ouro, afinal, o livro conta com um profundo estudo sobre esse tema, você pode citar alguns exemplos disso?

Não posso afirmar que o livro se aprofunda nessa questão. Eu diria que o livro inteiro é um “descortinar” de possibilidades. Aproximações, como proponho no subtítulo. Daquelas que procuro apresentar, essa é a que fica mais fácil de perceber na relação da teoria freudiana com o cinema. Um bom exemplo é a construção de personagens. Num filme, nós temos acesso a um recorte específico do tempo de vida de um determinado personagem. Os autores escolhem exatamente o que vão exibir e conduzem a narrativa mostrando apenas o que seja interessante para contar aquela história. Mas para que faça sentido pra gente, esse personagem precisa ter uma história, um passado que justifique suas ações. Na maior parte dos filmes, não temos acesso a esse passado, mas certamente o roteirista precisou desenvolver aquela personalidade. Isso é ampliado pelos atores quando eles investem nos chamados “laboratórios”, onde aprofundam a experiência de atuação. Tudo isso é feito em busca de verossimilhança: o que vemos não é uma experiência real, mas precisa nos convencer do contrário. É aí que a psicanálise se faz necessária. Contando com mais de um século de observação do comportamento humano, ela se apresenta aos profissionais do cinema como um verdadeiro mapa das emoções, e isso vai influenciar desde a cor das roupas que o personagem veste até os objetos que ele possui.

Como o espectador poderá aplicar os conhecimentos apresentados em Sonhos que Vimos Juntos na sua próxima sessão de cinema?

De cara, eu penso que ele poderá se tornar mais crítico e seletivo daquilo que vê. Mesmo que ele não se aprofunde nos conhecimentos que proponho, eu espero que o leitor consiga perceber que um filme pode representar mais que um entretenimento casual. Exercitando esses conhecimentos, ele vai poder julgar melhor a obra. A partir daquilo que está na tela, perceber, por exemplo, se o personagem foi bem desenvolvido, como expliquei na pergunta anterior. Além disso, num nível mais profundo, os filmes podem se tornar uma boa maneira do leitor investir no autoconhecimento, repensar suas ações e emoções ao se imaginar na pele nas situações vividas por aquelas pessoas da ficção.

Em tempos atuais, onde vemos na mídia diversos casos de intolerância religiosa, qual a sua visão como teólogo acerca da função do cinema como agente criador de consciência nas pessoas?

Por estar ao alcance de uma gama cada vez maior de pessoas, e justamente por ser uma mídia de fácil acesso (mesmo que o indivíduo não tenha condições de frequentar as salas, todos os canais abertos reservam um espaço para filmes em suas grades de programação), o cinema ocupa uma importante função na formação da opinião pública. Todo filme carrega uma cosmovisão, incluindo-se aí opiniões políticas, culturais e religiosas. É sempre muito salutar quando esse potencial é aproveitado pelos autores para suscitar (ou aquecer) debates no seio da sociedade. Nos últimos anos, o Brasil tem assistido ao crescimento dos setores mais fundamentalistas do cristianismo evangélico. Uma das consequências desastrosas geradas por essa ala para a nossa sociedade é o desenvolvimento de um discurso religioso alheio à realidade que o cerca. Para os adeptos dessas denominações, pouco importa o que acontece aqui neste plano terreno desde que ele tenha suas garantias de uma melhoria de vida no além. Na prática, há um conformismo velado diante dos problemas sociais, e eu tomo aqui a violência social como exemplo: vivemos numa crescente onda de violência porque “o mundo jaz no maligno”, mas ainda bem que não será assim “no céu”. Nesse contexto, o cinema pode (e deve!) ser usado para confrontar esse discurso.

Você citaria alguma obra ou cena específica de algum filme que ilustre essa ideia?

Eu lembro, por exemplo, de uma sequência de Tropa de Elite 2 em que um trabalhador é arrastado, por um grupo de milícia, pelas ruas da favela até uma esquina onde as portas dos estabelecimentos estão todas fechadas. Ali, o trabalhador é brutalmente assassinado. E o que isso tem a ver com o discurso religioso que exemplifiquei? O detalhe fica por conta dum movimento em que José Padilla eleva a câmera para nos mostrar que o estabelecimento que estava de portas fechadas era uma igreja evangélica presente apenas fisicamente na comunidade. Você percebe o poder crítico desse discurso? “Quando uma igreja fecha suas portas para os desafios dessa vida, automaticamente serve de espaço para a morte”, é a leitura que faço.

Você tem uma visão teológica bem diferenciada do que normalmente se vê por aí. Você pensa em investir também em publicações nessa linha? Ou você acha que pode não haver público pra isso?

Para mim, a Teologia, como área do conhecimento, só faz sentido quando procurar dialogar com outros saberes. O discurso puramente eclesiástico é importante, mas fica restrito apenas para esse universo. Sinceramente, eu não vejo muita vantagem nisso. Minha produção teológica procura sempre a via do diálogo. No meu texto de graduação, apresentei uma possibilidade de leitura do texto bíblico de Gênesis bem mais libertária das amarras religiosas, demonstrando a possibilidade de casar a crença no texto mitológico dos primórdios da religião judaico-cristã com as modernas teorias científicas, com especial destaque para a Teoria da Evolução das Espécies proposta por Darwin. Esse é um texto que estou trabalhando para lançar até o final desse ano, se tudo der certo. Além disso, estou escrevendo um projeto para tentar uma linha de mestrado em que possa trabalhar Teologia e Cinema. É como eu disse: se não tem função nas relações com a sociedade, pra mim perde o sentido.

E a psicanálise? Pode ser colocada nesse mesmo patamar e função social? Como?

Eu acredito que o ser vive uma constante busca pelo autoconhecimento. Isso se demonstra em suas escolhas profissionais, sociais, culturais, religiosas etc. A Psicanálise é uma ferramenta poderosíssima para quem quiser auxílio nessa busca, só que, infelizmente, ainda não é acessível a todos, seja por questões financeiras ou culturais. Por conta da nossa cultura, é comum se pensar que apenas “os loucos” procuram um terapeuta, independente de qual das vertentes da PSI. Bom seria que cada pessoa desfrutasse, pelo menos por um período da vida, de uma psicoterapia. Mas isso também demanda um investimento financeiro, já que pagar pela terapia faz parte do próprio tratamento terapêutico. Facilitando-se esse acesso, penso que haveria um maior equilíbrio nas relações de qualquer nível da sociedade. Enquanto não alcançamos isso, o Cinema pode ser bastante útil na disseminação dos conhecimentos psicanalíticos, como apresento no último capítulo do livro.

Com um mercado editorial restrito e que impõe diversas dificuldades para novos autores, como se deu o processo de lançamento de Sonhos que Vimos Juntos?

A verdade é que a vida dos novos autores não é nada fácil, independente do caminho que ele escolha para se lançar no mercado editorial. Se ele escolhe a via das grandes editoras, terá que lidar com o preparo e envio de originais sem ter a mínima noção de quando (ou se) obterá uma resposta para a publicação de seu texto. A menos que ele seja descoberto e convidado por um editor, normalmente pode levar anos até que consiga ver seu “filhote” nas mãos. Se a decisão é, como no meu caso, pela publicação independente, o autor precisa se preparar para jogar em todas as posições: bater o escanteio, correr para cabecear e depois ainda tentar defender! (risos). Sabendo disso, e por acreditar que esse era o meu momento, assumi esses riscos e editei meu texto: diagramei, fiz a capa, entrei em contato com gráficas… exceto a divulgação, que ficou por conta dos amigos e parentes, tudo o mais eu tive que dar conta. Há poucos anos, isso tudo custaria uma nota, especialmente a parte de gráfica, mas para esse primeiro livro, duas coisas foram fundamentais para sair da cabeça e passar virar papel: a facilidade atual de imprimir pequenas tiragens e a estratégia do financiamento coletivo.

Como se deu o investimento em impressão, já que foi feito de forma independente?

Antigamente, qualquer publicação independente, para se tornar financeiramente viável, os autores precisavam de uma tiragem mínima de 500 exemplares. O investimento era relativamente alto, e depois o autor ainda precisava correr pra vender e não tomar prejuízo. Hoje, com as facilidades da impressão digital, eu posso imprimir até mesmo um único exemplar, se for preciso. Foi assim que decidi optar também pelo financiamento coletivo realizado através do site da Kickante. Daí eu marquei a data do lançamento e montei uma campanha nas redes sociais em que convidava os amigos a anteciparem a compra de seus exemplares do livro. A campanha foi muito bem sucedida e agora, com a grana que arrecadei com as vendas antecipadas, eu garanti a impressão da primeira tiragem. Ainda bem que eu tenho muitos amigos! (risos) Os melhores de todo o mundo!


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