Literatura: Montanha Russa - Martha Medeiros | Cabine Cultural
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Literatura: Montanha Russa – Martha Medeiros

Martha Medeiros

Martha Medeiros

“Os inimigos da verdade não são as mentiras, mas as convicções.” (M.M.)

Por Elenilson Nascimento

Muitos podem até torcer o nariz mas eu também adoro esse tipo de literatura feminina-otimista-ostentação, sem perder a noção da “merda” que se tornou o mundo real ao seu redor. Clarice Lispector, Carmen Silva, Cecília Meireles e até Patricia Highsmith (citada no texto “O caso dos dez negrinhos”) faziam isso: essa coisa de deixar as engrenagens à mostra, provocando-nos vertigens, fazendo pensar, além do frio na barriga.

E de todas as autoras contemporâneas que têm se dedicado nesse papel de cronista dessa vida modorrenta moderna, a Martha Medeiros vem se destacando já faz tempo. Para essa autora que estreou na literatura nos anos 80, com um livro de poesias chamado “Striptease”, mas que só caiu nas graças do público através da adaptação do seu livro no filme “Divã” (2009), a grande questão da vida é se desapegar daquilo que é desnecessário, que nos faz mal, que nos atrasa, e enxergar a graça da coisa – sendo a ‘coisa’, no caso, a própria vida. Numa das 105 crônicas do livro “Montanha Russa”, chamada de “A beleza que não se repara”, a autora questiona a atual patrulha pelo corpo perfeito: “As mulheres não fazem outra coisa a não ser pensar em suas bundas e peitos, como se isso bastasse para dar a elas passe livre no mundo das lindas”. Mas ela declara na crônica “Felizes para sempre” que: “Eu não gosto de montanha-russa, o brinquedo, mas gosto de montanha-russa, a vida”, pois é justamente sobre essas curvas e recurvas dessa montanha-russa, sobre as suas quedas súbitas e subidas íngremes, sobre as engrenagens da vida que tratam as essas deliciosas crônicas que compõem este livro.

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Mas se o leitor menos avisado for abrir o livro esperando respostas prontas, acho melhor deixar todas as ideias pré-concebidas do lado de fora da sua caixa de pensar, pois a autora ensina que devemos saber rir de nós mesmos, se reinventar constantemente; estar aberto para encontrar o amor (ou um ficante) onde menos se espera, e transformar a ansiedade em sabedoria. Um bom exemplo foi na crônica “A idade do dane-se”, onde ela revela ser uma admiradora-observadora de Caetano e Woody Allen (*mesmo eu achando o Allen um bom filho da puta! – leiam a biografia de Mia Farrow!), ou então no belíssimo texto “As torres de dentro”, onde ela lembra a tragédia do 11 de Setembro e diz que “a imprensa às vezes vira refém de certas datas” e fazendo um paralelo de que muitas vezes deixamos nossas próprias torres serem derrubadas.

Montanha Russa

Montanha Russa

Medeiros faz questão de deixar claro que não faz literatura de auto-ajuda, mas que espera que seus leitores saibam ouvir num conjunto de pequenas atitudes que, se colocados em prática, vão nos ajudar a levar uma vida mais desestressada e, de quebra, nos surpreender. No texto “Brincando de sofrer”, por exemplo, a autora descreve o modismo bizarro de gente que paga 400 dólares para brincar de ser mendigo por um dia ou da sensação de se deixar sequestrar nessa sociedade cada vez mais desprovida de valores num tempo onde a pobreza emocional tem atingido estágio igualmente avançados.

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Ao contrário de muitos críticos e acadêmicos que acham que a crônica é uma literatura menor, Medeiros é a prova que ainda existe vida inteligente fora dos portões da ABL, das universidades e dos jornais. Me divertir horrores lendo o texto “O chato”, pois me senti representado naquele cara que lê poesia, ouvi U2 e Madonna, e ainda é considerado um anti-social: “Livros nos dá conhecimento, uma visão mais aberta da vida e nos ensina a escrever melhor. Não nos torna chatos nem nos salva de sê-los. Chato é quem não nos faz rir.”

Em “Falta demônio”, uma das crônicas mais lindas do livro, ela nos lembra que a já citada Lispector e Fernando Sabino foram amigos íntimos e trocaram muitas cartas no início da carreira – tanto que fizeram um livro juntos – Medeiros diz que há demônios no vinho, cinema, na poesia marginal, nas fotos em preto-e-branco, nos livros, em Picasso, Almodóvar, Janis Joplin, na chuva, mas não há demônios no linho, na televisão, nas revistas, nos bichos e em algumas crianças. “Paixões dão um nó na cabeça da gente, mas seus pequenos grandes momentos compensam a trabalheira”.

Montanha Russa

Montanha Russa

A autora consegue falar cara a cara com o leitor, mostrando que não estamos sozinhos nas nossas neuroses diárias, como na crônica “Feliz ano-novo”: “Envelhecemos sentados no sofá, ao viciar-nos na rotina, criando os filhos da mesma forma como fomos criados, sem levar em conta algumas novas necessidades, outras formas de ser feliz”. Mas o livro também consegue mostrar as duas faces da autora (e de todos nós?): o lado tenso, e o lado incorrigível e irremediavelmente otimista, bem-humorado e de bem com a vida. Talvez por isso eu gostei tanto da obra: por ser demasiadamente paradoxal, ambígua e que ainda traz a marca de uma grande cronista: é impossível ler um texto somente.

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Escritos no estilo rápido, direto e inteligente, e com toda a sinceridade (*no texto “Nada é vexame”, ela mete o pau no Maluf), franqueza e irreverência que conquistaram milhares de leitores, estes textos tratam do olhar sobre as coisas mais corriqueiras a pensamentos e reflexões inconfessáveis e politicamente incorretos: “Monogamia é uma regra de conduta socialmente aceitável que pouco tem a ver com amor,mas com restrição”.

A autora ainda acha tempo para falar das nossas aspirações, da preocupação com a carreira, com a passagem do tempo, do desgaste do amor, do ciúme, do lado obscuro do ser humano e da dificuldade de conciliar diferentes aspectos da existência e da personalidade – temas tão universais quanto profundos. Esta é uma das melhores coletâneas que abordam temas tão diversos e ainda traz, sem dúvida, alguns dos assuntos sobre os quais mais nos indagamos hoje em dia – um prato cheio para o autoconhecimento. Maravilhoso e muito bem escrito! (“MONTANHA RUSSA”, de Martha Medeiros, crônicas, 214 págs, L&PM – 2003)

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina




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