Depois da Chuva - Vida longa ao poder crítico do cinema! | Cabine Cultural
Cinema

Depois da Chuva – Vida longa ao poder crítico do cinema!

Coluna de Pedro Del Mar sobre política, educação, cultura e muitos outros assuntos

Depois da Chuva

Acabo de assistir ao longa Depois da Chuva, filme baiano dos diretores Cláudio Marques e Marília Hughes. Recentemente, em artigo para a Folha de São Paulo, o critico Sérgio Alpendre classificou a obra como “o melhor filme brasileiro da década”. Obviamente não tenho cabedal técnico para contestar a opinião de Alpendre, raramente escrevo sobre produções cinematográficas. Como mero espectador, tendo a achar a classificação um pouco exagerada e arriscada. Mas a questão aqui é outra.

Embora eu me preocupe sempre em desconstruir fronteiras e ter cuidados com expressões ufanistas e regionalistas, não posso fugir dos meus apegos identitários. Tais apegos me trouxeram a estas linhas. Ver um filme feito por baianos – e na Bahia – trazendo um peso reflexivo deste quilate é motivo de felicidade.

Leia também:  Teatro Castro Alves celebra 50 anos recebendo Gil, Baby e Saulo
Depois da Chuva

Malgrado questões técnicas, que repito, não tenho quinhão para discutir, “Depois da Chuva” inova e transforma. Através da ficção, o longa se debruça sobre um capítulo da nossa história que tem sido relegado a um 2º plano na produção cinematográfica brasileira. Segundo Hughes em entrevista a Carta Capital: “A gente se valer do cinema e da arte para tratar dos nossos traumas, dos momentos que não foram necessariamente bons para a gente como sociedade, é extremamente importante. Temos que fazer 200 filmes sobre a transição, e não um. Temos que ter 200 pontos de vista sobre ela.”. Na mesma entrevista Marques reitera: “Durante todo o processo, nos perguntávamos se não estaríamos fazendo algo datado, por mais que para nós não fosse. Não sabíamos se a pessoas iriam entender que, ao falar de 1984, estávamos na verdade falando de um processo que nunca foi finalizado. A gente ainda está demandando e pedindo democracia. O povo nas ruas pelas Diretas Já está ligado com as pessoas nas ruas em 2013”.

Leia também:  Máquina Mundi: as poesias pós-modernas de Marcelo Mourão

“Depois da Chuva” poderia ser mais um filme sobre adolescentes rebeldes, como tantos outros. No entanto, procura entender as esperanças, ambiguidades e singularidades da juventude em meio a abertura gradual do Brasil para um processo democrático. O alcance dessa mensagem se traduz numa experiência relatada por Marques durante o Festival de Roterdã: “Um russo nos falou de sua adolescência em Moscou, nos anos 1980, e de como tinha tido a mesma percepção da abertura política seguida de impotência. É um momento comum a inúmeros jovens de todo o mundo dessa geração. E tem a ver com a própria juventude, em que se sonha, se quer transformar, acredita que as coisas podem melhorar, e, ao fim, precisa colocar os pés no chão e negociar uma série de coisas. É um processo inevitável de desilusão”.

Leia também:  Sem tempo para ler? Conheça os curtos e intrigantes contos de Fernando Paiva

Vida longa ao poder crítico do cinema!

Pedro Carvalho (Del Mar) é graduando em Direito e em Ciências Sociais. Desde a adolescência participou ativamente de movimentos estudantis e sociais na Bahia e em Minas Gerais. À margem destas atividades, mas não menos importante, cultiva o hábito da escrita, sempre atento ao que acontece na política, sociedade, comportamento, educação, cultura e entretenimento no Brasil e no mundo.

Uma resposta para “Depois da Chuva – Vida longa ao poder crítico do cinema!”

Deixe uma resposta