Crítica: Victoria, de Sebastian Schipper | Cabine Cultural
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Crítica: Victoria, de Sebastian Schipper

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Victoria

Victoria


Está em cartaz o filme Victoria, dirigido por Sebastian Schipper (Corra, Lola, Corra), uma experiência engenhosa e imersiva filmada em um único take

Por Karina Balan

Victoria (Laia Costa) é uma garota espanhola que vive em Berlim, e em uma boate conhece Sonne (Frederick Lau) e outros três garotos. Em duas horas e meia de plano sequência, a aventura juvenil fica tensa quando os garotos são intimados a pagar uma dívida com um gângster e Victoria acaba entrando sem querer no esquema.

Assim como em Arca Russa e Birdman, o plano sem cortes é utilizado para conduzir a narrativa. A diferença é que Victoria é realmente filmado um único take, enquanto Birdman, por exemplo, apenas simula um plano sequência. Produzido com elenco e equipe reduzidos, escolhidos a dedo por Schipper, Victoria foi filmado em 22 locações de Berlim entre 4h30 e 7 da manhã, aproximadamente. O filme é um desafio em termos de direção e atuação: com um roteiro nada rígido, de menos de 12 páginas, os atores tiveram mesmo que improvisar e dar ritmo à trama durante quase três horas – saber o timing de chorar, dirigir um carro e “sangrar”. Na guinada violenta do drama, Laia Costa vai de inconsequente a atônita.

A saga noturna foi gravada somente com uma câmera e iluminação disponível nas mãos do diretor de fotografia Sturla Brandth Grøvlen. Não é à toa que o Schipper coloca Grøvlen em primeiro lugar nos créditos finais, antes mesmo de seu nome. Com um projeto ambicioso desses, o diretor só conseguiu o financiamento do filme com a condição de que, se não desse certo, seria executado um plano B, em uma versão com cortes. Os ensaios ocorreram em 10 dias nos quais os atores testaram as cenas pela cidade. Durante as filmagens, três takes inteiros (ou seja, o filme todo) foram gravados, mas apenas o último foi perfeito, e é ele que assistimos no cinema.

Victoria não tem roteiro magistral, mas o que o torna instigante é justamente o realismo e a energia do take único, fruto de muito esmero técnico e logístico – o que compensa uma ou outra cena perceptivelmente arrastada,existentes para dar conta dos trâmites de produção. Merece destaque também a trilha eletrônica e orquestrada composta por Nils Frahm que acompanha o plano-sequência, alongando-se indefinidamente em alguns momentos.

Sebastian Schipper encontrou dificuldades para fazer um tipo de filme pouco usual. “Não tínhamos referência e foi um grande desafio, porque você tem que aprender tudo.(…) Na indústria cinematográfica, muitas vezes ficamos ‘quereremos ser bons como fulano ou melhores’, o que não é uma forma muito criativa de se pensar”, completa o diretor.

Após deixar rendidos festivais como Sundance e Toronto – ambos haviam, anteriormente, considerado impossível a execução do filme –, é a criatividade em Victoria que permanece chamando a atenção das plateias pelo mundo.

Karina Balan Julio é estudante de Comunicação da UNICAMP e correspondente do site em São Paulo


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