Crítica: “Sexo, Drogas e Axé Music” o espetáculo que uniu Shakespeare e Ivete Sangalo
Teatro

Crítica: “Sexo, Drogas e Axé Music” o espetáculo que uniu Shakespeare e Ivete Sangalo

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Ricardo Castro

Ricardo Castro

“Certamente saí do TCA mais leve, sorridente e com a certeza de que a Bahia vai muito bem quando o assunto é dramaturgia”

Por Pedro Del Mar para o Cabine Cultural

Imagine as seguintes fórmulas: Ivete Sangalo + William Shakespeare ou LepoLepo + Hamlet. Parecem dois universos completamente distintos e inconciliáveis, não é mesmo? Mas não é o que prova a peça “Sexo, Drogas & Axé Music” do ator baiano Ricardo Castro.

Em cartaz no Teatro Castro Alves em 3 apresentações únicas, nos dias 27, 28 e 29 de Janeiro, o espetáculo do multifacetado Ricardo foi uma agradável surpresa que mesclou o universo de Shakespeare com os 30 anos da axé music. No monologo, Ricardo Castro interpreta Ramlet (Sim, com “R” mesmo) um homem de meia idade que padece de um problema devastador: é viciado em axé music. Neste contexto, Ramlet conta ao público suas diversas peripécias e aventuras que o vício em axé music o levou. A morte de seu pai, as história da sua mãe, os companheiros de vício, a sua dramática história de amor com Ofélia e etc. Tudo isso em meio a diversas referências há dezenas de figuras carimbadas do axé, seja citando trechos de suas músicas ou interpretando essas personalidades de forma figurativa. De Luiz Caldas a Igor Kannário, de Gerônimo a Daniela Mercury, de Ricardo Chaves a Vingadora. Tudo isso de forma bastante cômica e original, sem os clichês óbvios que poderíamos esperar de piadas com o axé.

Apesar de o espetáculo ser guiado pelo fio condutor do humor, Ricardo não se intimidou em introduzir críticas à falência do axé music e do atual modelo do carnaval de Salvador no enredo da obra, criticando, por exemplo, a falsa “filantropia” de Bell Marques e Ivete Sangalo que irão sair na Avenida sem cordas, quando, na verdade, continuarão a receber gordos cachês por esses shows, desta vez pagos com o dinheiro do Governo do Estado, ou seja, com o meu e o seu dinheiro, nenhuma novidade.

Ricardo Castro - Foto Cabine Cultural

Ricardo Castro – Foto Cabine Cultural

Outro ponto alto do espetáculo ficou por conta da peculiar opção que o ator e a produção do Teatro fizeram ao direcionar a apresentação para o backstage do palco principal. Ator e público dividiram o mesmo espaço, proporcionando uma inusitada e interessantíssima experiência. E põe interessantíssima nisso! Nunca imaginei um dia estar do “outro lado”, mesmo permanecendo ainda na condição de espectador. Poder pisar no sagrado palco do Castro Alves, no mesmo chão que já pisaram tantos monstros da música e do teatro nacional e internacional foi maravilhoso! Inesquecível!

Inesquecível também foi a bela homenagem que Ricardo Castro direcionou a sua mãe ao findar o espetáculo. Segundo Ricardo, ele decidiu tornar-se ator ainda criança, quando ali mesmo no Teatro Castro Alves, levado por sua mãe, se apaixonou pelo universo da dramaturgia e sua vida nunca mais foi a mesma.

Não ser mais o mesmo, acho que é disso que se trata a missão dos atores. Fazer, através do ofício, com que cada espectador saia do teatro de forma diferente da que entrou. E isso Ricardo Castro soube fazer com maestria. Não há como passar incólume a essa experiência. Certamente saí do TCA mais leve, sorridente e com a certeza de que a Bahia vai muito bem quando o assunto é dramaturgia.

Pedro Del MarPedro Carvalho (Del Mar) é graduando em Direito e em Ciências Sociais. Desde a adolescência participou ativamente de movimentos estudantis e sociais na Bahia e em Minas Gerais. À margem destas atividades, mas não menos importante, cultiva o hábito da escrita, sempre atento ao que acontece na política, sociedade, comportamento, educação, cultura e entretenimento no Brasil e no mundo.


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