Os caras que eu quase amei - Ep. 1: meu primo de terceiro grau
Comportamento

Os caras que eu quase amei – Ep. 1: meu primo de terceiro grau

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Logo Coluna de Juliana“Meus devaneios foram interrompidos quando ele puxou Harry Potter e a Pedra Filosofal do Box Edição de colecionador. Ninguém toca nesse box. “Posso ler?”. Hã? O que ele quer dizer com isso?”

Meu primo de terceiro grau

Está na lista de “Coisas que só a sua vó faz”, juntar a família, até aqueles parentes bem distantes para um almoço, de preferência, um almoço na sua casa. Chama aqueles sobrinhos que você nunca viu na vida, que por sinal e regras da árvore genealógica, são primos da sua mãe e prepara um banquete daqueles que a gente só vê em novela. Eu sou uma pessoa bem família, mas esses parentes distantes me tiram da minha zona de conforto. O que diabos eu vou conversar com eles? Só sei falar de Harry Potter!

Às 09:40 de domingo, o carro estaciona na frente da nossa casa. Últimos segundos para conferir o visual no espelho e garantir que a casa está limpa. Minha vó, minha tia e minha mãe vão logo receber a visita de braços abertos e falando sobre o quanto estão diferentes. Isso é um pouco engraçado, espero poder viver cenas assim com os meus primos também.

É nossa vez de cumprimentá-los, até que… Ai meu Deus, não permita que esse cara seja meu primo de terceiro grau, preciso dele como marido! O primo da minha mãe tem quatro filhos, três meninas bem simpáticas e uma rapaz que não precisa ser nada nessa vida, a beleza dele já basta. Ele parece surfista (será que é? AMEI!), tem a pele um pouco bronzeada, o cabelo bagunçado também queimado de sol e um sorriso de canto, tímido. Bem, estamos do mesmo lado da moeda, está tudo ao nosso favor. O que dizer desses primos que mal conheço e já considero pakas? Amo almoços em família com pessoas que nem conheço.

Conquista

“Ai meu Deus, não permita que esse cara seja meu primo de terceiro grau, preciso dele como marido!”

O ritual necessário para esses momentos é, antes de mais nada, mostrar toda a casa. Meu pai fica orgulhoso dessa parte, ele planejou cada detalhe da nossa casa, mas nem é arquiteto. “Como o jardim é bonito”, “Aqui é bem ventilado”, “Nossa, a casa é bem espaçosa!”, “Foi muito bem planejada” e então chega na frase que já estou acostumada a ouvir quando se deparam com a minha estante: “De quem é todos esses livros?”. São meus, óbvio! Mas não digo isso, deixo que minha tia faça um breve discurso de como gosto de ler e sou inteligente. Um segundo depois, todos continuam o passeio turístico pelos cômodos, mas o meu primo de terceiro grau fica.

Lógico que eu não fiquei ali para puxar conversa, foi só pra vigiar os livros mesmo, claro… Não demorou muito até conversarmos sobre as obras que eu tinha, as minhas favoritas como “A Menina Que Roubava Livros” e o quanto os romances de Nicholas Sparks me deixam entediadas. Ele já leu toda a coleção de O Senhor dos Anéis. É pra casar! Enquanto ele corria os olhos pela estante, fiquei imaginando todos os nossos livros juntinhos na nossa sala de estar e a família reunida em mais um almoço de domingo.

Meus devaneios foram interrompidos quando ele puxou Harry Potter e a Pedra Filosofal do Box Edição de colecionador. Ninguém toca nesse box. “Posso ler?”. Hã? O que ele quer dizer com isso? Claro que você pode ler, querido, custa R$ 359, 60 na Saraiva. Não é possível que ele esteja pedindo meu livro emprestado, não é possível, não é possível…

– Claro.

Saiu mais seco do que eu gostaria, mas, na verdade, essas palavras não deveriam nem ter sido pronunciadas. Ok, respira fundo, Juliana. Vocês vão se casar e todos os seus livros serão dele também. Mantenha a calma.

O almoço seguiu tranquilo, cheio de histórias e risadas. Minha vó pegou um álbum de família bem antigo e ficamos vendo toda a nossa descendência em fotos em preto e branco. Minhas primas de terceiro grau são muito gentis e risonhas, meu primo/namorado falava sobre a faculdade e a banda que formou por lá. Isso é tão Engenheiros do Hawaii! Pena que não temos um violão, uma serenata cairia bem agora.

Quando o dia começou a escurecer, começou aquela velha conversa que todo mundo conhece:

– Temos que ir antes que fique tarde.

– Vai não, está cedo ainda…

É tudo sempre igual! Chegou a hora da despedida – e de falar “Precisamos marcar de novo! – e eu estava torcendo para que certa pessoa esquecesse de pegar meu livro, mas que não esquecesse de mim. Saiu tudo ao contrário do planejado.

Menina desesperada

Não sei qual das duas partidas partiu mais meu coração. O livro ou ele? Nem sequer trocamos nossos telefones, nem nada mais… Uma pena

Meu primo de terceiro grau com aparência de surfista, uma banda e Harry Potter e a Pedra Filosofal, foi embora. Não sei qual das duas partidas partiu mais meu coração. O livro ou ele? Nem sequer trocamos nossos telefones, nem nada mais… Uma pena. Ontem mesmo o primo da minha mãe ligou para a minha vó e disse que o dia foi muito agradável, as meninas gostaram muito de nós e em breve pretendem voltar, mas o filho não vem, ele não gosta muito da zona rural.

Zona rural? Tirem o nome desse cara da nossa árvore genealógica! Posso viver com um primo de terceiro grau a menos, mas não posso viver com um Harry Potter a menos. Isso não vai ficar assim, vou stalkeá-lo em todas as redes socias imediatamente. Eu sabia que ele não era legal, sabia mesmo. Desde a hora que ele desceu do carro e imaginei nosso casamento.

Juliana AzevedoJuliana Azevedo é estudante de Direito mas nas horas vagas gosta de brincar com as palavras e os sentimentos que coexistem dentro de si. É a dona do blog Chuva de Jujubas e agora faz parte da equipe Cabine Cultural


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