"O Signo das Tetas" e o impulso ancestral
Cinema

“O Signo das Tetas” e o impulso ancestral

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Longa-metragem realizado no Maranhão, sem qualquer patrocínio público,  finalmente chega ao circuito comercial brasileiro em abril, após mais de um ano de espera desde o seu lançamento no Festival de Tiradentes 2015

Por Adolfo Gomes

Há uma ancestralidade latente em “O Signo das Tetas” (BRA, 2015), de Frederico Machado. Algo que o cinema brasileiro contemporâneo se ressente. Como se a opção por uma autonomia artística (tanto formal, quanto temática) em relação à sua época, ao presente sobretudo, fosse quase um tabu.

É sintomático que o filme de Frederico Machado seja uma produção radicalmente independente, realizada sem o apoio de editais públicos ou patrocínio de qualquer ordem, portanto fora do radar de influência dos modelos consagrados e condicionantes para a captação de recursos no setor audiovisual do País.  E não apenas quando se trata de viabilizar filmes, mas com repercussões na maioria dos festivais e projetos de difusão em curso no Brasil, que o diga o próprio Machado, organizador do Festival Lume em São Luís, outra iniciativa inteiramente à margem das benesses do mecenato oficial.

Neste contexto, a propalada diversidade da recente cinematografia nacional parece mais territorial do que criativa, um aspecto que “O Signo dos Tetas” também nos ajuda a demonstrar. É um filme desterritorializado por sua poética  transversal e arquetípica.  Ainda que seja possível reconhecer alguns índices do mundo rural brasileiro, o que prevalece é uma espécie de arcaísmo subjacente à paisagem, capaz de conferir à encenação esse caráter atemporal e magmático das coisas que duram, que resistem intactas à violência e degradação humanas.

O Signo das Tetas

O Signo das Tetas

Por isso, a chave psicanalítica e semiótica que o título sugere, é atravessada pelas evidências da natureza que dão sentido e entonação às imagens. Machado filma os corpos em toda a sua espessura e lubricidade.  À presença dos atores, substanciosa e tátil, contrapõe-se esse ambiente mineral, uterino que a obra poética de Nauro Machado (pai do realizador, com participação essencial no filme) referencia e amplifica desde o início.

O Signo das Tetas” subverte a fatura naturalista que predomina na produção brasileira atual em favor de um gesto mais livre e visceral. Frederico Machado conjura forças do passado para fazer essa travessia por entre homens e mulheres, que existem para além dos personagens e das cartilhas da dramaturgia tradicional, nem que seja apenas,  como anuncia o título do belo documentário de Pierre Perrault, para o mundo prosseguir.

 

Adolfo GomesAdolfo Gomes é cineclubista e crítico de cinema filiado à Abraccine. Curador de mostras e retrospectivas, entre as quais “Nicholas Philibert, a emoção do real”, “Bresson, olhos para o impossível” e “O Mito de Dom Sebastião no Cinema”. Coordenou as três edições do prêmio de estímulo a jovens críticos “Walter da Silveira”, promovido pela Diretoria de Audiovisual, da Fundação Cultural da Bahia.


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