Literatura: Escuta, Zé Ninguém! - Wilhelm Reich | Cabine Cultural
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Literatura: Escuta, Zé Ninguém! – Wilhelm Reich

Escuta, Zé Ninguém!

Escuta, Zé Ninguém!

“Um livrinho maravilhoso e mais do que necessário nestes dias em que pensar ainda é uma coisa perigosa. Um livro para o Zé Ninguém que também mora no seu peito e que se alimenta da covardia, egoísmo e comodismo diários.”

Por Elenilson Nascimento

Sabe estes livros que te pegam de jeito e te jogam na parede? Foi exatamente isso que aconteceu comigo nas várias leituras que fiz de “Escuta, Zé Ninguém!”, de Wilhelm Reich. Um livro desafiador, desaforado, que bate sem dó na cara do Zé Povinho – você, sim você mesmo, não me olhe com essa cara de desentendido – que ainda acha que o Governo, Obras Sociais Franciscanas e Igrejas nesta Républica de Repolhos têm feito e/ou um dia farão alguma coisa para acabar com os problemas sociais existentes desde sempre.

Um livro escrito há cerca de 71 anos atrás, em 1945, sem qualquer intenção de vir a ser publicado, por um psicanalista austríaco, meio louco, meio torto, discípulo de Freud, que, através de suas pesquisas, nos deixou vários textos com relação às doenças psicossomáticas, a descoberta do orgone e polêmicas teorias sobre sexo e a sexualidade humana. Um homem incompreendido, muito a frente do seu tempo, um pensador marginal (*me identifiquei total com ele), que foi expulso do partido comunista, extraditado, teve sua obra proibida e queimada em diversos países e terminou seus dias preso, onde morreu.

“Escuta, Zé Ninguém” é uma resposta emocional e emocionada para todos aqueles que tentaram liquidar pela difamação todo o trabalho científico que o autor fazia para os Arquivos do Orgone Institute, criado por ele mesmo – trabalho este, que provocou grandes controvérsias e o levou à morte, numa prisão, talvez por depressão, pois seu pensamento contrariava a ortodoxia freudiana.

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E foi justamente neste livrinho nada pretensioso que ele se tornou mais conhecido como escritor do que como pesquisador. Na obra, o termo “Zé Ninguém” pode ser compreendido como “homem comum”, ou “homem médio”, um homem que por opção não é mais livre, um homem que aceita a opressão e que se lança a pergunta: “Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?” Isso me lembra as briguinhas de putas entre os chamados coxinhas e petralhas.

Reich escreveu que muitos perderam a capacidade de enxergar o que de nós está mais próximo, que, no caso, somos nós mesmos. O autor ao procurar entender esse “homem comum”, esse “homem médio” diz: “… olhando prudentemente em torno, entendi o que te escraviza: ÉS TU TEU PRÓPRIO NEGREIRO”. Mas no livro não são trabalhadas suas tão polêmicas teorias, e sim questões bem pessoais, um modo padrão de comportamento que nos toma como morada e nos cega e deixa nosso pensamento lento, dando abertura aos preconceitos, ao medo, a raiva e a mesquinhez. “Tu devoras a tua felicidade. Nunca foste capaz de gozar com plenitude. É por isso que a devoras avidamente, sem sequer assumires a responsabilidade de assegurares. Nunca te foi permitido aprenderes a cuidar das tuas alegrias, a alimentar a felicidade…”

Vale a pena ressaltar que esse homem, este Zé Ninguém, não é alguém que necessariamente tem um baixo poder aquisitivo. O Zé Ninguém não faz distinções de credo, opção sexual, cor, idade ou classe social. Ele pode ser encontrado em várias localidades. Ele é a opinião pública, ele é o povo, o senso comum, a consciência social. “Terás que entender que és tu quem transforma homens medíocres em opressores e torna mártires os verdadeiramente grandes.”

Mas a sociedade dominada por Zés Ninguéns – partidários acéfalos de partidos políticos, de igrejas e afins… – é perigosa e a história pode sempre nos provar isso, como o nazismo racista na Alemanha e o neonazismo patético de hoje, como a abrangente intolerância da bancada evangélica brasileira no Congresso Nacional e os demais conservadores ali presentes, ou simplesmente na cabeça daquele brasileiro que faz tudo pra ter vantagem, para dar um “jeitinho” de conseguir o que quer ou o que acha que quer.

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Por tanto, “Escuta, Zé Ninguém!” é um livrinho maravilhoso e mais do que necessário nestes dias em que pensar ainda é uma coisa perigosa. Um livro para o Zé Ninguém que também mora no seu peito e que se alimenta da covardia, egoísmo e comodismo diários. “Eu não posso arrancar-te do lameiro. Só tu podes fazê-lo”. Talvez Reich também quisesse dizer que a multidão pobre e burra seria um bárbaro doente que mostra toda a sua barbárie em todas as ocasiões, principalmente quando acuada. Mas logo que ela se apodera da liberdade, transforma-a em anarquia, que é o mais alto grau de barbárie, revelando o “Zé Ninguém” que existe em todos nós.

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Talvez o Zé Ninguém de Reich seja uma “Maria vai com as outras” e que estima os inimigos engravatados e assassina os amigos de enfeite no Facebook. “Escuta, Zé Ninguém: a miséria da existência humana é visível à luz de cada um destes pequenos horrores. Cada ato mesquinho teu faz retroceder de mil passos qualquer esperança que possa restar quanto ao teu futuro.” Em suma, o autor nos ensina que todo e qualquer Zé Ninguém tem ações e reações muito estranhas, panfletárias e mesquinhas. Basta ele ser manipulado por ideias mais convencedoras do que as suas próprias e a sua verdadeira fase é descoberta. Mas este mesmo Zé Ninguém tem uma força que ele jamais conhece, talvez a mesma força alardeada na franquia de filme “Star Wars”: “o lado negro da força”, sendo que esta força o torna tão cego para compreender que sua mente está sendo manipulada e seus ideais sempre massacrados. Então, faço aqui um convite de leitura e análise de “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich para lutarmos contra o Zé Ninguém que deseja nos ter como hospedeiro. Então escuta Zé Ninguém, Zé Povinho, Zé Mané, escuta esse apelo e seja logo alguém. Opine, chore, grite, twite, compartilhe, corra, viva, sinta. (Escuta, Zé Ninguém, de Wilhelm Reich, tradução de Maria de Fátima Bivar, 11 edição, 11 págs, Publicações Dom Quixote, Lisboa – 1993)

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina

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