“Não sou um militante, minha única bandeira sou eu mesmo” diz Thiago Pethit em Salvador | Cabine Cultural
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“Não sou um militante, minha única bandeira sou eu mesmo” diz Thiago Pethit em Salvador

Thiago Pethit em Salvador

Thiago Pethit em Salvador

“No atual momento eu não tenho nenhuma vontade de fazer um disco novo ainda, sinto que não tem nenhuma novidade no ar. Tudo que a gente vive hoje já eram temas em 2013, o impeachment, os canalhas retrógrados, a democracia e tal”

O cantor e ator paulistano Thiago Pethit, 33 anos, se apresentou em Salvador na última quinta-feira, 05/05, no Commons Studio Bar. A apresentação foi a primeira dele em solo soteropolitano em 8 anos de carreira.

Em um espetáculo capitaneado pela Maré Produções e com o repertório do seu último disco “Rock N´Roll Sugar Darling” (2014) e algumas músicas de discos anteriores, Pethit fez um show cheio de energia e irreverência. Com um apelo estético que remete ao rockabilly norte-americano e uma simpatia ímpar, com direito a várias descidas do palco e contato direto com o público, Thiago empolgou os presentes, alguns fãs de longa data, que estavam ávidos por um show dele. Os 8 anos de espera foram bem compensados em pouco mais de 1 hora de uma apresentação repleta de vitalidade e simbiose entre público e artista.

Na oportunidade, o Cabine Cultural teve uma longa conversa com Pethit sobre música, cinema, teatro e política, confira a entrevista:

– Cabine Cultural: Você, antes de se tornar cantor, já tinha uma sólida carreira como ator teatral. Um dia você foi levado pela Tulipa Ruiz para o show de uma cantora francesa e esse episódio parece ter sido fundamental para você abandonar o teatro e iniciar a carreira musical. Como ocorreu essa transição?

– Thiago Pethit: Eu comecei a fazer teatro, já profissionalmente, com 9 anos de idade. Mais tarde eu já estava trabalhando com grupos de teatros consolidados e já estava ganhando dinheiro com isso, o que é muito difícil quando se trata de teatro, então, naquele momento, abandonar aquela carreira era algo meio que impensável. Mas ao mesmo tempo estava em uma fase em que eu queria decidir o que realmente iria fazer da minha vida e meio que, apesar do dinheiro, eu já estava decidido que não queria continuar fazendo teatro e queria abrir novos caminhos. Foi nessa época em que me mudei de São Paulo para Buenos Aires, a principio para estudar literatura, mas ai acabei ingressando em um conservatório de música que tinha do lado da minha casa, era gratuito, fiz o teste, passei e estudei lá por 1 ano. Quando voltei para São Paulo eu já sabia que era realmente da música que eu queria viver e ai começou minha trajetória.

– Cabine Cultural: Quando escutamos o teu primeiro disco, “Berlim, Texas” de 2010 e depois escutamos o último, “Rock N´ Roll Sugar Darling” de 2014, percebemos uma grande diferença entre eles, na musicalidade e na proposta, acho que podemos dizer que a sua música tornou-se mais agressiva. Como ocorreram essas mudanças?

Thiago Pethit em Salvador

Thiago Pethit em Salvador

– Thiago Pethit: Quando eu olho para os meus 3 discos e vejo as diferenças entre eles, acho que eles refletem não só os diferentes “Thiago´s” que eu era em cada momento, mas refletem também um retrato das diferenças que ocorreram na cena musical, no mercado independente e no país em que vivemos. Em 2010 eu fazia uma música mais delicada, o que mostra também uma ingenuidade minha como artista. Eu sempre digo que eu nunca mais consegui compor como eu compunha antes de lançar um disco profissional, é muito diferente. Uma coisa é eu compor pra mim mesmo, sem maiores pretensões e tem uma coisa muito louca que acontece comigo depois que eu lancei meus discos. Tipo, uma situação hipotética, eu fiz uma música sobre um tênis preto e na minha cabeça fica muito claro que eu estou falando de um tênis preto e o que eu penso e disse sobre esse tênis preto. Mas quando essa música vai para o mundo, as interpretações são múltiplas, vai ter gente dizendo que eu falo sobre um tênis branco e não preto. Então, essas interpretações do público nem sempre correspondem a aquilo que você imaginou que seria, e isso era uma ingenuidade minha. Já nos discos posteriores eu tentei deixar tudo que pudesse ser mal interpretado mais às claras. Mas também refletiu o momento, em 2010 a cena independente estava fervendo, muita coisa acontecendo e também foi o fim dos governos Lula e isso significava um Brasil com muito potencial, muito dinheiro sendo investido e com uma valorização de uma cultura fora do mainstream que começava a ter espaço.

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Já em 2012, ano do meu 2º disco (Estrela Decadente), muita coisa mudou. Já era o 2º ano do governo Dilma e minha vida, meu discurso, meu dinheiro no banco, tudo já era diferente. E o que o público queria consumir também mudou, porque tem haver com o espirito do tempo. Nesse disco eu já abordei muito as questões da diversidade sexual, do machismo e da androgenia. E ali naquele momento a gente estava na iminência de descobrir nomes que hoje são comuns quando se trata de oposição a diversidade sexual, como Marcos Feliciano e Jair Bolsonaro que surgiram logo depois em 2013. Então o disco tem essa conexão com o contexto político da época.

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Neste contexto das manifestações de Junho de 2013, do aparecimento dos blackblocs e toda aquela coisa, foi ai que eu entendi que necessitava fazer um novo disco, porque eu precisava falar de novas coisas, o que em 2014 viria a se tornar esse disco atual. O que é exatamente o contrário do que penso hoje, no atual momento eu não tenho nenhuma vontade de fazer um disco novo ainda, sinto que não tem nenhuma novidade no ar. Tudo que a gente vive hoje já eram temas em 2013, o impeachment, os canalhas retrógrados, a democracia e tal.

– Cabine Cultural: você se considera um artista militante?

– Thiago Pethit: Não, na verdade eu odeio essa palavra, não gosto mesmo. Acho que isso é próprio do rap, da linguagem do rap, de onde os rappers nasceram, não é a minha. Não gosto do termo militante porque é como se eu estivesse comprometido com alguma bandeira e a minha única bandeira sou eu mesmo.

– Cabine Cultural: Seu 1º show em Salvador, qual a tua expectativa para o púbico soteropolitano e qual a tua relação com a cidade e com a Bahia?

– Thiago Pethit: Pra mim está sendo engraçado tocar aqui, desde que eu cheguei estou revivendo momentos. Já passei muitas férias em Salvador, eu tinha uma grande amiga soteropolitana, era uma fotógrafa chamada Maria Sampaio, uma figura super baiana, ela e a esposa Célia, passei 1 mês e meio na casa delas. Infelizmente a Maria faleceu há uns 2 anos atrás. Tenho a impressão de que me apaixono a cada esquina de Salvador, a cada troca de olhares nas ruas, eu me derreto. Então, eu estou vivendo uma coisa muito nostálgica, o que é difícil ocorrer, porque nas outras cidades eu só tenho lembranças de trabalhos, de shows, aqui não, tenho lembranças diversas de amigos e lugares que não se relacionam com meu trabalho. O engraçado é que todas as minhas férias que passei na Bahia eu perdi o voo de volta. Uma vez vim pra Chapada Diamantina pra passar 15 dias, passei 1 mês. É sempre assim, por isso acho que perderei o voo de amanhã (risos).

– Cabine Cultural: Você está com uma música, “Forasteiro”, na trilha sonora da novela “Velho Chico” da Rede Globo. Como foi isso? Era um objetivo seu? Te surpreendeu o convite?

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Thiago Pethit em Salvador

Thiago Pethit em Salvador

– Thiago Pethit: Olha, não era um objetivo. Pra ser sincero, eu sou zero novela, não consigo me apegar, não consigo gostar da linguagem das novelas. Na verdade eu sou zero TV, quase não vejo. E é engraçado, porque eu entendo o quanto é importante ter uma música em novelas, o quanto isso traz de dinheiro, de shows, de visibilidade, de respeito e tal. Mas eu tenho uma coisa assim, se não é o meu barato, não é o meu barato, então eu não me esforço em fazer aquilo que eu não quero fazer. Então, eu estou sendo duplamente sortudo. Primeiro porque eu não fiz nenhum esforço e foi um convite espontâneo que partiu deles (Globo) e segundo porque o convite partiu do diretor Luis Fernando de Carvalho, que dirige Velho Chico, e assim como eu não gosto de novela, eu amo cinema, e o Luis é um diretor de cinema maravilhoso. Assim, quando o convite chegou eu fiquei muito surpreso, no começo achei que estava errado (risos).

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– Cabine Cultural: Você falou de cinema, agora no dia 19 de Maio estréia o filme “Amores Urbanos”, escrito e dirigido pela Vera Egito, onde você é um dos protagonistas. Como foi fazer o filme? Isso significa um retorno seu a profissão de ator?

– Thiago Pethit: Eu não tinha nenhuma vontade de voltar a atuar. No ano passado eu fui convidado para fazer uma peça de teatro com uma atriz chamada Juliana Galdino, que é uma atriz excepcional, e eu respondi: “eu não quero fazer, mas vou fazer”, só porque era com ela. Porque no fundo eu penso, o que estamos fazendo aqui na terra se não for se relacionar com pessoas legais, ter experiências diferentes e tal? Então quando chegou esse convite, eu topei por isso. Com o filme foi bem parecido, a Vera Egito, diretora do filme, é minha amiga, dirigiu 3 vídeo clipes meus, então eu topei. A Vera costuma falar que é um filme de autoficção, não é autobiográfico, é uma ficção mas com uma história que pode ser minha ou de alguém que conheço, você vê na vida real histórias como a do filme. Então foi bem divertido. Uma das atrizes que contracena comigo, a Maria Laura Nogueira, gravou meu clipe da música “Romeo” e já é minha amiga desde a época do teatro, quando eu era pré-adolescente.

 

Pedro Del MarPedro Carvalho (Del Mar) é graduando em Direito e em Ciências Sociais. Desde a adolescência participou ativamente de movimentos estudantis e sociais na Bahia e em Minas Gerais. À margem destas atividades, mas não menos importante, cultiva o hábito da escrita, sempre atento ao que acontece na política, sociedade, comportamento, educação, cultura e entretenimento no Brasil e no mundo.

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