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Letras Irreverentes: Bem ou mal, acompanhada

Logo Letras IrreverentesColuna de Helena Prado sobre tudo que o universo pode oferecer; um espaço para contos, crônicas, textos, relatos…

Bem ou mal, acompanhada

Sozinha, e muito mal acompanhada, conheci num blog sobre política o amigo ideal:  dono de uma discografia fenomenal que combinava com a minha, morava a quilômetros e mais quilômetros da minha cidade, ele não sabia quem eu era, muito menos eu quem era ele.

Fomos trocando músicas e ideias, e, quando me dei conta, não só nos conhecíamos por fotografia, como discutíamos todos os tipos de problemas. Parecíamos fazer parte da mesma família.

Faz tempo que somos amigos à moda antiga, por e-mail. Sem nunca nos termos visto.  Assim, tipo carne e osso, muito mais carne do que osso. Eu, que ódio!

João, seu nome, é bastante culto e preparado. Atinado, ele foi captando minhas preferências e ideias, não só as musicais, como outras de outras searas. Reparou de imediato que eu sou “tranquila”, mas “levemente” ansiosa. E brava. Sobretudo se o assunto envolve dinheiro. Sim, eu sou judia, embora portuguesa de pai, que é idêntico aos judeus. Não só como a expressão “fulana é uma verdadeira mãe judia”, como também por dinheiro. Não somos nem nunca fomos ortodoxos lá em casa. Lógico, tampouco eu ou Jacob, meu marido.  Mas detestamos tocar no assunto dinheiro nas nossas conversas, ou que alguém converse perto da gente sobre o “vil metal”.

Voltando ao João, ele também é educadíssimo, E qual mulher não gosta de gente educadíssima? Já sei: dona Marisa Letícia, que ama aquele boçal desonesto. Pudera, ela é cúmplice dele… Mas João, ah João, este sim é um cavalheiro, e o tipo de homem que toda mulher gostaria de ter ao seu lado, pensei um dia. Isto depois de trocarmos milhares de e-mails. Entre papos, músicas e risadas, ficamos amigos “inseparáveis”.

Somente quando o vi por fotografia foi que me decepcionei: ele era gordo para o meu gosto. Já bastava o que eu tinha em casa, que saco! Mas, quem ama um amigo, ama exatamente como ele é. Ou, sem opção, ama quem aparecer pela frente. O que nunca foi o meu caso.

Com o peso acima do ideal ou não, ele era muito atraente. E, decididamente, já era um amigo querido de quem eu não abria mão. Ele sabia tudo que eu fazia, desde às segundas e quintas-feiras, até minhas aulas de espanhol imperdíveis, nas terças e sextas.

Eu amo a língua espanhola. Não sei por quê, nem faço a mínima ideia. E até que tolero numa boa o intragável portunhol. Mas tenho loucura mesmo é por um belo e bem dançado tango. Ô música sensual!  Minha ideia era aprender a dançar tango e a escrever espanhol, porque falar eu já falava. E cantava também. Só faltava dançar. Sim, e um parceiro que me carregasse, flanando pelos bailes que iríamos frequentar até eu morrer.

João sabia também que minha vida era assim e assado. Conversávamos sobre o dentista, a feira que eu fazia, nossos pets (por que não bichos, por que mudou? Falávamos um pouco da sua mulher, coincidentemente espanhola, Dolores. Brava de dar porrada, como ele me disse. Ah, também eu falava pouco do meu marido Jacob, um advogado morno.

João foi sabendo de tudo a meu respeito e me mandava tudo que é bom em matéria de música. Mesmo eu sendo de uma geração bem mais jovem que a dele, eu odiava ouvir, por exemplo, os “QI de Abelha”, por exemplo.

E num dia muito louco e atribulado, desses que a gente quer descansar, pedi a ele para me madar um Nat King Cole. Também uma de Billie Holiday. Fui prontamente atendida, com o seguinte escrito no “assunto” da mensagem: “Para a minha amada Sarita”. Ou “mais musiquinhas para a minha Sarita. Adorei! No fundo, bem no fundo, digeri alegremente ser a “amada e minha Sarita”.

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Com o tempo passando e a vida em casa ficando aquela mesmice, João foi ficando muito íntimo. Ele já sacava as músicas que eu gostava e tudo que eu fazia na minha insossa mas atribulada semana, dirigindo a casa. E indo às aulas de espanhol, lógico.

E meu Jacob já não me dava muita bola, trabalhava horas a fio, esquecendo-se de mim. Ignorava frequentemente que “soy una mujer muy hermosa y caliente”. “Soy espontánea, simpática y atractiva”. Soy modesta también”, exercitei meu espanhol, rindo sozinha.

Passei a ficar, de repente, com o olhar perdido, parado…  Só sonhando, sonhando. E Jacob era tão pouco observador  que eu vivia com o olhar de peixe e ele nem notava. Eu estava mesmo era pensando no que João falava e nas músicas que ouvíamos, na nossa intimidade. Um dia meu sinal amarelo acendeu: estou ficando dependente de João e isto, para nós judeus, é impensável.

As leis Moisés não são meras diretrizes básicas para a manutenção de uma sociedade decente, mas o que lhes imprime poder é, justamente, a sua Origem. Transgredi-las, a propósito e com rebeldia, equivale a desafiar a Deus e a lutar contra Seu projeto para este mundo. Em contrapartida, cumprir deliberadamente um mandamento da Torá equivale a estabelecer contato com Deus, por demonstrar empenho em construir um mundo que atenda os desejos de seu Grande Arquiteto. Mesmo não sendo ortodoxos, como já disse acima, levávamos mais ou menos em conta todas estas diretrizes.

Um dia pensei e emendei: se nos mandamentos de Moisés consta que não se deve cobiçar a mulher do próximo, eu me perguntava, e o homem da próxima?,  exercitava minha lógica.

Dona Flor

Dona Flor

Caramba, pensei um dia! Do que viverá João? Quais seriam seus proventos? Ou de onde ele vinha, já que ele passava o dia inteiro ouvindo música e falando comigo no computador, sempre que eu estava livre. E o tempo gasto comigo, então? Soube, afinal, que ele era professor universitário da área de humanas e aposentado. Que merda de aposentadoria um professor deveria receber, me interessei. Pior, brochei. Ele me disse que morava em Salvador, mas e se, por ventura, ele morasse no Rio? Não recebia porra nenhuma porque o governo não está pagando. Putz, pensei, se for isso, pode ir tirando o cavalinho da chuva porque tenho verdadeira ojeriza em pensar que um dia não terei dinheiro nem para comprar um carnatzlach, ou um pierogi. Sem contar a divina salada de salmão defumado. Me benzi. Igualzinha a uma católica. E pensei no milionário petista Chico Buarque cantando Pai, afasta de mim este cálice…

João seria rico de nascimento? Um pobretão que ganhou na loteria? Sei lá, foram muitas divagações sobre o mesmo tema. Nenhuma poética, mas sim tentando pôr os pés no chão. Outra coisa que me intrigava: com tantas mulheres dando sopa, mais dando do que sopa, achava muito estranho o nosso relacionamento.  Um caso de amor platônico da modernidade? Não, não poderia ser. Eu só queria brincar nas horas em que eu passava só. E eram tantas…

Quanto mais eu pensava em lógica, mais ilógica eu ficava. Um dia ele voltou à carga: “Mais musiquinhas para a minha Sarita”, ele me cutucou mais íntimo ainda. Falava agora abertamente sobre todos os assuntos e discorria sobre eles com muita naturalidade: política, filosofia, escritores prediletos, atores, filmes, um assombro! E eu? Eu delirava. Mas como ele e sua espanhola sobreviviam com a aposentadoria não saía da minha cabeça.

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Um dia me dei conta do seguinte: incauta e língua solta, ele tinha munição contra mim, se fosse o caso, para muitos e muitos anos. Eu era uma boquirrota. Ávida por conversar com alguém, já que Jacob era caladão e só falava de processos que eu não entendia nada. Com João eu falava tudo. E sobre tudo. E, melhor, entendia tudo. Completamente diferente de Jacob, uma delícia!

Num dia destes de muito calor de janeiro, João me mandou um e-mail em espanhol “contando que iria escrever um conto”. Contando um conto? Quero ver o que de João irá sair, pensei curiosa. E o incentivei.

No ápice de uma breguice desconhecida e desconcertante, ele me enviou uma mensagem desta natureza: o conto dele começaria assim:  “E das entranhas do seu ser extrairia toda a lascívia e ânsia de se dar…. E num gesto frenético, após aspergi-la com os mais finos óleos do Oriente buscaria o que os iniciados chamam de” a linha da felicidade ” e num movimento firme arrancaria sua lingerie…”

Crítica para caramba, virei estátua. Muda, não lhe respondi. Este negócio de a gente se envolver com alguém pela internet é um caso grave, pensei e pirei. E ri e chorei de mim mesma. Como fui gostar de um cara que fala uma imbecilidade dessas. Nunca li nada mais cafona e ridículo. Odiei! E fiquei muito incomodada, tive raiva de mim. E dele, então… Achei que ele tinha mentido, que ele era outro e me enganou quanto à sua idade, tamanho aparato arcaico usado para falar e não dizer nada, além de querer tirar minha lingerie, num rematado frenesi.

Nunca dei a ele essa liberdade, nem de brincadeira eu gostaria de ouvir algo tão íntimo e imbecil ao mesmo tempo. O sinal amarelo, desta vez, piscou dez vezes. De repente, vi o Wando em carne e osso cantando para mim:  “Quero te pegar no colo, te deitar no solo e te fazer mulher…  deixa eu te amar, faz de conta que sou o primeiro (esta é ótima), na beleza desse teu olhar…”

Até agora, não sei por quê, acabei voltando a mexer com ele, mesmo com todos os defeitos/breguices/jequices/pobreza(?)… Será que eu também havia me tornado uma bregona? Se fiquei, fiquei muda e sozinha, pois ninguém me via quando eu e João falávamos. Dane-se, congeminei.

Equilibrista, ou acrobata , entre meu marido e ele, eu criei um João tão brega quanto querido e gostoso (apesar de ele ser gordo) que não dava mais para voltar atrás.

Que meu marido não me visse esfuziante, ou soubesse o que se passava, pois não entenderia este tipo de amizade jamais. E que a tal espanhola brava nunca desse um flagra no João, eu torcia e rezava ao Adonai. Mesmo sabendo que só em caso de vida ou morte Adonai poderia ser “convocado”, eu não aguentava e, diante da minha situação, eu apelava para Ele constantemente, ou para me ajudar, ou para Lhe falar na chincha. Eu estava enlouquecida.

Enquanto isso, meu marido andava cada vez mais distante. Trabalhava o dia inteiro, e, quando chegava em casa, tratava de tomar banho, jantar e se enfurnar no seu escritório, cada dia mais esquisito e lacônico.

Ouvindo Je t’aime…moi non plus, que João havia me mandado, disse-lhe numa noite que eu já estava pronta para dormir. Na verdade, eu ficava muito alegrinha e não queria deixar o computador nem a pau. Eu queria só ver a reação de João.

Como meu marido não saía do escritório para conversar comigo, eu aproveitava.

Foi então que João me disse: ah, minha amada Sarita, quisera eu fosse dormir com você hoje. É, sem dúvida, ele era definitivamente cafona. Menos com as músicas que em todas as mensagens chegavam.

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Alegrinha, alegrinha, pela primeira vez assumi. E disse-lhe meio tímida, meio ousada, eu também gostaria de dorm…

Para quê? O bicho enlouqueceu, virou um alucinado. Seria perigoso? Respondeu-me frases impublicáveis, além de uma piada horrorosa, nada a ver com o contexto, desconexo e descontrolado, uma Dilma Rousseff! Isto mesmo: uma Dilma Rousseff, não deixei por menos.

Uma senhora decotadíssima conversa com um galante cavalheiro

-” O senhor sabe dos fatos importantes que estão ocorrendo ?”

-” Sei-os, senhora…”

Depois desta idiotia, misturada a uma raiva esquisita, fiquei ainda mais curiosa. Ele seria um tarado aposentado e duro?  Não, eu já teria sacado ou seria muito burra. Um carente, na melhor das hipóteses? Xi, homem carente e derretido é pior que mulher carente e submissa. Ou ele é simplesmente um homem comum, desses que são encontrados aos potes em cada boteco de cada esquina, bêbados? E que não têm um pingo de respeito pelas mulheres. Tipo podem falar qualquer barbaridade, mas não podem ouvir o mesmo de uma mulher sem julgá-la. Dei muito cartaz para ele, acreditei. Sem saber o que fazer, saí da conversa estrategicamente.

Desliguei meu computador e fui à cozinha pegar gelo para tomar um uísque. Precisava relaxar. João me tirou do sério. Minha cabeça não parava de pensar nele.

Distraída em meus pensamentos, nem notei que Jacob entrou na sala e sentou-se ao meu lado. Arrancou o uísque das minhas mãos e virou o copo todinho de uma vez. Que horror, pensei! Estão, João e Jacob, endiabrados?

Levantei e preparei outro uísque para mim. Jacob resmungou: para mim também. Cowboy. Obedeci porque percebi um estranho olhar em Jacob. Um Jacob que eu desconhecia. E fomos bebendo mudos muitas doses. Suficientes para ficarmos mais inflamados.

 Eu, puta: – por que você está assim, Jacob?

Ele, puto: – por que você acha, Sara?

Eu, menos um pouquinho puta: – assim. Ué, Jacob!

Ele, mais um pouquinho puto: – Jacob?

-Eu, agora danou-se, Adonai! Jacob, do que você está falando?

– Ele, agora danado: João, Sarita, minha amada.

– Eu nerviosa , quiero explicar a usted, Jacob: “Si es pecado querer tanto en esta vida, yo te pido, de rodillas, tu perdón.

Yo lo quiero tanto y tanto que me muero si me faltan las caricias de su amor…”

Jacob ficou entusiasmado como se não percebesse que todas as palavras trocadas não eram para ele e sim para o João…

Em vez de se enfurecer, constatou: minhas aulas de espanhol estavam me fazendo bem.

Estudar espanhol foi a melhor coisa que fiz na vida, para fugir do trabalho da casa, e da comida judaica.

Jacob e João gostaram da brincadeira, que agora, por fetiche, nos agrada e nos une.

Viramos naturalmente um triângulo amoroso de dois, que ninguém jamais soube.

Embora esdrúxulo, nosso romance é até hoje maravilhoso. Principalmente porque o medo de João ser duro, agora eu sabia, não tinha sentido.

Além de me orgulhar de ter dois maridos, fiz jus ao meu nome que muito prezo.  Sara. Pronunciado Sarra, é assim que sou.

Helena BastosAos 17 anos publicava minhas crônicas no extinto jornal Diário Popular. Foi assim e enquanto eu era redatora do extinto Banco Auxiliar, um porre! Depois me dediquei às filhas. Tenho duas, Paola e Isabella. Fiz comunicação social. Mas acho mesmo que sou autodidata. Meu nome é Helena e escreverei aqui às quartas-feiras.

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