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Letras Irreverentes: Mixórdia

Logo Letras IrreverentesColuna de Helena Prado sobre tudo que o universo pode oferecer; um espaço para contos, crônicas, textos, relatos…

Mixórdia

Completamente cega, ou quase cega, cometi duas gafes imperdoáveis. Resolvi tomar vergonha na cara e fui ao oftalmologista. Fazia quatro anos que eu não punha os pés lá.

E os graus dos óculos foram lá pras alturas. Logo, querendo ou não, vou ter que usar óculos. Assim, bem na cara. E não como tiara de cabelo. E pelo visto não vou poder tirá-los. A não ser para dormir… Ops, acabo de me lembrar que sem óculos não consigo dormir. Eu quero ficar vendo um pouquinho de TV e adormeço com eles.
Sendo assim, tenho que comprar uns óculos blindados. Isso mesmo que você leu. Blindados contra mim. Eu sou um perigo para os óculos. Eu ofereço risco de vida para eles. Sou uma serial killer de óculos.

Como passo o dia na frente do computador, ainda mais agora que fraturei a bacia e o púbis, eu já estou enxergando gato em vez de lebre. Aliás, nada contra as lebres, amo os bichinhos, mas sou uma “gateira” incorrigível por natureza. Voltando à bacia fraturada, ou à minha visão, estou chegando à conclusão de que apodreci. Implantes de dentes, bacia fraturada, cegueira, o que falta pra mim?

Este lance horroroso de melhor idade, eufemismo pra dizer que ficamos velhos, é uma desgraça! E de um mau gosto incomensurável. Eu não suporto. Fico imaginando bailes da terceira idade, gente com bengala, mulheres implorando com o olhar para serem tiradas para dançar. Ou homens também, claro.  Imagino ainda dentaduras, fraldões, coisas tenebrosas….

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Eu sou uma pessoa extremamente bagunceira. Bem, e o que tem a ver isso com a pior idade, na qual entrarei forçosamente daqui a poucos anos? Nada, a não ser que nesta altura da vida, eu já deveria ter aprendido a ser mais organizada.  Mas continuo a perder tudo, não sei onde guardei minhas coisas, tipo estou tão acostumada a não guardar, que quando guardo não acho. Em geral essas coisas perdidas estão no lugar certo, que é o último lugar onde vou procurar o que perdi.

Muito bem, fui ao Shopping Higienópolis, perto de casa, e vi uma armação linda para os óculos que precisarei fazer. As lentes são caríssimas porque são multifocais. Perto, longe, meia distância, “costas”, um espanto! Então fui ver o preço de uma armação “bonitinha”. Quase caí de costas: R$ 12.000,00. Eu estava com uma amiga, que logo viu outra a R$20.000,00. Ah, mas elas são Cartier. E daí? Ou estou paupérrima, ou o mundo está de ponta-cabeça. Só existem estas “duas” opções. Mentira, eles, da Cartir, é que ficaram loucos. Não, eles só querem ficar mais ricos. Se não tivesse algum imbecil para comprar, com certeza, eles não fariam os óculos para enfeitar uma vitrine de loja. E quem compra, se é que compra, viaja costumeiramente no caviar. Ou no foie gras.  Foie gras porque a Cartier é francesa.

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Gente dura como eu nunca deveria ter um shopping perto de casa, porque é muita tentação. O “coisa ruim” atiça, atiça sem dó. E eu acabo fazendo a vontade dele. Mentira, eu sou controlada, mas adoraria ter um closet cheio de roupas, sapatos, badulaques e jóias. Quem não gostaria de ter um closet assim? As pessoas não  fúteis, aposto. E eu não sou fútil. Eu sou só uma mulher que adora tudo que é bom: livros — em primeiro lugar, para dar um tchan no que vão falar de mim. Depois dos livros vêm as roupas, os sapatos as echarpes -mentira, odeio echarpes, sinto-me sufocada -, acessórios como bolsas, bijouterias, ah, sei lá… E jóias, claro.  Também gosto de bons restaurantes, bons filmes, boas peças de teatro. E dança. Amo a Deborah Colker! Pausa.

“Aconteceu que imediatamente pensei: por que não me casei com um homem rico? Por que não tive esta oportunidade? Mentira, porque quando eu era menina a pobreza me atraía. Ou eu atraía a pobreza, sei lá. Um dos meus primeiros namorados era filho do dono de um boteco. Desses pés sujos. Minha mãe cansou de me avisar: olhe lá, menina, você vai acabar cuidando do boteco de tamancos, fritando sardinha, e com bigodes. Mas não adiantava. Eu era apaixonada pelo filho do dono do boteco e não tinha conversa.”

Saí com raiva do shopping, marchando. Mentira, eu não posso marchar porque estou me recuperando das múltiplas microfraturas na bacia e no púbis, como disse acima. Despenquei de uma escadaria à la Scarlet O’Hara, em o vento levou. A minha mãe que me contou. E estacionei num canteiro, pow!  Foi um horror!  Voltando ao shopping, ou melhor, saindo do shopping de cadeira de rodas motorizada, acho que todos que cruzaram comigo disseram amém. . Porque cometi barbeiragens homéricas. Atropelei uma ascensorista e ela ficou meio queimada comigo. Não, não ficou queimada porque não pus fogo nela. Eu a atropelei. E ela ficou meio chateada. Para o azar (toc, toc, toc!) da moça, todas, repito, todas as vezes que precisei ir de um andar a outro eu pegava o mesmo elevador, com a mesma ascensorista, judiação! Lógico que desde que a atropelei lhe pedi mil desculpas. Mas mesmo assim, ela não ficava muito feliz quando me via dando um tchauzinho pra ela quando o elevador chegava: oiê, tudo bem? Outra vez? Olha eu aqui!.

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Voltando aos óculos vencidos, eles já tiveram uma armação linda de tartaruga. Eu ficava bem com eles, pensavam que eu era intelectual. Mentira, eu que me achava com cara de intelectual, meu verdadeiro sonho de “consumo”. De tanto dormir com eles, as hastes quebraram. Para continuar podendo usá-los, eu teria de pôr um elástico…. Não, isto nem graça tem.

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Quando meus óculos de tartaruga foram mortos, comprei uma armação muito pixulé e mandei pôr as mesmas lentes dos óculos assassinados.

Nada a ver com os pixulecos da operação Lava Jato. Porque odeio política — aliás, tcham, tcham, tcham,  Romero Jucá licenciou-se do cargo. Foi no dia que escrevi esta “Mixórdia”. Um sujeito reconhecidadamente como péssimo elemento, e um a menos naquele circo de horrores chamado Legislativo.

Voltando, porque abomino política, eu me apaixonei pela armação pobrinha, uma santa e feinha de dar dó. Mas, com o tempo, ela passou a fazer parte de mim: andava comigo, segurava minha franja, ficava na minha bolsa jogada de qualquer jeito, tomava banho comigo e, claro, dormia comigo. E eu acordava de madrugada ou de manhã e ela sempre fiel, junto de mim. Verdade que nem sempre no nariz. Às vezes embaixo de mim. Pausa.

“Quando eu estava saindo do shopping naquela cadeira último tipo, vi o único cara rico que namorei. Corri para ele e gritei: Walter, Walter….Ele não me reconheceu ou fez que não me reconheceu. Esquecendo-me de todas as fraturas, eu me levantei, fui até ele e disse: sou Lázaro, está lembrado? Aquele que Jesus de Nazareno disse  “ergue-te e anda!” .. Levanta-te e arruma a tua cama”. Quando saí do transe, pensei na sacanagem que era arrumar a cama. Eu odeio. Jesus poderia ter me mandado fazer uma comida. Olhei para os lados e não vi mais o cara rico que eu namorei. Por quê, meu Deus? O que fiz de errado?

Voltando aos pixulés, a armação receberá lentes novas só para dormir. E farei uns óculos moderninhos que tenham a minha cara: bons, bonitos e baratos, BBB. BBB não, porque me lembro de Jean Wyllys e eu odeio política. Ou me lembro do Pedro Bial, que se presta a fazer aquela aberração de programa. Por que será que o Bial só gosta de mulher feia? A única bonitinha que ele teve foi a Giulia Gam. As outras, ai, as outras, que horrorosas! Será que elas são intelectuais? Porque o Bial é, né? Eu não entendo meia frase dele. E os “brothers”, todos devendo QI, ficam com aquelas caras de burros tentando decifrar o impossível, as baboseiras que Bial diz. O Bial não fala lé com cré. Nossa presidente afastada injustamente (?) também é como o Bial, zirigudum total. Mas não vou falar dela porque odeio política.

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Será que escolherei os óculos certos para mim? Se eu não enxergo, como vou fazer para saber se gosto ou não dos óculos? Já sei: levo minha mãe comigo. Ela é mortífera. E diz na cara da gente e sem rodeios o que acha. Mas os pixulezinhos….

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Enfim, odiando política e adorando dormir de óculos, ficando momentaneamente chateada porque não sou rica, encontrando meu ex-namorado rico, lembrando-me do Bial e dos políticos que eu odeio, voltei às compras. Tinha a ilusão de encontrar de novo o cara rico que eu namorei e me explicar: olha só, no Google há muitas versões sobre Lázaro e/ou a cama…

Encontrei, para meu azar, um político. Tive de ficar tête à tête com ele para saber que era ele. Fiquei mal. Eu o odeio. Eu ameaçava ir para a direita e ele idem. Eu ia para esquerda,  driblando-o, ele ia também. Peguei meus pixulés e pensei em atirar na cara dele, embora ele não merecesse que eu judiasse dos meus tão queridos óculos. Então, pus os óculos de volta no meu nariz, encarei bem o político cujo “adágio” é: “se é bom para ambas as partes, fulano de tal, aqui e agora”…

E percebi que eu não merecia, nem ninguém, dar de cara com este infeliz, que tem a pretensão de se tornar prefeito de São Paulo. O sujeito é uma tragédia, e diz que é da patrulha do consumidor. Na verdade, é um oportunista.

Mas como odeio política, e sem saber o que fazer para atingi-lo, puxei uma vaia tremenda que o deixou sem rumo. Olhei para ele e disse feliz: bom para ambas as partes? Para mim, sim.  Helena, aqui e agora. E saí rindo do shopping.

Helena BastosAos 17 anos publicava minhas crônicas no extinto jornal Diário Popular. Foi assim e enquanto eu era redatora do extinto Banco Auxiliar, um porre! Depois me dediquei às filhas. Tenho duas, Paola e Isabella. Fiz comunicação social. Mas acho mesmo que sou autodidata. Meu nome é Helena e escreverei aqui às quartas-feiras.

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