Letras Irreverentes: A Flautista de Hamellin | Cabine Cultural
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Letras Irreverentes: A Flautista de Hamellin

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Logo Letras IrreverentesColuna de Helena Prado sobre tudo que o universo pode oferecer; um espaço para contos, crônicas, textos, relatos…

A Flautista de Hamellin

Ontem sonhei que estava escrevendo um conto. Um daqueles de arrasar. Com muitas, mas muitas pessoas, lendo e gostando.

E passei a madrugada dizendo no sonho: este tema não vou esquecer. Ou melhor, não posso esquecer. Ele vai dar samba. Quando acordei, pensei em vão no tema que meu cérebro criou enquanto eu dormia. Mas, batata, eu não me lembrava dele. Que pena!

Daí pensei que as ideias não vêm a metros ou potes, como eu gostaria.

Elas têm que vir no tempo delas, de repente, e puxando outras, que eu vou pondo no computador com a delicadeza de quem está carregando um tesouro. As que imagino que serão legais ou divertidas têm uma pasta específica. As que serão somente um relato, como este de agora, guardo em outro lugar.

Eu morei em Araraquara e, até agora, não sei como aguentei o calor. O que me fez ir embora da cidade foi exatamente o clima quente.

Dizem que Araraquara quer dizer morada do sol. Eu adoraria que ele morasse lá, mas que, no verão, fosse passar suas férias no Canadá, por exemplo.

Luna beijando a Nana

Luna beijando a Nana

Foi em Araraquara que um gatão peludo que não tinha o que fazer, ficava, paquerando a minha Luna, paulistana como eu. E que já era uma mocinha, tinha uns 8 meses, mais ou menos. Ele, o gatão folgadão, passava dias seguidos em frente à minha casa, como quem não queria nada, espichado no chão.

Um belo dia (?), ele “craw” na Luna. E deste idílio nasceram cinco gatinhos. Quando a Luna pariu, eu estava em Lisboa, e acompanhando de longe a evolução dela e dos gatinhos.  Quando eu voltei, Luna ficou radiante e foi logo me mostrando seus filhotes, como se estivesse sentindo um orgulho imenso. O calor era tanto que ela se enfiava com os filhotes num pote de cerâmica enorme.

Eu providenciei uma caminha para ela e seus filhos e os mantinha no ar-condicionado do meu quarto, junto comigo.

Dos filhotes que nasceram, só a Naná ficou comigo. Os outros foram adotados. E as duas logo foram castradas.

Eu me mudei para uma cidadezinha com 25 000 habitantes. O clima era uma delícia e minha casa era linda.  Logo na chegada, ou melhor, passado um dia da minha chegada, fui até a cozinha, abri a porta e vi dois cavalos “pastando solenes” no meu jardim.  Luna pôs os dois para correr, rosnando.

Gatinha mais atrevida que ela nunca conheci.

Quando descobriram que eu gostava de gatos, começaram a pôr ninhadas e mais ninhadas na minha porta. No primeiro “despejo”, veio, entre outros, a Tigrinha.  Ô gatinha “dadeira”!  Dela vieram o Vitor, o Léo e muitos outros.  Não sei como ela, tão miudinha, fazia tantos filhotes.

Uma das coisas que mais me recordo é que o Léo era tão pacato, tão pacato, que, mesmo macho, deixava que gatinhos novinhos ficassem mamando na sua barriga, como se leite dele saísse.

Bibao

Bibao

Antes, porém, um marginalzinho, filho da minha empregada, pôs fogo num gatinho. Dei a ele o nome de Gabriel. Era também Bibão para os íntimos, pois ficou um gato enorme, o rei do pedaço. Eu o levei ao veterinário e cuidava dele com unguento, e ele ficou muito agradecido e me adotou.

Enquanto Bibão era o rei, ele papava todas as gatinhas do pedaço. Somente com a Luna e a Naná ele não se metia. Por dois diferentes motivos: Luna o punha para correr e tinha verdadeira ojeriza a ele. Ele morria de medo dela; enquanto a Naná nem dava bola, ficava na dela, deliciando-se ao sol. Ela tinha puxado ao pai, eu tinha certeza. Porque era bem peludinha e bonacheirona.

Muito engraçado, e quase impossível de acreditar, era quando eu ia a pé até o asfalto, e todos, em fila, vinham comigo, como se eu fosse uma versão feminina e boa de “O flautista de Hamelin”, só que de gatos.

Muito briguento, quando um outro macho se aproximava, Bibão quase destruía o animalzinho. E eu tinha que apartar a briga.  Com a Luna até o miado dele ficava diferente. Saía fininho, fininho, um cantor lírico.

Claro que eu ficava com um dó tremendo dos gatos que punham na minha porta, e pegava os bichinhos para cuidar. Levava-os ao veterinário, tirava as cracas deles, e os adotava. A cada leva, Luna ficava mais furiosa, enquanto a Naná levava sua vida na flauta.
Só as duas, Luna e Naná, podiam entrar em casa e dormir na minha cama. Para os outros, quando já crescidinhos, arranjei uma cama para passarem a noite fora de casa. Estes gatos eram do SUS, judiação!

Mas eles viviam no mato, e não raro traziam carrapatos, daqueles miudinhos, que coçam durante um mês.

Muito embora eles fossem alimentados coma mesma ração de Luna e Naná, e eram tão queridos quanto, não dava para deixá-los em casa.

Quando me dei conta, eu estava com dezesseis gatos: Luna, Naná, Tigrinha, Bibão, Sandy, Júnior, Léo e Vitor…

Não consigo mais lembrar os nomes de todos…

Foi aí que um dia apareceu em casa um cachorro faminto, pele e osso, decerto acostumado a ser enxotado por todas as pessoas.  Como eu só tinha gatos, enchi uma bacia enorme de pão embebido num litro de leite e, não deu outra, ele me adotou, ganhando o nome de Zé Cão, que ele atendia imediatamente.
Era bonacheirão como a Naná, e me adorava. Só faltava mamar em mim.

Tigrinha e Ze Cao

Tigrinha e Ze Cao

Mas era um rueiro. Era de sua índole ou o costume de viver na rua mesmo. Quando o levei para a veterinária para castrá-lo, e para todos os cuidados tipo vacinação etc, ela me falou que ele era uma cruza de labrador com pit bull. Eu nunca tinha desconfiado.
Eu me tomei de amores pelo Zé Cão. Aliás, não só eu. Minha mãe também. E Luna vivia furibunda, provocando-o. Até que um dia ele deu um carreirão nela, que ficou sumida durante umas três horas. E voltou e se acalmou.

Com a Naná, já disse, eles se ignoravam. A convivência era tranquila.

Um dia eu estava em casa e bateu a polícia. Haviam recebido uma queixa de que eu mantinha em casa um pit bull solto.  De fato, ele ficava solto, e não tinha nascido para viver aprisionado.  Mas eu fiquei louca. Porque os policiais me disseram que ou eu o prendia, ou ele teria que ir para outro lugar. Mas qual, pensei? Quem dará a ele o carinho que ele tem comigo?, aqui em casa.

Liguei para a veterinária e ela me disse que um cara, que era estofador de móveis, estava procurando um cachorro “bravo” para cuidar do sítio dele.  No final, o cara foi à minha casa e eu, até hoje sinto uma enorme pena, porque dei ao Zé Cão um abraço de Judas.  Ele estava no alto da rua, e eu gritei: Zé Cão! Ele veio correndo para os meus braços e eu, sentindo-me uma bruxa, entreguei o Zé Cão ao tal cara. Chorei, ah, como chorei!

Por alguns meses, eu mantive contato com o cara que ficou com ele. Até que eu soube que ele teve que ser acorrentado porque tinha comido um estofado que o cara estava para entregar a  um cliente.

Quando voltei definitivamente para São Paulo, por causa da minha saúde, quase morri por ter que deixar os gatinhos do SUS.

Luna agradeceu. Naná não se manifestou.

Quando a Naná estava com 14 anos, adoeceu. Dei-lhe soro, medicação, era um sufoco, fiz o impossível para que ela não morresse. Ela não comia nem bebia mais nada. Ficou quase um mês assim,. E eu juro que eu não entendia como ela suportava. Ela tinha vontade de viver, tenho certeza.

Infelizmente, esperei muito para sacrificá-la.  Porque acho que ela sofreu bastante no seu final, mas morreu com anestesia geral, portanto sem sofrer mais do que já vinha sofrendo, eu imagino.

A Luna era uma gata muito séria. Nunca foi arredia, mas tinha um ciúme doentio da Naná. E quando a Naná morreu, as atenções ficaram só para ela. Então ela brincava, ia no colo de todo mundo e adorava uma farra num tapete que ela elegeu como seu rinque de diversão. Mudou de gênio completamente, tornando-se alegre e muito simpática.

Luna e Nana

Luna e Nana

Depois de dois anos, mais ou menos, a Luna adoeceu. Com ela eu quis que fosse diferente. Eu não queria que ela sofresse ou passasse pelo que Naná passou.  Por isso, tão logo eu soube que ela estava mal, e passou a recusar ração e água, meu sobrinho levou a minha querida gatinha Luna para ser sacrificada.

Querem que eu seja franca?

Até hoje, depois de quase dois anos de sua morte, entro em casa e ainda tenho a sensação de ver a Luna.  Fico entristecida, muito mesmo. E vou para o meu quarto, onde, escondidinha, ainda choro. Eu queria tanto de volta as minhas gatinhas, que sacavam quando eu adoecia, ficando nos pés da minha cama, até literalmente eu me curar.
Elas tornaram minha vida muito mais gostosa e com sentido. Porque entendiam tudo que falávamos para elas, além de atender pelos seus respectivos nomes.
Onde será que elas estarão?

Se existe um céu para os humanos, deve ter um também para os “quase” humanos, como a Luna e a Naná.

Outro dia, lendo meu poeta querido Ferreira Gullar e sua forma de ver e “ler” os gatos e cachorros, ele escreveu  sobre o milagre da vida. E disse “Não sei se me faço entender, mas o que quero passar a vocês, leitores, é minha perplexidade diante da vida. Então, o que chamamos de gente nascida de um óvulo e um espermatozóide já traz em si tudo isso que definimos como ser humano? Ali, naquele embrião, já está potencialmente a capacidade de pensar, de falar, de inventar coisas como computadores, sinfonias e poemas?

Prosseguiu: “Já o cachorro, ao contrário, até supera o gato nessa capacidade de se relacionar afetivamente com as pessoas, sem falar que ele atende pelo nome que lhe pomos, coisa de que o gato não é capaz. O cão, como se sabe, chega ao ponto de identificar quem ameaça atacar seu dono e, mais ainda, ataca-o, chegando mesmo a arriscar a própria vida por aquele a quem se afeiçoou.”

Eu entendo que o poeta está equivocado. Senão como a Luna e a Naná ficavam comigo na cama quando eu adoecia?

Tanto meus gatos, todos os que tive, sempre atendiam pelos seus nomes e deixavam muito claro o que desejavam naquele momento, além, claro, do Zé Cão.

Nana nene

Nana nene

Nunca vi diferença de sentimentos entre cachorros e gatos. O que todos querem, independentemente de suas raças, tanto animais como  homens, é carinho e atenção.

Sejam periquitos, ou araras, macacos, ursos, enfim, o universo da fauna e, desconfio, até da flora, querem ser amados e respeitados.

Nem  Naná nem a Luna, muito menos o Zé Cão, chegaram a ponto de escrever poemas, como disse Ferreira Gullar.

É que para mim todos eles já nasceram poemas. Não precisam ser como nós, humanos, que precisamos aprender a ser domesticados.

Helena BastosAos 17 anos publicava minhas crônicas no extinto jornal Diário Popular. Foi assim e enquanto eu era redatora do extinto Banco Auxiliar, um porre! Depois me dediquei às filhas. Tenho duas, Paola e Isabella. Fiz comunicação social. Mas acho mesmo que sou autodidata. Meu nome é Helena e escreverei aqui às quartas-feiras.

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