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Entrevista exclusiva com o poeta Davi Kinski

Davi Kinski

Davi Kinski

“Vivemos na comunidade do dizer, porém a palavra está cada dia mais rasa, desnutrida, apática. Contra uma população que não se comunica os poderosos pintam e bordam, como anda sendo notado em nosso país.” (D.K.)

Por Elenilson Nascimento

A poesia persegue o educadíssimo Davi Kinski e não o contrário. O autor do sensual poema “Os 7 pecados do corpo”, aquele que diz: “Meu corpo guardado no armário avarento…”, é também ator, produtor e cineasta, por tanto, a criação literária é apenas um dos seus talentos. O rapaz já fez até uma ponta no filme “Nome Próprio”, de Murilo Salles, que lhe rendeu a indicação de melhor ator no Festival de Gramado (2008). Em 2011 encenou seu primeiro monólogo, “Lixo e Purpurina”, baseado em textos de Caio Fernando Abreu, cumprindo uma temporada de grande êxito no Sesc Pompéia.

Para alguém que escreve poesia desde os 15 anos de idade e já lançou dois livros, “Corpo Partido” e “Delírios Atlânticos”, ambos pela Editora Patuá, morar num país tão dividido como o nosso não deixa de ser algo abrangente. “Vivemos tempos sombrios, a cultura do mercado de consumo corrompe a tudo e a todos. Vivemos na comunidade do dizer, porém a palavra está cada dia mais rasa, desnutrida, apática”, ressaltou este paulistano de apenas 28 anos recém completados em agosto. Formado como ator pela Actor School Brazil e em cinema pela Academia Internacional de Cinema, já dirigiu 7 curtas-metragens.

Nessa entrevista, Kinski fala um pouco sobre a sua obra e a importância da poesia em sua agitada vida e na vida dos seus leitores, pois o acaso parece ter sido decisivo não só na sua vida pessoal, mas também na sua arte. Poetas como Kinski, numa época onde poesia é tratada como subproduto, constata que ela contínua pulsando, ainda que não saibamos exatamente o que vai surgir nas próximas páginas. E qualquer coisa pode acontecer, a probabilidade é total porque as páginas deste poeta estão gritando. Agora, leiam a entrevista:

Elenilson – Quando foi que a poesia entrou na sua vida?
Davi Kinski – Para mim poesia é um estado, sempre estive em poesia, minha mãe dizia que ao ver uma construção na rua eu apontava o dedo, ainda mal sabendo falar e falava: “Olha mamãe, é um circo!” (risos). Eu sempre precisei ressignificar a realidade, algo tão burocrático como uma construção não me parecia lúdico o suficiente para eu criança, acho que o poeta é assim, não cresce nunca, tem um olhar de constante obstrução da realidade. Porém escrever poesia mesmo, foi aos 14 anos.

Elenilson – A técnica em poesia é tudo, nada, ou meio caminho andado? Aliás com quem aprendeu?
Davi Kinski – O Gullar diz que a criação poética nasce do espanto, concordo com ele, preciso me “assustar” com algo para a poiesis ocorrer. Poiesis significa ação criativa, acho que essa é a maior técnica para a escrita poética, revelar com singularidade, a criatividade te leva para a essência, já a leitura te trás a técnica, ao menos assim foi comigo. Não se ensina no meu entender a escrever poesia, não se forma poeta, não se abrem vagas para poetas, eles surgem e desaparecem como os dias e as noites, como a vida e a morte, para mim é algo inexplicável e por isso tão sagrado e raro ao nosso cotidiano. Porém, para quem quiser se aventurar penso que ler poesia é a melhor de todas as técnicas para escrever com alguma relevância literária.

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Elenilson – Você escreve todos os dias da mesma forma, como os pianistas fazem escalas? Todavia “en el momento de verdad” inspiração é tudo realmente?
Davi Kinski – Infelizmente não, porém leio poesia todos os dias.

Elenilson – Você acha que o Kinski já está compactado pra ser chamado de bom poeta? Ou falta alguma coisa nessa caixa de pensar?
Davi Kinski – Acho que todo poeta está em processo, por exemplo, meu primeiro livro “Corpo Partido” (Ed. Patuá, 2014) eu escrevi dos 15 aos 21 anos (6 anos) mas só lancei ele aos 26 anos, e não que eu rejeite esse livro, pelo contrário, porém olho para ele e só penso que o que eu estou pesquisando agora, o atual “Delírios Atlânticos”, é infinitamente “melhor”. Acho que só por conta dessa insatisfação eterna é que o poeta insiste em escrever, eu ao menos sou assim.

Elenilson – Sabido que tem uma parte de seu material poético publicado em blogs e sites, pergunto: você acha que os meios eletrônicos são mesmo uma boa forma de divulgação moderna, mas que ameaça o livro impresso? Como, a partir desses meios, podemos pensar numa modernização literária?
Davi Kinski – Acho sim que a internet é uma excelente maneira de divulgar e propagar literatura, antigamente a cena literária era muito mais restrita, costumo a brincar e chamar de literatura dos “coronéis”, gente que legitimava um ou outro e toda produção fora desses “contatos” era ignorada ou vista como menor., a internet trouxe outra cena, uma cena livre e independente da opinião e de uma casta de editores. Tudo está em transformação inclusive o livro e a poesia, temos que se apropriar dessa nova realidade. Por exemplo, junto com o projeto “Poemaria” que lanço dia 13 no Reserva Cultural em São Paulo vem uma novidade pioneira no mundo tudo, o primeiro aplicativo desenvolvido para divulgar poemas e declamações, o DECLAMAÍ! Com essa ação espero ao menos aproximar um pouco mais a poesia no cotidiano dessa turma que não desgruda do celular e vive online, vamos ver!

Elenilson – Nos primeiros discos da parceria entre Vinícius e Tom, as capas informavam “música de Tom Jobim e poesia de Vinícius de Moraes”, e não “letra de Vinícius”. Era uma maneira do poeta burlar a censura que o Itamaraty lhe fazia. Não queriam que seu funcionário mais famoso se envolvesse com “artes menores”, que é como ainda hoje consideram a música popular. Contudo, com relação a tal “arte menor”, já ouvi isso de certos editores com relação à poesia: “Não publicamos livro de poemas por se tratar de uma arte menor!”. Como você encara a falta de incentivo, de compromisso, de informação e de cultura dos brasileiros no consumo de poesias?
Davi Kinski – Acho que esses editores deveriam fazer Farmácia ou qualquer outra faculdade (risos). Nunca ouvi isso de nenhum editor, o que costumo ouvir é que poesia não vende por isso eles não editam. Nisso eles têm razão, porém não adianta reclamar, temos que agir para que as pessoas tenham a poesia mais próxima do cotidiano delas. A grande maioria tem contato com poesia e literatura apenas no currículo escolar, que em 95% dos casos distancia e traz a poesia como algo hermético, acadêmico e muito distante da realidade. Acho ótimo ensinarem os parnasianos por exemplo, porém a questão é como ensinam. Só teremos uma verdadeira revolução nesse país através da educação.

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Elenilson – Seu poema “Manhã de Domingo” é maravilhoso! “Mate essa minha boca de Hera/Este pão seco-amanhecido-com-dor-de-cabeça-domingo/Razão metralhada de momento farto e castigo/Parta para outro amor no Olimpo/Razão lancinante, roteiro escondido/Mate essa rua vazia…” Então, Nossa Senhora da Glória do Lápis Perfeito, como se deu essa ideia?
Davi Kinski – Olha vou ser sincero, todos meus poemas ocorrem espontaneamente, intuitivamente. No caso o que disparou esse gatilho foi uma ressaca brava em um domingo pela manhã (risos).

Elenilson – O que mais lhe atrai: versos em corpos livres ou pensamentos de formas fixas?
Davi Kinski – Versos em corpos livres, sempre!

Elenilson – Para um poeta o sentimento de estranhamento é crucial?
Davi Kinski – Sim, o estranhamento e o espanto caminham juntos, como já disse é a partir dele que a poeiesis ocorre.

Elenilson – Quando inicia um poema sabe antecipadamente seu conteúdo?
Davi Kinski – Tenho certa intuição, mas saber mesmo, não.

Elenilson – Você fala muito do amor e sexo nos seus poemas. Mas, você não se casou, não teve filhos. Como explica isso?
Davi Kinski – Já tive sim vários namoros de longa e média duração, eu amo estar com alguém, mas estar só também é muito bom! Tenho 28 anos e acho que tá cedo ainda para casar… (risos) Mas eu espero que isso ocorra em breve! O RH está aberto recebendo currículos!

Elenilson – Usando um post seu lá no Faceboca: “Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?” (Álvaro de Campos, in “Lisbon Revisited”). Então, a pergunta é: pra ser feliz precisamos mesmo constituir família e ter uma vidinha de propaganda de margarina?
Davi Kinski – A felicidade é um estado, dá e passa. As pessoas hoje em dia vivem em uma histeria eterna pela felicidade, não é sempre possível ser feliz, porém como diria Vinícius: “é melhor ser alegre que ser triste…”.

Davi Kinski

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Elenilson – Sinceramente, já pensou em plagiar? O que o impediu? Levou a ideia adiante?
Davi Kinski – Não pensei pois amo tanto quanto escrever, ler. Então se alguém já escreveu aquilo fico amando a pessoa que conseguiu escrever, não penso em prejudicar a quem amo de alguma forma (risos).

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Elenilson – Você começou imitando alguém? Quem?
Davi Kinski – Imitando não, mas me influenciei muito no meu primeiro livro com Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, são poetas que marcaram minha adolescência fortemente.

Elenilson – Existe alguma pergunta que os jornalistas sempre fazem e que você considera chata?
Davi Kinski – Adoro dar entrevistas, então sempre acho tudo ótimo, é meu lado leonino (risos).

Elenilson – Você já chegou a consultar dicionários, enciclopédias, listas telefônicas, guias turísticos, mapas, gramáticas, banco de dados, e até mesmo bibliotecas?
Davi Kinski – Sim, eu pesquiso MUITO para escrever e as fontes podem ser as mais diversas.

Elenilson – Como dribla sua ignorância em determinado campo do saber humano?
Davi Kinski – Como diria o grande Sócrates: “Só sei que nada sei”.

Elenilson – Com essa crise que estamos passando graças a incompetência dos nossos gestores públicos, como tem feito para sobreviver com a poesia? O seu cotidiano é nulo ou rende um bom caldo?
Davi Kinski – É do meu cotidiano que tiro toda poesia que sinto e aquela que escrevo também. O poeta tem como fonte apenas a vida que te cerca e isso já é um material imenso para ser observado e destrinchado. Vivemos tempos sombrios, a cultura do mercado de consumo corrompe a tudo e a todos. Vivemos na comunidade do dizer, porém a palavra está cada dia mais rasa, desnutrida, apática. Contra uma população que não se comunica os poderosos pintam e bordam, como anda sendo notado em nosso país. A maior arma no meu entender é a palavra, é a educação, um povo que lê sabe se defender do fascismo contemporâneo com mais destreza.

Elenilson – Leitor atento que você deve ser, quais as personagens mais bem construidas que conhece?
Davi Kinski – Poxa tem vários! Mas TODOS dos Dostoievski são sempre muito bem construídos, acho que poucos chegaram tão perto da perfeição como ele na construção da psique de seus personagens.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina

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