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Letras Irreverentes: Boneca ou Peteca


Logo Letras IrreverentesColuna de Helena Prado sobre tudo que o universo pode oferecer; um espaço para contos, crônicas, textos, relatos…

Letras Irreverentes: Boneca ou Peteca

 

Marly era muito bonita e cobiçada. Muito inteligente, também era preparada. Vaidosa, gostava de se mostrar. E gostava de homens muito mais velhos. Eles a “entendiam” muito mais que qualquer jovem, pensava ela, desde que virou adolescente, isto aos 11 anos.

E cedo começou sua caçada. E arranjou um, três, dez namorados/amantes, todos bem mais velhos que ela. Mas os que ela gostava eram muito ricos e espertos e não levavam Marly a sério. Percebiam qual era exatamente a dela.

Resolveu, então, estudar, depois de muito procurar por sua alma gêmea sem encontrar. Sabia que este seria seu diferencial. Não deu outra. Foi seu grande trunfo se comparada a outras putinhas. Isto. Marly nasceu com tendência a ser uma putinha.

Um dia, na faculdade  onde se formou, conheceu Jurandir, que viria a ser em pouco tempo seu marido. Numa idade em que ele não cogitava casar-se de novo. Mas sucumbiu aos apelos de Marly: extravagante, usava tudo que julgava ser sensual. Ou deixava de usar, caso de sapatos, quando apelava e vestia-se de criança. Ou saltos altíssimos com vestidos longos, com fendas que desciam da cintura aos pés . Tudo isto fora de qualquer contexto que justificasse aparecer assim ou assado.  Marly era totalmente amalucada.

Jurandir nem era tão mais velho assim como ela gostava. Mas também era vaidoso. Vaidoso de sua cultura, deslumbrado com pessoas ricas, e achava-se a última cereja do bolo quando estava ao lado de Marly. Pudera! Com um mulherão daqueles a tiracolo… Ele foi seu professor.

Um dia, depois de alguns anos juntos, ele resolveu rejuvenecer. E tirou a barba e o bigode, e tingiu os cabelos também. Fez uma ligeira plástica para tirar a papada dos olhos. Mandou uma foto dele para uma prima dizendo: que tal? Sua prima o achou ótimo. Ela era sua cúmplice e foi quem o ajudou a enfrentar a família, quando se apaixonou por Marly e resolveu casar-se com ela.

Marly

Marly era muito bonita e cobiçada.

Marly, que não dizia e nem deixava ninguém ver ou saber a sua idade, aparentava nas fotografias de seu Instagram uns trinta  anos, mais ou menos. Como ela passava todas as suas fotos no photoshop, certo era que tinha uns quarenta, por aí. De qualquer maneira, muito bem conservados. Mas ela era tão amalucada, que ela mesma acreditava na idade que ela queria ter.

Constava na família de Jurandir que Marly era uma talentosa executiva. Executiva?  Sim, executiva de uma multinacional “nipo-alemã”.  Executiva de que área ninguém sabia, tampouco acreditava,  uma vez que Marly e Jurandir passavam a vida viajando e ela posando para fotos, que ela punha quase que diariamente no Instagram.

Jurandir, que era aposentado, fotografava Marly nas poses mais sexys, bobas, infantis ou idiotas do mundo. Ninguém acreditava em nada.  Aliás, os amigos e parentes acreditavam, isto, sim, que havia um acordo tácito entre o casal. Para que ninguém soubesse a verdade sobre a vida de Marly, sua família, sua origem e formação…

A área de atuação de Marly era vasta, mas ninguém adivinhava qual. Será que ela fala japonês, a família curiosa tinha vontade de saber?!  E perguntava. Ela saía andando e não respondia, tampouco dava a menor bola para os que não acreditavam.

Ostentar o título de executiva de multinacional era o máximo. Sobretudo pela desenvoltura que ela mostrava.

Família exigente a de Jurandir, que, diga-se de passagem, Marly odiava. Jurandir tinha uma irmã maldosa e estropiada de corpo, que ficava abismada com as coisas que Marly fazia e as fotos que punha no Instagram. E, claro, apesar da imbecilidade de Marly, morria de inveja dela.  Porque Deus , se deu beleza, imbecilidade e futilidade em exagero a uma, para outra,  deu feiura, gordura e inteligência em excesso…

A avó de Jurandir, doidinha por dinheiro, era uma portuguesa de uma estupidez anormal. Ô, portuguesa grossa e boçal! E não media as palavras para falar mal de Marly. Era uma saloia bonita, que, sem o menor pudor, cumprimentava as pessoas quase assim:  muito prazer, quanto você ganha,  o que você faz etc. De uma vulgaridade insuportável!

Jurandir

Jurandir, que era aposentado, fotografava Marly nas poses mais sexys, bobas, infantis ou idiotas do mundo

Jurandir puxou esta característica da avó. Era louco por dinheiro, mas fez uma única concessão na vida: Marly, que, por sinal, era igual a ele. Jurandir era doutor em física, aposentado.  Passou a vida dando aulas, uma chatice. E vivia pensando, como Marly, numa maneira prazerosa e fácil de ganhar dinheiro. E não interessava como.
Deslumbrado e oco, procurava na sua árvore genealógica um aparentado rico. Um dia achou um sujeito com o mesmo sobrenome que o seu. Como aparentava ter grana, pôs o seu nome junto ao dele, na Wikipedia, mesmo sem saber se havia algum grau de parentesco entre eles ou não.

Quando Dona Celeste, avó de Jurandir, conheceu e pôs os olhos em Marly, vaticinou: uma pêga da pior espécie ,que quer teu dinheiro, meu neto parvo. Ela te levará à ruína, ó pá. Jurandir ficou muito ofendido, refutou a avó e resmungou: só por que ela é linda e excelente profissional?  E a avó, embora burra, tinha a sabedoria que a idade acarreta. E tu achas, Jurandir, que esta rapariga tem cara de quem é a profissional que diz a ti?  Amuado, Jurandir parou por ali e não quis mais falar com a avó.

O avô era um santo homem,. E tinha a “cultura” de quem sempre mexeu na terra. Ou seja, nunca estudou. Aprendeu o que sabia com a vida tudo que sabia. Mas tinha contraído havia três anos um terrível Mal de Alzheimer. Celeste, então, passou a desdenhá-lo. E tudo que ele cultivou de bom a vida inteira deixou de ter qualquer significado para ela.

Ele foi um fazendeiro que adorava cuidar de suas várias qualidades de uvas. Sua especialidade  era enologia. E conhecia como ninguém o solo adequado a determinado tipo de uva para posterior produção de vinho. Isto já vinha de seu bisavô, E era um apaixonado pelo que fazia. E pouco ligava para dinheiro, embora tivesse ganhado muito no decorrer de sua vida.

Agora doente, foi literalmente desprezado por Celeste.

Um dia em que ele acordou muito mal, Celeste, fria como um cubo de gelo, deu-lhe um pé na bunda tão forte que o velhinho ficou sem rumo. E uma filha que verdadeiramente o amava foi buscá-lo para que ele fosse morar com ela, até o fim de seus dias. Que, por sinal, não demorou a acontecer.

Enquanto Celeste foi amparada por outra filha que não tinha a menor empatia com o pai e era fofoqueira e inútil como a mãe. Duas enormes fúteis!

Voltando ao casal bizarro, Marly era muito “criativa” e dos limões, fazia uma limonada. Ou melhor, da simplicidade da vida, ela extraía uma matéria que abastecia a conta bancária dos dois.

A história dela e de Jurandir era a seguinte: ela não era executiva coisa nenhuma, mas falava, sim, japonês.  Havia aprendido com sua madrinha, que também a colocou para aprender a escrever.

Ambos tinham um banco de fotografias que abrangia todos os tipos de profissão existentes no planeta. Ela era a modelo e ele era o fotógrafo, uma vez que aposentado. A incumbência de fazer poses, bolar guarda-roupas e caras e bocas era dela. Escolher lugares para fotos era missão dos dois. A de Jurandir, além das fotografias, era transformar um tema banal e dar a ele um cunho científico, caprichando na explicação. E fazê-la posar sensual ou não, dependia do caso, da hora, do apelo ao banco de fotografias, que era muito, muito acionado.

Marly

Marly era muito “criativa” e dos limões, fazia uma limonada.

Cabia também a Jurandir criar um certo clima de amizade entre o comprador da fotografia, seu cliente, e ele e Marly, quando isso era possível. Mas era muito muito raro. Quando acontecia, sobrava um jantar elegante em algum restaurante que Jurandir sugeria. Estendendo, assim, a compra para um jantar muito elegante na maciota, sem pôr a mão no bolso.

Em suma, Jurandir e Marly eram dois vigaristas.

Jurandir não tinha o menor escrúpulo em vender Marly. E Marly não tinha o menor escrúpulo  em ser vendida e aceita pelo comprador. Havia toda uma manha especial e Jurandir não se envergonhava nem lhe fazia mal..

Isto acontecia no Brasil ou no exterior, ou onde quer que eles fossem fotografar. Como eles mesmos geriam seus negócios pela internet, se estivessem próximos ao lugar onde o cliente se encontrava, era quase certo que a venda da imagem seria estendida.

Ao final do programa , muitos elogiavam Marly para Jurandir, que ficava satisfeito com sua escolha e dizia: Marly, ficaremos cada vez mais ricos, minha querida!
E ela, saltitante, respondia: é melhor ser boneca de velho que peteca de mocinho! E os dois se divertiam e davam gargalhadas.

Dois anos depois da última viagem que fizeram, Marly começou a ficar enjoada da velhice de Jurandir.

E junto com o enjoo, veio uma vontade de amar. Sentimento que desconhecia. Conhecia bem o que era ser amada. Bem verdade que numas. Porque se Jurandir a amasse de verdade, não iria gostar de vê-la com outro. Pior, de vendê-la a outro.

E começou a engendrar um plano para livrar-se de Jurandir, e ainda sair dessa com uma grana substancial para viver até que pintasse um grande amor.

E pouco tempo depois, Marly se livrou de Jurandir e de sua grosseira família. Que alívio, gargalhou! E nunca mais quis ver nenhuma figura que pertencesse àquele bando de portugueses grossos de Trás-os-Montes.

E o tempo seguiu seu curso normal..

Marly era desajeitada para ser peteca. Sabia, e como sabia, ser boneca de velho. Mas peteca de mocinho ela não tinha a menor ideia de como ser. E quebrava a cabeça, não sabia se olhava acintosa ou cheia de pruridos; se olhava de lado e devagarinho ou encarava a pessoa; se baixava os olhos ou dava umas risadinhas; enfim… estava difícil!

Jurandir ficou muito triste, porém com toda a sua estrutura e conhecimento, e, ainda, com tanta mulher querendo ser “modelo e atriz” enfiou a cara no trabalho e saiu viajando com uma, duas e na quarta encontrou quem ele queria.
E se refez rapidinho da perda de Marly.

Enquanto isso, ela patinava, arrumando-se e saindo para jantar em lugares caros, onde nunca tinha estado com Jurandir. Ou a assistir a espetáculos, balés, teatros, restaurantes, sempre olhando para os lados e reparando em todas as pessoas, mesmo nas que estavam acompanhadas.  Voltava para casa aborrecida, principalmente porque seu dinheiro estava indo embora.

E procurava saber pela internet que tipo de restaurante eram os que ela escolhia. O mesmo fazia com os bares. Achava os que eram para ir só;  os que eram para paquerar; os que eram para comer bem etc

Um belo dia, aprumou-se e foi à cata de uma paquera, porém sua roupa não era exatamente a de uma mocinha que desejava somente paquerar. Foi ficando enlouquecida e cheia de raiva e resolveu que estudaria sobre o amor. Tudo. Tudo que pudesse abranger o amor. Desde a paquera até os hormônios que o envolviam e como eles mexiam com as mulheres e os homens.

Mocinho

Mocinho

Determinada como sempre foi, Marly passou primeiramente a frequentar a Biblioteca Municipal, para depois, de sua casa, estudar virtualmente.  E assim teve acesso a artigos e livros científicos que destrincharam para ela desde o papel fundamental na mulher do estrógeno e da progesterona, até a maravilha da importância da ocitocina no orgasmo e na amamentação, o que não era propriamente o seu caso. Mas que é sempre bom saber.

Sim, e da testosterona no homem. E o cuidado especial que os homens deveriam ter com a serotonina, que poderia ser a causa de ejaculação precoce, fez uma pausa no estudo e pensou: que azar! Apesar de os homens também terem o divino “hormônio do amor”, a ocitocina, neles sua produção poderia ser 2000 vezes menor que nas mulheres, riu Marly toda felizinha. E pensava rindo alto: será que por isso tenho um fogo danado no rabo?

Muito bem, sabendo de tudo isso e muito mais  na ponta da língua, resolveu oferecer cursos pela internet. O curso teria quatro módulos. Sendo o último prático e presencial.
E anunciou seu curso em um site cujo assunto principal era sexo. Todos os seus anúncios eram ilustrados com fotografias de Marly fazendo uma montanha de poses referentes aos assuntos a serem tratados e abordados no módulo.

Mais ou menos isso: Módulo I – Aprendendo a ser espontânea e natural; Conhecendo seu próprio corpo; Sentindo seu próprio cheiro e de seu namorado etc.

Interessante foi que Marly se identificou, logo que começou a estudar e que depois resolveu tratar o assunto no Módulo I, o seu próprio problema: sua baixa autoestima, sua falta de espontaneidade e naturalidade. Tudo porque ela nunca foi talhada para amar, mas sim para arranjar um meio de vida.

Ora, como alguém pode ser natural e gostar de si, com uma calculadora no cérebro?

Não paravam de lhe telefonar querendo saber sobre o curso, o preço e, principalmente, se as aulas práticas, seriam com ela.

Peteca

Peteca

Teve tanto apelo, mas tanto apelo que Marly, toda desarrumada, passava o dia inteirinho e parte da noite também, dando aulas pela internet, postando inúmeras apostilas preparadas por ela, corrigindo provas, atendendo a pedidos de socorro, uma loucura. Ela já não tinha o menor tempo pra ela.

Ela acordava falando em amor, tomava café da manhã amor, almoçava amor, lanchava amor, jantava amor, e estava porraqui com amor. E ainda nem tinha começado o maldito módulo IV, ela suspirava exausta amor. Desesperada quis pular fora, mas não imaginava como.

Esbodegada, não suportava ouvir alguém falar a palavra amor perto dela. Também, muito louca, ela montou 25 grupos de cara. E teria contingente humano para montar mais. Ela é que quis ir “devagar”. Ela  jamais poderia supor que o tempo de duração das aulas que ela bolou seria impossível de ela dar conta.

Pôs um anúncio no jornal. Precisa-se de uma bióloga. Paga-se bem. Com esta recessão dos diabos, rapidamente surgiu uma com quem ela se identificou. Marly explicou o trabalho para a moça , que se entusiasmou. E pôs a moça para estudar seu método, além de dar liberdade a ela de modificar o que ela achasse mais razoável.  E assim foi feito.

Mas às primeiras turmas Marly deu as aulas práticas.  E juntou alunos e alunas e praticou junto com eles como ser espontâneos e naturais. Além de sentir seus corpos, cheiros…

Entenderam, perguntava. Sempre tinha um engraçadinho que dizia que não, sobretudo quando tratava de conhecer o próprio corpo. E lá ia ela mostrando, pegando a “mãozinha” do indivíduo e pondo no devido lugar e perguntando: está sentindo? Percebeu  alguma coisa diferente? E o sacana respondia: mais ou menos, professora. Melhor repetir…

Antes que o “curso” da primeira turma acabasse, Marly disse que precisaria ausentar-se um pouquinho.

Marly está sumida até hoje. Ninguém nunca mais soube dela nem nunca mais a viu. Jurandir está entre esses. Uns dizem que ela mudou-se para o exterior. Já houve gente que disse que Marly morreu.

Jurandir criou uma bonequinha com a cara de Marly, que fala arigato.  Junto com seu banco de fotografias está faturando uma fortuna. E vive rico e feliz com a sucessora da pobre Marly.

Helena BastosAos 17 anos publicava minhas crônicas no extinto jornal Diário Popular. Foi assim e enquanto eu era redatora do extinto Banco Auxiliar, um porre! Depois me dediquei às filhas. Tenho duas, Paola e Isabella. Fiz comunicação social. Mas acho mesmo que sou autodidata. Meu nome é Helena e escreverei aqui aos domingos.

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