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Letras Irreverentes: As Abóboras | Cabine Cultural
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Letras Irreverentes: As Abóboras


Logo Letras IrreverentesColuna de Helena Prado sobre tudo que o universo pode oferecer; um espaço para contos, crônicas, textos, relatos…

Letras Irreverentes: As Abóboras

Era uma vez duas amiguinhas lindas que foram adotadas por uma “rainha”. Era como elas chamavam a mãe, como viam a mãe, que tudo fazia para agradá-las.

Uma, Isabella, era loirinha. Outra, Renata, era moreninha. Elas foram abandonadas numa igreja. O padre, sabendo que dona Lucy tinha loucura pra ter duas meninas da mesma idade, chamou-a até a igrejinha onde estavam as meninas.

Dona Lucy imediatamente encantou-se com as crianças e saiu da igreja com as duas pelas mãos.

Elas estavam bem ressabiadas, coitadinhas. Não sabiam ainda onde iam morar, se dona Lucy era boa como o padre falava, nem nada do que ia acontecer com elas.

E dona Lucy, quando chegou em casa, mostrou às crianças tudo de bom que agora era delas. Jardim, balanço, piscina, quartos, e até um cachorrinho e um gato.

Ah, como as crianças deliraram! Só não gostaram dos dois quartos. Mas eram muito tímidas e estavam encabuladas. Dessa forma, não conseguiram falar para a mãe que queriam dormir juntas, no mesmo quarto.

Mas coração de mãe, mesmo mãe de mentirinha, entende tudo de longe, bastando apenas um pouquinho de convivência.

E assim que ela descobriu, fechou um dos quartos e o outro lindo se abriu. E as duas ficaram numa alegria sem fim.

Ábobora

Ábobora

Passavam os dias brincando em casa mesmo até que foram com a mãe conhecer a escola onde iriam estudar. Como não tinham parâmetros, acharam tudo ótimo, as aulas começaram e assim foi, elas gostando demais.

Depois de alguns anos, um dia a mãe chegou com uma surpresa. Sentem-se aqui, minhas bonecas. Eu já contei para vocês várias histórias de princesas.  E vocês, o que acharam? E as crianças responderam que gostaram. De todas, mais ainda da cinderela, respondeu a mais falante, Renata.

Então dona Lucy disse para as filhas: agora que vocês estão estudando numa escola de verdade, e que já sabem ler, escrever a somar e subtrair, vocês vão para outra escola para aprender a ser princesas, como Cinderelas, vocês querem?

As crianças se entreolharam e ficaram imaginando carruagens, rainhas más, maçãs envenenadas, castelos, sapatinhos de cristal, rainhas boas e príncipes encantados, abóboras, carruagens.

E disseram sim, nós queremos. E onde fica essa escola, disse dessa vez a loirinha Isabella, a mais afoita. Fica aqui perto, minha filha. E tem príncipe e rainhas, disse Isabella? Não, minha filha, respondeu dona Lucy, olhando para os olhos puros e lindos das duas belas meninas.  ????

Nessa escola, a das princesas, vocês aprenderão outras coisas: valores e princípios morais e éticos.

???

Está difícil de entender? As duas juntinhas disseram: simmmmmmm.

A mãe achou que ia suavizar: “Vocês são preciosas para mim e precisam ser preparadas desde já para que o coraçãozinho de vocês seja capaz de discernir entre o certo e o errado, entre a ação que produz algo bom e o gesto que traz constrangimentos. Desta forma, a escola ministrará ao coração de todas as meninas como vocês valores e princípios éticos, morais e sociais, que as ajudarão a conduzir suas vidas com sabedoria e discernimento.”

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Carruagem

Carruagem

As futuras princesas boiaram e a mãe entusiasmada foi explicando mais uma montanha de maravilhas que o curso da Escola de Princesas proporcionava. Como, por exemplo, que o curso era composto por duas partes: VIDA DE PRINCESA e FÉRIAS DE PRINCESA

Na vida de princesa elas iriam aprender coisas do tipo caráter (interno) da princesa, o “sonho de toda princesa”, mais uma vez princípios éticos e morais. Impressionante, as meninas chamaram a atenção da mãe, para como a Escola de Princesas insistia nos temas moralidade, ética e caráter. Uma tia delas, irmã de Lucy que chegou pouco antes e ouviu o que Lucy contava toda animada, perguntou se ela estava pondo as meninas para estudar na TFP, Tradição, Família e Propriedade. Lucy ficou injuriada e sua prima, Ivany, ainda não sabia da missa a metade.

Mas Ivany cutucou a prima e falou: continue, Lucy, fiquei interessada. Como Lucy não tinha noção do ridículo, foi falando mais algumas coisas.  Um monte de absurdos que Ivany precisou de um lenço pra segurar o queixo que foi caindo, caindo até despencar. E, frenética, Lucy disse que o curso era dividido em doze módulos e as tantas mencionou “A identidade da Princesa”, “Relacionamentos da Princesa” e “Etiqueta da Princesa” e mais uma série de idiotices que dava dó imaginar as crianças passando por aquela estupidez, futilidade e fábrica a de retrocesso. Era quase que impossível acreditar que aquilo era verdade, existia. Em pleno século XXI.

E não adiantou Ivany buzinar no ouvido da prima o, jeca, caricaturesco e provinciano e mais trocentos sinônimos do brega que seria pôr as crianças para frequentar esta escola. Fora o dano emocional que fatalmente causaria às crianças.

Lucy as matriculou e ponto. Um pecado! Ivany ficou tão triste e chorou tanto que não quis mais ver a prima.

Já no último módulo do final do curso, Isabella e Renata, não tinham amigas, não se relacionavam com as colegas, nem nada. Às vezes, uma festinha, um chazinho ou um passeio de limusine com outras duas ou três “princesas”, mas muito raramente.

Já estavam passando para a fase “De princesa a Rainha” e tinham aprendido a fazer compras de supermercado, a cozinhar, a costurar, a se vestir, a ter cuidados especiais com o “castelo”, com o próprio corpo,  já …

Já tinham virado donas de casa. E agora estavam “restaurando os princípios morais do matrimônio”.

E o mais “importante” “À espera do Príncipe” e “Como se guardar, ser a passageira ou eterna?”

As duas meninas, que não tiveram um início de vida nada fácil, estavam agora com 15 anos e bem  perdidinhas, solitárias…  Uma judiação!

As princesas

As princesas

Excesso de zelo e amor, ou burrice?

Tinham, sim, bons modos, eram educadíssimas, mas bobinhas, bobinhas e fúteis, coitadas. A realidade delas não era a de nenhuma de suas colegas de colégio. Tanto é que as duas interromperam logo os estudos no colégio e só quiseram frequentar essa fábrica de ignorantes e fúteis. Em contrapartida, sabiam cozinhar, costurar, bordar, eram meninas do início século passado.

Tímidas, muito tímidas, não conversavam com ninguém, nunca tiveram um namorado.  Ficaram tão esquisitas que a prima Ivany, sem mesmo perguntar para Lucy, levou as duas garotas para um psiquiatra.

Enquanto estiveram na sala de espera, Isabella e Renata foram reconhecidas. Porque o famigerado curso fez “uma formatura” num desses programas horríveis de televisão. Uma coisa pavorosa, elas receberam flores, entraram de carruagem no estúdio e responderam a algumas perguntas. Dava vontade de chorar.

Quando entraram para falar com o psiquiatra, houve quem dissesse que assistiu ao programa e que o curso servia para trazer de volta a mulher para a casa, fazendo com que elas deixassem de trabalhar e voltassem a ser do lar.

Um rapaz mais afoito disse-lhes que talvez ele estivesse de frente com duas Marcelas, referindo-se à mulher de Michel Temer.

Outra moça, sugeriu que era frustração da mãe, nos seguintes termos: Quando vi as duas mocinhas não pude deixar de comentar.

Na verdade, o nome da escola deveria ser Escola de Princesas/ Mães Frustradas realizam-se com suas bonecas! Não está claro que isto foi inventado para suprir necessidades de mães loucas? Aquelas beeeeem frustradas?

Outra aventou a possibilidade de a mãe das meninas quererem que elas achassem um “príncipe” com dinheiro. Ou seja, um namorado/marido por interesse.

E todas as pessoas concordaram num ponto:  que quem inventou a malandragem era, só para ficar na “delicadeza”, alguém muito doente e louco por dinheiro, que deveria estar num manicômio judiciário. Para pagar por todas as “princesas” que foram transformadas em abóboras histéricas, como foram diagnosticadas as meninas.

Lamentável!

Só aqui mesmo neste país onde tudo acontece, do mais escabroso ao mais cretino, alguém pode lesar inúmeras meninas com sérias consequências para a vida inteira e, na maioria das vezes, ficar por isso mesmo.

Helena BastosAos 17 anos publicava minhas crônicas no extinto jornal Diário Popular. Foi assim e enquanto eu era redatora do extinto Banco Auxiliar, um porre! Depois me dediquei às filhas. Tenho duas, Paola e Isabella. Fiz comunicação social. Mas acho mesmo que sou autodidata. Meu nome é Helena e escreverei aqui aos domingos.

 

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