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Debatendo Cinema: Ave, César! e a Era de Ouro de Hollywood | Cabine Cultural
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Debatendo Cinema: Ave, César! e a Era de Ouro de Hollywood

Ave, César!

Ave, César!

Coluna de Gabriella Tomasi sobre a sétima arte; uma análise mais aprofundada do cinema

Dirigido e roteirizado por Joel Coen e Ethan Coen.  Elenco com: Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Ralph Fiennes, Jonah Hill, Scarlett Johansson, Frances McDormand, Tilda Swinton, Channing Tatum, Verónica Osorio, Natasha Bassett.

Contém spoilers sobre o filme!

Em um primeiro momento, somos introduzidos à Eddie Mannix (Brolin), onde está em um confessionário com um padre. Ele afirma que se passou 24 horas desde a sua última confissão. Dentro da cabine, percebemos claramente que o local sombrio e escuro reflete o estado emocional que Mannix vive, em contraste à claridade da cabine onde está o padre. Mannix confessa, então, que peca, pois mente à sua esposa o fato de que ainda fuma.

O horário? São 5 da manhã e Mannix dá início ao seu trabalho e descobrimos aos poucos que, na realidade, aquele não é seu único pecado. Posteriormente, vemos o personagem interromper uma sessão de fotos particular da atriz Gloria DeLamour (Bassett), sob o argumento de que o estúdio (fictício) de cinema – Capitol Pictures – é quem detém os direitos sobre a referida atriz. Na sequencia, a polícia chega e outro nome é inventado para que a identidade verdadeira da moça não fosse revelada.

Neste caso, os irmãos Cohen se referem a um período muito específico de Hollywood: A Era de Ouro dos anos 40-50 e é esta época que eles irão aprofundar seu estudo na obra. Uma época em que, os estúdios de maneira geral eram literalmente proprietários de todos os que colaboram para o cinema: roteiristas, atores, montadores, editores, labutavam para as produções de forma exclusiva.

Tal referência também é evidenciada em outras cenas, como, por exemplo, quando Mannix tenta negociar uma “troca” de atores com outro estúdio para executar certos papéis, o que obviamente não leva em consideração a opinião do próprio ator para esta “transação”.

Já nos damos conta, portanto, que Mannix tem como principal função manter a ordem e o funcionamento regular da programação da filmagem dos filmes. O caso relatado acima é apenas um dos inúmeros outros momentos em que ele irá tentar colocar situações embaraçosas para debaixo do tapete. Sua vida pessoal também é retratada com uma certa brevidade, apenas para provar que o american way of life, ou, a vida perfeita de Hollywood realmente não existe.

Ave, César!

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Acompanhando seus passos do dia a dia, nos deparamos com ele e sua assistente em uma sala de projeções, onde eles vêem algumas cenas do próximo filme do estúdio: “Hail, Caeser– Um Conto Sobre Cristo”. Uma clara referência ao sucesso “Ben-Hur”, um filme que faz parte de um gênero quase extinto atualmente, os “épicos bíblicos”, e cuja escala de produção cresceu consideravelmente naquela época, surgindo outros clássicos do gênero: Os Dez Mandamentos, Sansão e Dalila, QuoVadis, Julio Cesar, entre outros. Como protagonista, temos a figura de Charles Heston incorporada, desta vez, em George Clooney, um personagem bastante particular chamado Baird Whitlock, do qual iremos tratar mais adiante.

Esta dimensão do gênero épico reflete em uma das cenas mais elogiadas pelos críticos: o momento em que Mannix discute “Hail Caeser”, com representante de igrejas de quatro religiões distintas, haja vista que a trama visa não ser ofensiva a nenhuma religião. Ele afirma: “os filmes são a referência para essa história”, ou seja, a concretização da história da bíblia e, portanto, de Cristo. O motivo de tantos elogios reside no olhar cínico dos irmãos Cohen que neste aspecto foi maravilhoso, eis que denuncia a interferência religiosa das produções, a necessidade de representar a imagem do divino de maneira verossímil e, portanto, mais realista. Ainda,vangloria-se da grandiosidade e o custo alto de sua produção. Importante salientar que estas medidas, na história do cinema, foram adotadas, em razão do surgimento e crescente popularidade das televisões naquela época, que forçou a indústria cinematográfica a gastar e a investir milhões com produções de mesma linha, a fim de evitar a extinção do cinema. Igualmente, era uma forma de se opor às produções novelescas e baratas na televisão e, portanto, de manter a superioridade do cinema em relação a estes.

Mais tarde, vemos que esta situação da mesma forma contribuiu para o surgimento do cinema em 3D, o alargamento do tamanho das telas, as poltronas sensoriais entre outros recursos.

Em Ave, César!  a questão do sucesso da televisão é também explorada, no momento em queMannix é convocado para uma reunião com um empresário, o qual lhe oferece um emprego fixo e com menor carga horária na indústria de aviação. Gabando-se do terrível episódio da explosão das bombas Hiroshima e Nagasaki (afinal, os Cohen’s não perdem um momento sem cutucar alguém), ele afirma que o crescimento do ramo garantiria maior estabilidade e sucesso do que a decadente indústria cinematográfica. Isto já indica, portanto, que o cinema estava com o futuro fadado ao esquecimento. Obviamente, com as novas invenções já mencionadas, a situação é revertida.

Em relação à forma como os atores e os seus personagens eram tratados pelos estúdios é particularmente explorado em Hobbie Doyle (Ehrenreich) e DeeAnna Moran (Johansson). O primeiro é um caipira, estrela de outro gênero quase em extinção – os westerns. Acostumado com poucas falas, ângulos gerais e amplos da câmara, o ator é escalado para atuar em um novo drama do renomado diretor Laurence Laurentz (Fiennes). Pouco habituado em dar uma maior expressividade em seu rosto e linguagem corporal, é sensacional a forma como Doyle transmite pouca segurança e firmeza quando a câmara – em um travelling por grua – se move inteiramente focado em seus movimentos, o que gera um desconforto por parte do personagem. Movido pela necessidade em criar uma “obra de arte” e manter sua reputação no ramo, Laurentz acaba adaptando técnicas para mascarar o pouco talento de Doyle. Isto é encarnado em uma das cenas mais hilárias da trama quando Laurentz tenta dar aulas rápidas para disfarçar o sotaque americano do interior e também nos momentos em que ele corrige Doyle, por vezes de maneira desnecessária, a pronuncia de seu nome. Sua figura também explora o tamanho da influência que o estúdio tinha sobre os atores, na medida em que o personagem não somente aceita passivamente as direções de Laurentz, mas também porque de forma abrupta o estúdio decide mudar a “imagem” que o ator deverá ter a partir de um determinado momento, incluindo um encontro arranjado com Carlotta Valdez (Osorio) – a referência à Carmen Miranda e curiosamente também ao filme de Hitchcock Um Corpo que Cai (Vertigo).

Ave, Cesar!

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DeAnna Moran, por sua vez, reflete mais um gênero já inexistente no cinema: os musicais aquáticos, em uma referência à Esther Williams, nadadora profissional que estreou em filmes de produção da MGM. Todo o nado sincronizado em Ave, César! até a coroa e os tesouros são uma homenagem à “A Sereia de Hollywood”. Porém, todo o glamour acaba quando Johansson joga a coroa no maestro da orquestra e sai do set por estar com dificuldades com o figuro, já que está grávida. Por óbvio, trata-se de desconstituir também a idolatria que se tinha, quando jovens atores se tornavam ícones e modelos para uma nova geração, como Marlon Brando e Audrey Hepburn.  Tudo isto compunha a indústria de fantasia e ilusão que era o cinema hollywoodiano. Neste aspecto, Moran transmite inocência e pureza, o que demonstra, na sequência, ser totalmente o oposto na vida real.

Casada duas vezes e ora grávida de um filho – fruto de um caso com um homem casado – Mannix, consulta um advogado para que Moran possa adotar o próprio filho, com o auxílio de um “faz-tudo” chamado Joseph Silverman interpretado por Jonah Hill. Nesta cena, o ambiente levemente escuro, venezianas, o plano fixo e centralizado em uma porta com uma janela de vidro fosco que indica o local, a figura da femme fatale, cigarros e, ainda, o próprio esquema para a execução de um plano imoral torna aquele momento uma referência especial aos filmes noirs.

No contexto de mais um escândalo, a obsessão pela vida dos famosos transformou o conteúdo jornalístico, o qual começou a apostar nas colunas de fofocas sobre a vida dos artistas. Assim, a rivalidade das gêmeas Thora e Thessaly Thacker (ambas por Swinton) ressalta a mídia sensacionalista, jornalistas que sempre rondam os estúdios, desesperadas por encontrar algum furo ou alguma notícia exclusiva, e uma delas, inclusive, utiliza-se de ameaças para este fim, mencionando um episódio – que não é explicado – envolvendo o ator Baird Withlock, e um filme por ele estrelado: “Nas Asas das Águias”. Afinal, 20 milhões de leitores confiam no trabalho delas e não podem decepcionar seu público. O mais hilário, contudo, é a própria reação das pessoas quando ouvem o nome deste filme, ao som de um corvo ao fundo, reforçando o nível sombrio do assunto, em oposição a um nome grandioso e bonito.

Porém, Mannix tem que dar conta de outro problema maior ainda: o desaparecimento repentino de Baird Withlock, caso que também chama atenção dos tablóides, obviamente. Descobrimos que ele foi levado por dois figurantes do filme “Hail, Caeser” até um grupo de comunistas, que se autodenominam “O Futuro”, e o mantêm como refém. Ocorre que – repito – nada escapa da “língua afiada” dos irmãos Cohen: a hipocrisia desta situação é evidenciada mais brilhantemente pelo ângulo plongée de um integrante dos grupos dormindo em um sofá de luxo abraçado em uma revista “Soviet Life” (Vida Soviética, em tradução livre). Reunidos em uma mansão com vista para o mar, discutindo “história” e “economia”, as pessoas daquele grupo tratam-se de roteiristas que se cansaram de ter seus lucros sugados pela Capitol Pictures, eis que nunca obtiveram alguma vantagem. Não bastasse isso, exigiram, de forma anônima, a Mannix uma quantia para o resgate do ator e Withlock tenta suborná-los para também receber uma parte do dinheiro. Entretanto, o grupo se nega, alegando que o dinheiro é uma restituição pelo trabalho deles. Deste modo, percebemos que eles não são tão comunistas tal como afirmam.

Ave, César!

Ave, César!

Repisa-se que o filme acontece em um momento pós Segunda Guerra Mundial e início da Guerra Fria. Portanto, a rivalidade entre os comunistas da União Soviética e os capitalistas dividiu também os Estados Unidos. No ramo cinematográfico, o cenário acima mencionado tem respaldo histórico. Naquele período, existia a HUAC – A Lista Negra de Hollywood, cujo objetivo era negar emprego a pessoas suspeitas (roteiristas, atores, músicos, diretores, etc), em Hollywood, de incluir conteúdo comunista em alguns filmes produzidos. Em Ave, César! estes roteiristas tentaram atuar dessa forma, mas não era o suficiente. De acordo com eles, era preciso medidas mais “drásticas”.

O mentor deles? Por meio de um pista plantada para nós, espectadores, temos o conhecimento de que é um ator em ascensão chamado Burt Gurney, interpretado por Channing Tatum, cujo personagem estreia em musicais, época em que este gênero estava no auge com Gene Kelly em filmes como Cantando na Chuva.

A genialidade, no entanto, dos diretores, reside nas últimas cenas impagáveis de Ave, Cesar! quando Bird Withlock é finalmente resgatado e se senta com Eddie Mannix, para relatar todo o ocorrido. Um discurso, curioso, por sinal, no qual ele conta que ele diz que os comunistas se dão conta de toda farsa hollywoodiana, com a decadência do “valor artístico” dos filmes, em favor da construção de uma indústria mais comercial. Uma indústria que reflete exatamente os dias atuais: grande escala de produções e de marketing de filmes que servem, sobretudo, para inflar um mercado, sem cuidar justamente como a sua qualidade, e que, por conseguinte, degrada o nível intelectual e criativo na execução de um filme.

Tal mensagem – recheada de verdades – é criada até que Mannix o interrompe com alguns tapas na cara de Withlock, exigindo que ele retorne ao set de filmagem para terminar o filme que começou. Desse modo, nos damos conta da intenção central dos irmãos Cohen, qual seja, desmascarar a faceta dos personagens, os quais são esculpidos pela ignorância, pelo ego, e são facilmente manipulados.

Assim sendo, percebemos que a estrutura narrativa é muito boa. Pode-se presumir que todas as histórias acima desenvolvidas supostamente se tratam de subtramas. Mas, ao contrário, tratam-se de situações cotidianas com as quais Mannix deve lidar. É o que vemos nas cenas finais, onde o protagonista retorna ao confessionário – o mesmo do primeiro ato – para informar a sua indecisão acerca da oferta de emprego, anteriormente citada. Portanto, é uma narrativa que confere aquele momento como início do seu dia, do seu trabalho e simboliza circularmente o seu cotidiano: uma rotina cansativa, mas que lhe é satisfatória. E mesmo que esse trabalho seja tão difícil, todos os eventos são importantes para lembrá-lo de que é impossível negar que ele ama o que faz e o faz por amor ao cinema.

Nesta carta de amor dos irmãos Cohen’s, o trabalho metalingüístico é inteligente e maravilhoso e ainda nos conferem momentos lindos, como por exemplo, um edifício grego, apenas longe o suficiente para notarmos a artificialidade do cenário com uma parte dos estúdios dentro do mesmo enquadramento. Os equipamentos já mencionados, como as gruas que executam os travellings horizontais e verticais, e também o trabalho de montagem em uma das cenas mais nostálgicas quando o lenço de uma montadora fica preso no aparato. O completo breu da equipe técnica ao redor do set, para enaltecer a beleza do trabalho da construção do universo fílmico com os cenários montados e a câmara rodando.

Transformando algo simples em uma obra extremamente complexa, temos que elogiar os diretores por um trabalho tão impecável como este.

GabriellaTomasiGabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

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