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Crítica A Chegada: Villeneuve faz um trabalho excepcional em denunciar o medo do incompreensível

A Chegada

A Chegada

 

Dirigido por Denis Villeneuve, roteiro por Eric Heisserer. Baseado no livro “Story of Your Life” de Ted Chiang. Elenco com: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Tzi Ma

Por Gabriella Tomasi

Nas primeiras cenas deste longa encontramos a Dra. Louise Banks (Adams), uma lingüista renomada e professora universitária.  Em um ritmo mais acelerado, somos introduzidos à trajetória dela e de sua filha desde o nascimento até a morte desta, já adolescente. Nas cenas subseqüentes, reencontramos a profissional em sua casa: um lugar vazio, escuro, isolado. A caminho de lecionar uma turma, ela mal se dá conta do fervor daquele ambiente, em razão de 12 novas naves desconhecidas que pousaram em diferentes países, sendo uma delas nos Estados Unidos.

De início, ela não parece estar afetada pelos eventos que tomam conta do mundo, preferindo ficar reclusa em sua casa, ou então em seu trabalho. Quando ela retorna para uma universidade vazia, ela recebe a visita de militares, que a convidam para se comunicar com as espécies que residem dentro da concha – assim como a nave é denominada por eles – e interpretar a sua linguagem, a fim de descobrir o motivo pelo qual eles chegaram e seu objetivo na terra.

Durante o segundo ato, acompanhamos a jornada da lingüista em conjunto com o cientista Ian Donnelly (Renner) na base militar onde permanecem. A cada 18 horas eles adentram a nave, com o intuito de interagir e compreender a nova linguagem estrangeira e não-linear. Paralelamente, percebemos o impacto que o medo do desconhecido causa, mergulhando a sociedade em um mundo caótico de agressão, pânico e de calamidade pública. A incerteza de tudo aquilo faz surgir teorias conspiratórias, atitudes radicais e extremas de pessoas influenciáveis, as quais, inclusive, interferem na mentalidade dos próprios soldados.

Neste contexto, a direção de arte, junto com uma trilha sonora impressionante de Jóhann Jóhannsson constroem um ambiente de grande tensão em torno de algo misterioso e possivelmente muito perigoso. Isto se intensifica quando Louise consegue entender uma mensagem, na qual os seres afirmam que seu objetivo é “oferecer arma”. A situação, então, se agrava de maneira desproporcional, na medida em que os países começaram a interpretar aquela frase em seu sentido mais pejorativo, como uma confirmação de um pré-conceito firmado de que aqueles estrangeiros se tratavam de inimigos – exatamente como se esperava. A partir daí, uma guerra mundial ameaça a se instaurar, devido à uma mobilização inicial pelo governo da China. Villeneuve (mesmo diretor de Os Suspeitos, Sicario – Terra de Ninguém) faz um trabalho excepcional em denunciar o medo do incompreensível, o qual gera atos de guerra por parte das pessoas.

A Chegada

A Chegada

Muito importante destacar, que a fotografia é muito expressiva na representação dessa concha: os planos abertos e aéreos demonstram sua grandiosidade. Em seu interior, reforça-se o seu isolamento e o seu vazio que compõem uma rima visual com a casa de Louise, tal como descrevemos inicialmente. No momento do primeiro confronto dos personagens principais com os seres, os altos contrastes dominam – entre a escuridão e luz – e incorporam justamente o “Mito da Caverna” de Platão. São duas espécies (humana e alienígena) separadas apenas por um vidro onde os humanos permanecem no lado escuro, revestidos de certa ignorância e, na claridade, por sua vez, ou o exterior da “caverna”, é onde permanecem seres iluminados que compreendem muito mais sobre o universo, sobre o tempo, e que têm uma visão de mundo muito mais ampla que a nossa.

Percebemos também que a câmara volta para o ponto de vista de Louise inúmeras vezes, e nos “transformamos” em seus olhos e ouvidos, por exemplo, quando o som do helicóptero é abafado no momento em que ela coloca os fones de ouvido para poder falar com Ian, ou então quando enxergamos pelo ângulo do interior dos uniformes. A subjetividade é empregada, pois a convivência com os seres lhe desperta uma sensibilidade de tal maneira que se chega à conclusão de que o único meio de união e de compreensão entre povos é por meio da comunicação e do estudo da linguagem, o que entra em conflito com os métodos militares.

A decupagem-montagem desta obra, por sua vez, é brilhante ao utilizar uma montagem que alterna com as lembranças de Louise e sua filha e que funciona dentro de uma estrutura circular, simbolizando o percurso da vida e morte. Neste sentido, a descoberta do real propósito desses seres na terra pela protagonista impacta sua vida particular ao revelar que estamos vinculados ao tempo e não cabe a nós alterar a ordem dos eventos. Por conseguinte, a mensagem que permanece é a de apreciar o caminho e não ficarmos preso ao destino que ele nos leva.

É a noção de que ainda vale muito a pena reviver emoções e amores, mesmo sabendo que, ao final, podem resultar em dor e sofrimento, pois elas carregam em si ensinamentos que nos moldam como pessoas.

É admirável, portanto, que o diretor se apropria do gênero da ficção científica para colocar em questão algo, que, não coincidentemente, é a primeira palavra que Louise ensina para os seres extraterrestres: “Humano”.

GabriellaTomasiGabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o site Ícone do Cinema

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