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Literatura: “Erótica – Contos Eróticos Escritos Por Mulheres” - Org. Babéti do Amaral Gurgel | Cabine Cultural
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Literatura: “Erótica – Contos Eróticos Escritos Por Mulheres” – Org. Babéti do Amaral Gurgel

Erótica – Contos Eróticos Escritos Por Mulheres

Erótica – Contos Eróticos Escritos Por Mulheres

“Não é só de best-sellers que a literatura erótica é feita. Existem muitos livros interessantes (e mais excitantes!) por aí e que, apesar de menos conhecidos, são capazes de despertar a imaginação dos homens e levar as mulheres à loucura.”

Por Elenilson Nascimento

Observamos ainda hoje a enorme dificuldade que as famílias têm para orientar seus filhos, preferindo, na maioria das vezes, transferir toda essa função para a escola. E, na escola, o que constatamos é que os profissionais da educação também não estão preparados para uma orientação adequada, sem aqueles discursos religiosos ou moralistas. Então, vemos crianças, adolescentes e até adultos buscando informação com colegas igualmente desinformados, em sites de pornografia ou em fontes obscuras. Aprende-se sexo em livros? Contudo, a sexualidade humana vai muito além de teorias e cenas em romances, mas quando são bem escritas vale a pena.

E muito antes de E. L. James escrever o péssimo “50 Tons de Cinza”, que mesmo sendo um livro ruim vendeu milhões e ainda virou filme, a muito melhor Clarice Lispector escreveu no conto “O primeiro beijo” que: “Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido”, e nem por isso pareceu vulgar e infelizmente só é lembrada em provas pífias do Enem.

Tempos depois o autor da série “Game Of Thrones”, George R. R. Martin, dando uma de moralista, rejeitou pedido dos fãs para escrever mais cenas de sexo nos seus livros. Contudo, precisamos deixar os “achismos” de lado: “é feio falar sobre sexo”; “acho bobagem a virgindade”; “não concordo com homossexualismo”; etc. Devemos lembrar que cada indivíduo tem sua história e cultura familiar, e que isso sim, deve direcioná-lo na formação de juízos e valores. Talvez por isso, a escritora Bebéti do Amaral Gurgel organizou a antologia “Erótica – Contos Eróticos Escritos Por Mulheres”, com 35 contos para debater sobre sexo de forma bem natural, do “ser humano”, e falar de emoções, sentimentos, autorrespeito e respeito ao próximo, abordando também cuidados e prevenção. Isso tudo, sem tirar o humor. Não basta – e não se deve – tratar de sexo como biologia pura. Isso além de ser cansativo é chato. Deve-se tratá-lo como conversa, de pessoa para pessoa, sem receio, olho no olho, e não ao pé do ouvido, como assunto escuso e impróprio. E porque não num livro? Mas, depois da leitura, mesmo com muitos textos muito bem escritos, fiquei com a impressão que as mulheres ainda têm muita dificuldade para falar sobre o tema. Mas é um livro divertido e cheio de desejo.

O livro começa com o conto devastador “Acaso”, de Carmem Raquel Gorni, onde uma balzaquiana imagina os dedos assanhados de Jorginho: “Minha nossa, hoje nem eu escapei dos pisca-piscas mágicos acendendo aqui ddie ali e lá onde não bate o sol!” – mas que, na realidade, a estória é sobre um nada ingênuo “gozofone”, onde Jorginho quer de qualquer maneira uma transa casual com uma mulher mais velha. Com um texto bastante inteligente, a autora crítica a atual falta de cuidado dos mais jovens em transar com quem nem conhece e alerta, quase no final, para o fantasma da AIDS. Em “Bodas di-amantes”, a escritora Leontina Maria da Silva brinca com uma conversa entre mãe e filha: “Mãe, você já teve um orgasmo?”, e questiona a linguagem bem oposta entre gerações sobre o transar, o trepar e o fazer amor. E a pudica mamãe ainda confessa: “Eu dava a xereca. Dava meu corpo inteiro para ele deitar e rolar em cima”.

Em “Ele”, a autora Marlene Bilenky confessa ter acordado taradinha e safadinha, alegre por ter o cheiro súbito nela, mesmo tendo terminado com o namorado André pois ele gostava de lhe excitar com o seu dedo bem lá no ponto, depois ainda enfiava bem dentro dela. O conto faz questão de ser bastante melancólico pois o tempo todo a autora faz referências ao passado, como se o presente fosse uma escada quebrada e onde os homens dão sentimentos para os próprios membros: “Olhe, só você consegue deixar Ele desse jeito. Vê como Ele é louco por você, Ele quer te comer todinha”. Em “Festa de aniversário”, de Márcia da Cruz N. Leme, uma quarentona questiona sobre o quê tanto riem essas meninas modernas. A “dona da solidão mais radical” se sente no ostracismo, onde duas bonecas da sua distante infância ainda repousam sobre a sua cama, mesmo odiando o fato de ainda tê-las mantido por todos esses anos. No decorrer da leitura, descobrimos o motivo de tanta amargura: a pobre quarentona ainda permanecia virgem: “Nunca vou me perdoar por isso. Guardei o meu corpo não sei pra que, não sei pra quem (…) Entreguei-me ao mais cruel dos amantes: o tempo”. Contudo, a sua tristeza é embalada com muita poesia ao descrever a sua situação de velha-virgem: “Ele (o tempo) possuiu-me de uma maneira tão violenta como homem nenhum seria capaz. Gozou em mim com sarcasmo e não esperou que eu ao menos percebesse o que estava acontecendo. Sugou-me os seios, sugou-me a alma de dentro de mim. Resta uma casca que de nada serve”. Então, outra descoberta, o motivo de ela ter optado pela castidade enfadonha: um amor não resolvido na adolescência. Pobrezinha! Uma abestalhada! Mas o conto é interessante!

Em “As inesquecíveis coxas do meu vizinho”, de Cristina Fernandes, uma mulher tem tesão por um par de coxas masculinas que ela havia descoberto através da janela do apartamento ao lado. E entre uma masturbaçãozinha aqui e ali, num belo dia na praia, ela encontrou o dono daquelas coxas da janela. E entre um encontrão e outro no balançar das ondas, eles acabam transando na praia mesmo, sem ninguém perceber. No conto “Meu tempo é quando”, de Maria Adélia Alvez, numa festa bem monótona, uma cadeirante tem um encontro bem “quente” com um desconhecido. Depois das apresentações de rotina, o rapaz a convida – talvez só por curiosidade – para sexo.  E mesmo com toda a vergonha da moça devido a sua situação e pelo fato de usar fralda descartável, o rapaz se mostrou bem obstinado: “Não tem importância. Eu quero você”. Achei a cena bem surreal, mas não deixa de ser encantadora pois, mesmo que os puritanos não queiram, cadeirantes também têm desejos e querem sexo.

Até Madonna, com todo o seu erotismo, é citada como uma figura pós-moderna em um dos contos

Até Madonna, com todo o seu erotismo, é citada como uma figura pós-moderna em um dos contos

Em “Peg Pag”, de Gisela Ráo, uma colecionadora de tédio e borboletas, de 42 anos (ela se acha velha!), que se sentia um bolo fofo com recheio de gordura e cobertura de celulite, uma mulher que se considera uma sobrevivente inválida de uma vida cotidiana de classe média, conheci Paulo Sérgio numa dessas idas e vindas ao supermercado e acaba na cama com o macho. Uma frase resume bem esse conto: “O que seria do feijão com arroz se não fosse o escalopinho com catupiry?” Uma pena que depois do casinho, ela trocou de supermercado. Em “Penúltima confissão”, de Cyana Leahy, num dos contos mais curtos e deliciosos do livro, uma balzaquiana tem um caso com um garoto. Pedofilia? Talvez! Mas isso ainda é a situação mais comum. “Ele chega meio curvo, alto e magro. Cabelos de fogo, olhos negros me comendo toda. (…) Faminta, quero sugar sua língua entre os dentes brancos e iguais, que surgem no esgar zombeteiro de quem ama e deseja sem culpa. Meio trêmulo, ele não sabe o que diz. Me chama de mãe às vezes, o que no começo me trazia mal-estar, mas agora não ligo. Ele se excita, incestuoso, e não me faz falta. Ouço interessada todas as bobagens que ele tem para sussurrar ao meu ouvido…” No final, descobrimos que a narração é, na verdade, uma confissão a um padre, com certeza, perplexo. “Quando vejo meu menino de mochila nas costas, roupa de escola, chegar ereto e impaciente, sei que estou certa”. Texto delicioso!

No conto “Sapatinhos de lã”, de Maria Aparecida Cunha Campos, uma senhorinha tricota um sapatinho de lã para a primeira bisneta que vai nascer, e relembra seus tempos de juventude quando foi mandanda para um colégio interno, onde tinha que aprender francês, mas terminou casada com um fazendeiro rico, forte, alto, de botas e bigodes que, logo na primeira noite, a possuiu com toda a sua experiência de bordéis. Já no final de sua vida, o que lhe restou? Melancólica ela suspira: “Os seis filhos, a fazenda, o corpo curvado, as empregadas que o marido comia, as mãos ficando grossas, a cabeça baixa sob o olhar calado, e o francês e a matemática esquecidos”. Em “Sex shop”, novamente a autora Gisela Ráo consegue uma ironia desafiadora para um livro como esse. Uma tal de dona Irene, uma cinquentona, secretária há trinta, vai a uma lojinha que vende brinquedinhos para se fazer ousadia para trocar uma lingerie vermelha com flores pretas que ganhou das colegas de trabalho para a sua noie de amor com Manoel. O vendedor tenta “empurrar” desde um pênis de borracha com preguinhos na glande, pintos japoneses que ele chama de “finos que satisfazem”, mas se ela comprar dois levaria um vídeo de sacanagem de uma cabeleireira transando com um pequinês. Resultado: dona Irene começa a sentir uma taquicardia e pergunta se o vendedor não teria um liquidificador. O final do conto é hilário!

Destaque também para “A Tarde inteira”, de Isa Mara Lando, sobre um diálogo insano de um tarado com uma ninfeta sem experiência. “Tira. Tira a blusa, tira o short, tira tudo. Vai tirar, sim senhora. Depois não: agora!”. E também “Viva Dionísio!”, de Silvia von Aneken Pupke, onde uma moça estava literalmente no cio e queria amar todas as pessoas do mundo, uma a uma, de todas as maneiras, mas que, durante uma dessas noites intermináveis, em frente à televisão, fumando cigarros, encontrou um talk-show que lhe chamou a atenção onde um psicólogo entrevistava um prostituto de uns vinte anos que se gabava de ser bem-dotado. Curiosa resolveu ligar para contratar o sorridente e fortão para uma noite apenas e nada mais, o resultado foi melhor do que ela esperava: o putinho a fez gozar umas cinco vezes! “Não tinha um pênis descomunal, mas era de bom tamanho…” (“ERÓTICA – Contos Eróticos Escrito Por Mulheres”, contos, Org. Babéti do Amaral Gurgel, 238 págs, Ed. Brasiliense – 1993)

ElenilsonElenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina

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