Crítica Invasão Zumbi: filme de terror é uma jóia do cinema oriental | Cabine Cultural
Cinema Críticas Notícias

Invasão Zumbi: filme de terror é uma jóia do cinema oriental

Invasão Zumbi

Invasão Zumbi

Direção por Yeon Sang-ho. Roteiro por  Lee Dong-há. Elenco com: Gong Yoo, Ma Dong-seok, Jung Yu-mi, Kim Su-an, Kim Eui-sung, Choi Woo-shik, Ahn So-hee

Por Gabriella Tomasi

Explorar um filme de terror com a premissa de uma literal “invasão zumbi” já não é mais novidade na indústria cinematográfica. O tema é recorrente e inclusive podemos citar desde os clássicos Noite dos Mortos-Vivos, Madrugada dos Mortos, às recentes saga Resident Evil e Guerra Mundial Z. Até Jane Austen não conseguiu escapar de uma adaptação de seu livro em Orgulho Preconceito e Zumbis.

Então será que o tema já não está esgotado? O longa sul-coreano Invasão Zumbi é prova de que não somente podemos reinventar um tema, como também trazer um olhar inovador.

O filme começa explicando em uma sucessão de planos a forma como a infecção que transforma pessoas em zumbis se iniciou. Em seguida, somos apresentados ao personagem Seok-woo (Yoo): um gerente de investimentos ambicioso, mas que está em dificuldades no mercado. Conforme a narrativa progride, aprendemos que ele é divorciado e sua mãe e filha Su-an moram com ele. Um típico homem de negócios que aparentemente coloca seu trabalho em primeiro lugar e, por conseguinte, é um pai ausente na criação da sua filha a ponto de não saber seus gostos na hora de presenteá-la em seu aniversário e muito menos se lembrar do que já lhe deu em outras ocasiões. Yoo, no entanto, faz um trabalho magnífico em tela ao despertar empatia no espectador pelos seus próprios defeitos, pois é ao mesmo tempo é um pai muito preocupado e que, ao contrário do que presumimos, sempre tenta se aproximar da filha, mas para conceder-lhe uma vida confortável, há de se fazer certos sacrifícios.

Leia também:  Crítica Tinha Que Ser Ele? Um Desastre Desnecessário

Porém, sentindo-se abandonada, Su-an exige morar com a mãe em uma cidade chamada Busan e, mesmo contra a vontade do pai, ele decide levá-la até o destino, de trem.

Durante a viagem, percebemos que um tumulto na estação trouxe uma pessoa infectada para dentro de um dos vagões. Rapidamente, várias vítimas se tornam zumbis e a invasão acontece.

É importante frisar que este não é mais um filme que utiliza um ataque como pretexto para executar várias cenas de ação, ou um espetáculo cinematográfico em uma busca para salvar bilhões de pessoas no mundo inteiro. Neste caso, trata-se de um trabalho mais realístico, no qual versa sobre pessoas que se encontram em uma circunstância aterrorizadora e que não conseguem explicar ou entender o que se passa. É uma tentativa apenas de contornar a situação para sobreviver e, igualmente, em uma busca por um lugar seguro aonde possam se abrigar. Dessa forma, é muito interessante e até criativo a forma como os personagens usam os objetos em sua volta para tentar combater zumbis ou fugir deles, muito embora o roteiro os presenteie com certos elementos convenientes para a trama dar seguimento.

Invasão Zumbi

Invasão Zumbi

Mesmo assim, o longa utiliza uma ocasião perfeita para explorar os efeitos que uma situação caótica gera, como, por exemplo, o Governo sul-coreano que toma uma atitude pouca honesta convencendo a população de que aquilo tudo é apenas uma mera rebelião de pessoas aleatórias que procuram contestar o governo; a desconfiança; a separação e a morte de familiares e amigos; a incerteza; as pessoas que utilizam da própria influência para manipular a situação e; ao mesmo tempo as pessoas que se submetem a este tipo de controle, rejeitando a própria humanidade.

Leia também:  Crítica Jonas e o Circo sem Lona, de Paula Gomes

E é exatamente o estudo do ser humano que o filme maravilhosamente se concentra. A princípio, o próprio pai Seok-woo evoca sentimentos egoístas em querer salvar somente a si e à sua filha, mas conforme a narrativa se desenvolve, ele também evolui, quando passa a se importar com a segurança das pessoas que ele interage. Nesse sentido, os demais passageiros são também explorados (uns mais que outros, por serem muitos), fazendo com que os seus destinos também sejam importantes para o espectador.

Assim sendo, o roteiro soube bem contar uma história em que, em meio um acontecimento caótico, fatal e devastador faz-se com que os valores humanos mais sinceros (e que muitas vezes ignoramos ou esquecemos) renasçam nas pessoas.  É o fato de que atitudes mesquinhas e gananciosas não levam a nada e, no final, sempre precisamos uns dos outros. Que é necessário unir e se despir de todos os preconceitos para dar espaço à bondade e ao altruísmo. Por isso, não é a toa que nos deparamos com pessoas idosas, mendigos e uma mulher grávida ao longo da narrativa. Tudo é introduzido justamente para que esses sentimentos possam surgir com mais naturalidade, ao invés de recorrer à uma mudança de princípios abrupta nos personagens.

Ademais, tampouco é mera coincidência que todos esses valores mais puros parecem se centralizar na figura da inocência da menina Su-an. Sua presença é relevante para fazer com que todos se lembrem disto. Ela é bússola moral e, portanto, não se afeta pelos ensinamentos impróprios e maldosos dos adultos. Aliás, o próprio filme testa essa mesma malícia do espectador em um particular momento que nos faz pensar que um ato sexual está ocorrendo em um dos banheiros do trem.

Leia também:  Crítica Colossal: novo filme de Anne Hathaway faz valer a pena o ingresso

No que tange à composição estética, a direção de fotografia faz um trabalho eficiente em explorar as cores azul, amarela e verde, principalmente em relação à iluminação. Um destaque é nas imagens dentro do trem, quando o veículo entra em túneis e os tons de azul tomam conta dos planos, até que a entrada de claridade registra um momento muito simbólico de heroísmo.

Os efeitos, por sua vez, são muito competentes para captar a transformação das pessoas em zumbi, assumindo isto como um processo de apodrecimento da pele, o que o diretor Sang-Ho Yeon faz questão de acompanharmos de perto as faces dos monstros em primeiríssimos planos. De fato, todo o seu trabalho foi essencial para intensificar o terror e para sentirmos a claustrofobia dos lugares, o que ele domina com maestria, embora alguns planos fechados prejudiquem nossa noção do espaço físico, e, portanto, justificar algumas fugas.

Invasão Zumbi é uma jóia do cinema oriental que faz duras críticas, mas também sabe valorizar as principais virtudes humanas.

É um filme que certamente nenhum espectador sairá ileso do cinema.

 

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

Deixe uma resposta