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Crítica Manchester à Beira-Mar: uma obra-prima para se louvar

Manchester à Beira-Mar

Manchester à Beira-Mar

Dirigido e roteirizado por Kenneth Lonergan. Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Susan Pourfar, Gretchen Mol, Tom Kemp, C.J. Wilson, Stephen Henderson, Tate Donovan, Kara Hayward e Matthew Broderick

Por Gabriella Tomasi

Lee Chandler (Affleck) trabalha em um condomínio como zelador: um “faz-tudo”.  Tira a neve, joga o lixo, conserta problemas elétricos e hidráulicos. Porém, desde os primeiros minutos do filme percebemos algo errado. Sua linguagem corporal nos mostra uma coluna levemente encurvada, um grande olhar triste e vago. Um homem que aparentemente está resignado ao que faz, não aproveitando as oportunidades que a vida lhe traz, e, por conseguinte, rejeitando qualquer tipo de aproximação das pessoas, preferindo a vida solitária em seu apartamento minúsculo.

Certo dia, sua rotina monótona é interrompida por uma ligação que o faz se desloca de Boston para Manchester após a informação de que seu irmão Joe (Chandler) veio a falecer. Uma cidade à beira-mar, ele tem de lidar com as burocracias que surgem para providenciar o velório e o funeral, o passado que ele deixou para trás naquele lugar, assim como decidir o futuro de seu sobrinho Patrick (Hedges), do qual seu irmão nomeou-lhe tutor.

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O diferencial desse longa é justamente a forma como ela trata a perda de alguém e como o luto afeta de várias maneiras as vidas das pessoas. Neste aspecto, o diretor e roteirista Lonergan foi cuidadoso ao tratar de sua trama tanto sua história, quanto sua narrativa, uma vez que ela pode equivocadamente tomar três rumos: ou ser melodramático demais, ou ser clichê demais, ou ser superficial demais. Ao contrário, o resultado é de um filme sobre um lindo estudo sobre a humanidade.

Manchester à Beira-Mar

Manchester à Beira-Mar

Primeiramente, podemos perceber que a fotografia fez um lindíssimo trabalho ao captar um ambiente gélido de um inverno rigoroso que contribuiu para representar a atmosfera pouco acolhedora na percepção do nosso protagonista. A paleta essencialmente fria permite sentir a melancolia daquela cidade e o que isso significada para ele. As cores mais quentes e os momentos felizes em flaschbacks demonstram que um dia Lee foi pai, esposo, e feliz. E o melhor exemplo desse sentimento também reside no figurino, o qual escolheu uma interessante cor para o moletom usado pelo personagem: um verde vivo, representando a esperança, contrastada com o tom escuro do verde usado por ele no tempo atual do filme, simbolizando a completa ausência dela.

E o que aconteceu para que Lee se tornasse a pessoa rígida que estamos vendo? Essa pergunta é respondida pelos flashbacks já citados que aparecem, na forma de lembranças na mente dele, na medida em que é obrigado a enfrentar as situações e os lugares por onde ele passa. Neste aspecto a montagem fez um trabalho impecável ao não simplesmente inseri-los onde se fizeram necessários, mas a edição de Jennifer Blame fez cortes precisos que alternam com as expressões no rosto de Lee, demonstrando com essa técnica, por exemplo, o que a notícia de se tornar tutor causou emocionalmente ao protagonista. Não subestimando a inteligência dos espectadores, o longa cria, por conseguinte, uma narrativa imagética, permitindo que eles mesmos façam as ligações e reflitam sobre o que está acontecendo, conforme as imagens vão aparecendo em tela. As memórias, deste modo, possuem função narrativa e não somente se prestam para dar mais camadas ao personagem.

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Da mesma forma, longe de querer tornar seu filme um melodrama exagerado, Lonergan fez uma excelente escolha de planos mais abertos e fixos. Dessa maneira, ele ressalta as emoções que o ambiente evoca ao mesmo tempo em que utiliza planos longos ou em slow motion, confiando na atuação dos seus talentosíssimos atores para permitir que o tom dramático se desenvolva naturalmente, ao invés de focar em suas expressões faciais em primeiríssimos planos o tempo todo. Assim, o seu trabalho no roteiro também foi fundamental para que esse efeito não recorra à escolhas óbvias: uma conversa desajeitada com a sua ex-mulher Randi (Williams) permite descobrir que um evento trágico que ocorreu entre eles e, levou à sua separação, ainda há a presença de um amor grande; as brigas entre Lee e Patrick, seu sobrinho, que terminam em pequenos gestos de amor incondicional; a dependência de Patrick em sempre pedir por carona, por favores ou por simplesmente pedir dinheiro para comprar um sorvete é refletida na sua dependência emocional, em relação à Lee, e, por fim, um encontro entre Patrick e sua mãe, a qual se sente pressionada a agradar seu filho e demonstrar que ela se tornou uma pessoa melhor.

Neste sentido, nenhum dos seus personagens é tratado como vilões ou heróis rotulados ou superficiais. Todos são humanos, mesmo que os erros possam definir sua personalidade nos olhos dos outros às vezes. Por exemplo, Lee é um personagem frio, mas suas ações e sua voz demonstram a sua sensibilidade e a importância que ele dá às coisas. Seu comportamento muitas vezes agressivo é explicado pelo fato de que como um erro irreparável cometido por ele foi tratado com tanta banalidade pelas autoridades policiais, que ele busca desde então uma autopunição, provocando brigas ou se machucando propositalmente. Patrick, por sua vez, é um adolescente de 16 anos como qualquer um: ele tem a personalidade forte e questionadora, é paquerador, popular, não liga pra escola, a não ser para seu time de hóquei, e suas atitudes são uma forma de tentar desesperadamente encontrar refúgio das dores. Além disto, a sua mãe, muito embora taxada por Lee como uma psicótica e desumana, demonstra ser exatamente ao contrário ao testemunharmos o encontro mencionado.

Manchester à Beira-Mar

Manchester by the Sea (screengrab from EW.com Exclusive clip)

A trilha sonora é igualmente um dos pontos chaves do filme, eis que casa perfeitamente com a dramaticidade ao utilizar peças eruditas com instrumentos de corda. No entanto, é no silêncio que está a sua maior expressividade. É fascinante como esta obra, ao invés de investir em diálogos que podem soar vagos ou clichês, consegue deixar esta tarefa para que o próprio espectador preencha esta lacuna por meio do completo silêncio. Ou seja, mesmo sem dizer nada, as cenas dizem muito apenas pela posição da câmera e pela expressão e atuação dos atores.

Não querendo ser pessimista, a mensagem que se passa é que mesmo que existam danos irremediáveis, mesmo o desejo de voltar no tempo e refazer nossa história para corrigir nossos erros, nós precisamos seguir em frente, precisamos adaptar à realidade de uma vida, a qual as vezes sem aviso nenhum, pode mudar repentinamente tudo.

Manchester à Beira-Mar é sobre humanidade e essa aproximação com a vida real, tão maravilhosamente bem recriada, faz com que ela seja relacionável com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo.

E é uma obra-prima para se louvar.

 

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

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