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Crítica: Estrelas Além do Tempo é um filme impactante que faz jus às mulheres geniais

Estrelas Além do Tempo

Estrelas Além do Tempo

Dirigido por Theodore Melfi. Roteirizado por Allison Schroeder, Theodore Melfi. Baseado no livro homônimo por Margot Lee Shetterly. Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monae, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons

Por Gabriella Tomasi

Estrelas Além do Tempo é um filme que começa, em um lindo tom de cor sépia (que justamente nos remete aquela tonalidade dos filmes dos anos 20/30, como A General), a história de uma brilhante menina chamada Katherine que, desde pequena, já possuía uma predileção pelos números, geometria, ou seja, pela matemática em geral. O mesmo olhar de menina otimista e sonhadora a acompanha em uma elipse que nos transporta à sua vida adulta. Interpretada por Taraji P. Henson que nos presenteia com uma das melhores atuações ainda este ano, reencontramos a personagem com suas amigas Dorothy Vaughan (Spencer) e Mary Jackson (Monae), e um carro quebrado no meio de uma estrada. Ao longo da trama, podemos perceber que Katherine se tornou uma matemática, Dorothy possui conhecimento em computadores e a última é uma engenheira. Todas trabalham na NASA.

Apesar de todas serem colegas e atuarem na atual maior agência área espacial do mundo, a situação de suas carreiras é longe de ser uma das mais invejáveis. Afinal, não se trata aqui do fato apenas de que elas são negras. Elas são negras nos Estados Unidos da década de 60. Ainda, elas são mulheres (negras) inseridas em um meio profissional dominado essencialmente por homens (brancos). Portanto, estamos lidando com uma época extremamente racial, sexista e preconceituosa que foi a sociedade norte-americana.

Ainda que pertinente seja a tradução “Estrelas Além do Tempo”, o título original deste longa é mais efetivo em seu original – “Hidden Figures” ou “Figuras Escondidas” – pois é exatamente o que elas foram: peças importantes escondidas, pouco valorizadas. Esse efeito é o mesmo quando em tela aparecem imagens televisivas reais das principais notícias do país acerca das primeiras viagens espaciais, quando aprendemos que na realidade, por detrás das cortinas, elas foram as maiores responsáveis por esse sucesso.

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Mas o que mais chama atenção nesta homenagem é como o preconceito é vivenciado por cada uma delas. “Amontoadas” em um prédio escondido e pouco cuidado, longe dos principais edifícios dentro do complexo da NASA, é notável a sensação e a pouca preocupação de um “ambiente de trabalho digno” (muito embora as cores quentes tornam o ambiente um pouco mais acolhedor),  em comparação aos espaços amplos, com mesas espalhadas, organizadas e mais confortáveis para os demais trabalhadores brancos,  ou como, ainda, o banheiro luxuoso que somente é acessível às mulheres brancas.  O mais chocante é que a opressão é tanta que negros não podiam beber do mesmo café, ler os mesmos livros ou tomar da mesma água que eles. Pior, eram proibidos de compartilhar o mesmo “ar” já que sempre – em qualquer lugar – assentos em lugares públicos eram reservados a negros e separados dos brancos. É de se prestigiar, portanto, uma história contada com todos os detalhes sem querer suavizar nenhum destes aspectos.

Estrelas Além do Tempo

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Da mesma forma, o filme encontra um equilíbrio em contar as dificuldades, não somente pelo diálogo, mas também pela própria narrativa imagética como, por exemplo, o silêncio que segue com a entrada de uma negra em um lugar de importância, como se fosse uma intrusa; os olhares ao fundo quando Katherine enche sua caneca de café, o plano-detalhe de um sapato demonstrando nervosismo; os vários cortes sucessivos para demonstrar o quão longe há de se percorrer até chegar ao banheiro, entre outros.

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Neste contexto, elas não são retratadas como pessoas que lutam pelos negros em geral, ou são grandes ativistas. Ao contrário, elas somente tentam ser reconhecidas pelo o que fazem, e, assim, poder ter as mesmas acessibilidades que qualquer outra pessoa. São pequenas batalhas cotidianas. Mas ao mesmo tempo elas tentam mudar a sua situação, elas muitas vezes se resignam e aceitam alguns dos empecilhos. Não como uma derrota, mas pela consciência de que não será de um dia para o outro que as convenções serão alteradas. Situação esta que é transparecida pela expulsão de Dorothy em uma biblioteca ou pelo personagem Paul Stafford (Parsons) quando se recusa a dar crédito à Katherine em um relatório ou, ainda, quando lhe nega acesso à uma reunião com pessoas relevantes por não haver tradição de mulheres participarem.

No entanto, elas se destacam e se transformam gradualmente em profissionais fundamentais para o sucesso do embarque do homem ao espaço, o que permite (e exige) que todos os “protocolos formais” sejam quebrados. Essa percepção é muito bem representada em Al Harrison (Costner), superior de Katherine, ao tentar executar uma missão que só pode ser concretizada por meio dela. Deste modo, não é mera coincidência que esse “destaque” seja muito bem refletido no figurino nas três personagens principais. Notem como o vestuário delas se diferenciam. Enquanto as demais personagens femininas usam roupas de cores mais pálidas ou mais formais, como o preto, e, ainda, os homens possuem um “uniforme monocromático” de camisas brancas e gravata preta, Katherine, Dorothy e Mary dominam nossa atenção em tela com cores vivas (sendo o amarelo, verde e rosa os principais). Note-se também como um batom rosa ou uma unha vermelha são muito mais chamativos, em relação à coloração natural das demais e, por fim, os acessórios mais ousados do que o restringido uso de “pérolas”.

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Em outro ponto de vista, devo parabenizar – até certo ponto – os roteiristas Melfi e Schroeder por não desviarem a atenção do espectador para explorar mais a fundo o real objetivo do trabalho das três moças. Afinal, estamos tratando de pessoas que alavancaram a Guerra Fria e possibilitou que os Estados Unidos e a Rússia iniciassem um conflito bélico. O problema se agrava quando, muito discretamente, a direção de Melfi tentar romantizar ou “hollywoodizar” essa pavorosa guerra. Perceba-se a idolatria ao ex-presidente Kennedy com uma foto colocada propositalmente ao centro da sala de Harrison, ou então um pôster enquadrado no canto do plano, a fim de inferiorizar a Rússia ou, ainda, a própria figura do “herói imaculado astronauta” que arrisca sua vida e, portanto, é captado usando um smoking e gel no cabelo durante uma reunião, como se estivesse a caminho de uma festa.

Estrelas Além do Tempo

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Felizmente, conseguimos até esquecer desta perspectiva, na medida em que é deixada de lado para abordar e criticar a questão alarmante da segregação racial dos Estados Unidos e como pequenas atitudes pioneiras das personagens, tais como, pleitear perante um juízo ou demandar acesso a documentos podem gerar consequencias positivas e que impactam futuras gerações. Como Mary pontua muito bem: “alguém tem que ser o primeiro”.

Dessa maneira, Estrelas Além do Tempo é extremamente eficaz em se tornar um filme impactante que faz jus às mulheres geniais e uma luta que até os dias atuais não foi inteiramente resolvida.

É uma história para inspirar muitos a traçarem o mesmo caminho.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

Uma resposta para “Crítica: Estrelas Além do Tempo é um filme impactante que faz jus às mulheres geniais”

  1. Parabéns pela profundidade da análise.Gostei muito deste filme. Mas creio que você talvez tenha se esquecido de mencionar a trabalho também competente da atriz branca Kirsten Dunst como uma chefe no início bastante fria, seca, antipática e cortante para com as mulheres negras.

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