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Crítica Armas Na Mesa: um thriller que nos faz lembrar House of Cards

Armas na Mesa

Armas na Mesa

Dirigido por John Madden. Roteirizado por Jonathan Perera. Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw, Michael Stuhlbarg, Alison Pill, Jake Lacy, John Lithgow, Sam Waterston

Por Gabriella Tomasi

Neste longa, Elizabeth Sloane (Chastain) é uma lobista renomada de uma empresa, cujos clientes são políticos aliados à direita política. Nos primeiros minutos somos introduzidos ao seu mundo e, principalmente, o que seu trabalho envolve: “estar sempre um passo a frente, antecipar os movimentos dos seus oponentes e elaborar contramedidas”. Certo dia, ela é convocada para defender uma campanha pró-arma dos Estados Unidos, mas rejeita a proposta em razão de convicções pessoais. Por conseguinte, ela aceita o desafio de entrar para outra empresa de menor porte, a pedidos de Rodolfo Schmidt (Strong), para defender a criação de uma regulamentação mais rigorosa de compra de armas por civis.

Determinada, inescrupulosa, calculista, fria, sedenta por vitória. Essas são as mais visíveis qualidades que a protagonista não só as demonstra, mas as admite para o público em uma quebra da quarta parede, durante os primeiros planos do longa. Ela é uma pessoa tão dedicada ao trabalho, que acaba empregando métodos imorais e ilegais sem pensar duas vezes e, assim, negligencia tudo e todos à sua volta. Mas ela não é a única, já que cada vez mais somos inseridos em uma profissão, cuja competição é uma verdadeira briga de gato e rato, onde tudo vale, inclusive atos criminais, subornos e ameaças apenas para que seus próprios interesses políticos/financeiros no Congresso sejam atendidos. É um mundo no qual se torna irrelevante quais sejam seus ideiais morais no momento de aprovar ou não leis/projetos, eis que sequer considera os efeitos de suas decisões na sociedade. É simples: quem possui mais influência e dinheiro, é quem leva. E curiosamente, o cinismo é tão grande, que um dos momentos mais marcantes é quando retrata o tamanho da torpeza dos políticos por meio do choque ou escândalo causado entre eles quando o personagem de Forde (Lacy) revela perante o Senado a sua profissão de “prostituto”, em uma ironia de pré-conceitos simplesmente maravilhosa.

Essa noção, portanto, de que a realidade por trás das cortinas é cruel e distorcida, reflete na paleta de cores da fotografia de Blenkov, o qual optou por utilizar cores sem vida, quase monocromáticas. A maquiagem e figurinos de Chastain, por sua vez, são extremamente parecidos com aqueles usados por Amy Adams em Animais Noturnos, ou seja, extremamente carregada e pesada, refletindo a “mulher bem sucedida e poderosa, mas sombria”. Da mesma maneira, lindos tons de verde e vermelho muitas vezes se sobressaem nos planos imprimindo a sensação de constante autodestruição e corrupção do órgão legislativo.

Armas na Mesa Filme

M164 David Wilson Barnes (left) and Jessica Chastain (right) star in EuropaCorp’s “Miss Sloane”.

Outro aspecto interessante é colocar a questão do porte de armas como centro de discussão, visto que não somente é um tema polêmico nos Estados Unidos, devido à sua cultura, mas é um tema universal. Neste sentido, o roteirista Perera apresenta argumentos reais de ambos os lados da moeda e enaltece, ao mesmo tempo, que o intuito real para a sua exposição não é um debate racional e saudável, mas sim manipular a opinião das massas, com a ajuda da mídia inclusive, a fim de pressionar os políticos na hora do voto. Essa tática é evidenciada pelos momentos em que Esme Manucharian (Mbatha-Raw) vira uma sensação ao ser forçada a expor uma experiência dolorosa para os jornais.

Esse ambiente e clima de competição é são transmitidos constantemente pelos diálogos rápidos, trilha sonora energética e cortes precisos que, graças à uma montagem competente, tornam o filme com um ritmo bastante ágil, especialmente quando se alternam planos que se passam antes e depois de um determinando evento. Esse efeito justamente evidencia a dinâmica da “corrida contra o tempo”.

Em relação à protagonista, fato é que não há outra pessoa mais perfeita para o papel do que Jessica Chastain. Ela é intensa, e longe de ser alguém “privado de sentimentos”, a atriz confere a certa dose para humanizá-la e deixar espaço para suas inseguranças e medos. A direção, para tanto, utiliza enquadramentos no canto da tela quando lida com conflitos interiores, ou então quando a posiciona à frente de seus subordinados, demonstrando liderança. Um contraste interessantíssimo. Entretanto, o grande problema é que a vida passada da personagem é quase inexistente, ainda que o roteiro sugira ser importante inúmeras vezes. Pior, é quando o desfecho se aproxima e o clímax chega, criando uma situação não somente improvável (uma escolha quase preguiçosa), mas que desconstituí por completo toda essa forma de construção e desenvolvimento humano da personagem que até então sustentava em sua narrativa.

Armas na Mesa

Armas na Mesa

Neste aspecto, pois, o filme falha em definir o foco ou o propósito maior da sua obra, deixando uma incógnita ao final: o título original em inglês – Miss Slone, ou, Srta. Slone – denota um estudo sobre a personagem. Porém, não o faz satisfatoriamente como mencionado. Ademais, sugere criar uma reflexão sobre o porte legal de armas e, ao mesmo tempo, uma crítica ao modus operandi da democracia norte-americana, mas não desenvolve ou enfrenta nenhum desses principais questionamentos que ele próprio suscita, deixando mais perguntas do que respostas ao final.

Armas Na Mesa é bem atuado e funciona como um decente thriller que nos remete à famosa série da Netflix – House of Cards, contudo, deixar a desejar no desenvolvimento dos seus principais elementos.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

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