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Porque Astronautas Deveriam Saber Sobre Memória e Patrimônio III

Patrimônio e Sociedade; memória social, identidade cultural, patrimônios, coleções e muito mais

Porque Astronautas Deveriam Saber Sobre Memória e Patrimônio III

Para terminarmos os textos “dos astronautas”, e pra que eles, juntos, façam sentido, falaremos neste texto sobre a diversidade cultural, a sociedade e os grupos que a compõe.

Para começarmos, temos de perceber algo que não é difícil: como as sociedades, de diversas regiões do mundo são compostas por diversos grupos, ou tribos como eram chamados alguns anos atrás, e que cada um desses grupos têm características particulares, modos de ser e fazer que os identifiquem e agregue ou segregue indivíduos. A sociedade brasileira, por exemplo, foi, antes mesmo de 1500, formada por muitos grupos. Os diversos grupos indígenas presentes no território que hoje é a República Federativa do Brasil não tinham uma unidade como a nossa ideia de nação e ocupavam o mesmo espaço. Claro que a quantidade de pessoas, as distâncias, a presente ou não comunicação são importantes para analisarmos os povos originários do Brasil, mas o que importa é admitirmos a existência de diferenças entre eles. Em 1500 acontece o “descobrimento” do Brasil por parte dos portugueses, portanto temos mais uma cultura em contato com as já existentes. Com o número de riquezas presentes que podiam ser encontradas nas regiões da então colônia, Portugal decide colonizar a região e emprega a mão-de-obra dos africanos escravizados para a produção de recursos.

Partindo deste ponto simplório, analisemos as relações culturais. As diversas tribos que ocupavam o atual Brasil, por vezes, respeitavam-se e mantinham relações de respeito, outras vezes divergiam e tornavam-se inimigas. Uma mostra disso foi que quando os portugueses conseguiram estabelecer contatos com alguns clãs, por meio de trocas, presentes, etc., estes primeiros ajudaram os colonizadores a se oporem face os grupos contrários ao trabalho servil, por exemplo. Noutro momento, quando da invasão francesa na tentativa da instalação da França Antártica e após a reação militar dos portugueses contra os franceses no século XVI, alguns franceses que sobreviveram aos primeiros ataques dos lusos se refugiaram em tribos indígenas que, por sua vez, eram contra a ocupação portuguesa da região. Portanto, não se deve pensar em uma unidade ou um só “índio brasileiro”. Aqui ainda podemos ver que as diferenças culturais entre indígenas e portugueses foram resolvidas com violência, quando os primeiros resistiam, portanto, não puderam exercer o que hoje entendemos como o direito de participar e produzir sua própria cultura.

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Para vermos uma diversidade ainda maior e a manutenção da supremacia da cultura portuguesa, temos os africanos escravizados trazidos de muitas regiões diferentes da África, que como os povos nativos do Brasil tinham culturas diferentes, como se fossem também um só povo. No Brasil tiveram de trabalhar compulsoriamente com outros africanos que, pelo menos nas primeiras levas, tinham língua, costumes e conhecimentos diferentes. Há a teoria de que quando os portugueses colocavam estes africanos de culturas diferentes para trabalharem juntos tinham menos chance de insurreições, dado que não se comunicavam com perfeição.

Já no Brasil há alguns séculos, os grupos de escravizados passaram a se identificar como um, produzindo uma cultura própria, uma música própria e manifestações particulares. Os batuques e a capoeira são exemplos disso, e foram inclusive reprimidos com leis que os proibiam, os batuques por fazerem muito barulho e perturbar a paz das cidades povoadas pela elite ou das fazendas de poderosos ricos, como no Rio de Janeiro, e a capoeira por representar uma luta que poderia ser uma arma contra o Império.

Os Operários, Tarsila do Amaral, 1933

Os Operários, Tarsila do Amaral, 1933

Já aqui, no século XIX, onde a sociedade parecia ser mais coesa culturalmente falando que na atualidade, temos exemplos de diversidade e imposição, repressão e permissão seletiva de culturas.

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Agora passemos para a sociedade contemporânea na qual os meios de comunicação, a produção cultural e os meios de difusão de conhecimento são extremamente mais ampliados que no século XIX, permitindo que mesmo grupos pequenos, de dez ou quinze pessoas, possam se identificar em suas particularidades moldando uma cultura nova e própria. Hoje as posições político-sociais estão muito além de abolicionistas, escravistas e libertários como no século XIX. As pessoas, independente da classe social, têm opiniões, necessidades, vontades e anseios seus, e o Estado deve, por definição, atender democraticamente a todos partindo do bem comum. Entretanto, ainda há indivíduos que querem sobrepor suas culturas às demais, acreditando ser melhor. Esse pensamento provavelmente não existiria se a ética, o respeito, a tolerância, a democracia e a cidadania funcionassem como realmente deviam.

Uma amostra disso é quando radicais religiosos, geralmente muito conservadores, são contra a existência dos grupos GLBT’s, dizendo que “não é natural” e que “Deus não fez o mundo assim”. Com o exercício efetivo dos valores citados eles poderiam pelo menos permitir (não que dependa deles) a formação desses grupos e a atuação igualitárias dos gays, transexuais e demais, na sociedade, e, em verdade, deixariam de se ocupar com algo que pouco influencia na vida prática da nação, ou seja, formam mais um dos muitos grupos e culturas existentes. Outra amostra é quando alguém com poder aquisitivo usa sua influência ou contatos com pessoas do poder executivo, em diversas esferas do poder, para privilegiarem-se face a patrimônios: quando pedem intervenção para o não-tombamento de um patrimônio para facilitar a especulação imobiliária, ignorando o que o patrimônio em questão representa para algum outro grupo que não o seu; ou quando tentam facilitar o reconhecimento de algum patrimônio que remeta a si ou a alguém próximo, com quem se identifica em detrimento de outras, burlando a democracia e exercendo a corrupção, o preconceito e ajudando na manutenção da seletividade de momentos de memória pertencentes às classes dominantes.

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Mas enfim, onde se encaixam os astronautas? Peço desculpas, mas não vou responder objetivamente. O que pretendo é instigar a reflexão da seguinte questão: o homem há bastante tempo, busca e por vezes encontra segundos cientistas, vestígios ou sinais de vida inteligente fora da Terra. Pensando na ocasião de o homem realmente encontrar extraterrestres, numa nave ou batendo na escotilha da Estação Espacial Internacional, o que pode acontecer? Os terráqueos aprisionarão os espécimes para estudo, como animais, ou respeitarão as diferenças tentando um contato amigável? O homem da Terra vai querer impor sua cultura ou vai encher os olhos com a possível diversidade cultural E.T.? Portanto, a necessidade de astronautas saberem sobre memória e patrimônio é para que, pelo menos no campo das ideias, saibam que caso encontrem a tal vida inteligente fora da Terra, ela também pode ter um passado, uma memória, monumentos, grupos diversos, e que não devem, assim, repetir erros terráqueos como o Holocausto, a escravidão ou a dominação da sociedade pela Igreja Católica na Idade Média, entendendo que as diferenças nos separam, mas que o respeito nos une.

 

Titulado em nível de graduação em Conservação e Restauro de Bens Culturais, graduado em História, especialista em Gestão, Preservação e Valorização de Patrimônios e Acervos e em Estudos em Memória, e mestre em Patrimônios, Acervos e Memória. Atualmente é Historiador e Conservador-Restaurador do Círculo de Estudos Bandeirantes, em Curitiba, entidade cultural agregada à PUCPR onde também ministra aulas e oficinas periódicas para graduandos em História

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