Crítica: vale a pena assistir A Grande Muralha?
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Crítica: vale a pena assistir A Grande Muralha, grande estreia da semana?

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A Grande Muralha

A Grande Muralha

Dirigido por Zhang Yimou. Roteirizado por Carlo Bernard, Doug Miro, Tony Gilroy. Elenco: Matt Damon, Jing Tian, Pedro Pascal, Willem Dafoe, Andy Lau

Por Gabriella Tomasi

O filme começa como uma introdução à história da Grande Muralha da China e como sua extensa estrutura de mais de 8 mil quilômetros fora construída com o intuito de proteger o país de inimigos e ameaças de invasões. O primeiro ato, então, começa com uma inspiração aos filmes westerns, na qual presenciamos uma batalha entre nativos e um grupo de estrangeiros que estão em busca de pólvora, sendo esta referida como uma arma poderosa e importante para o futuro deles. No entanto, após dispersar os inimigos e encontrar abrigo em uma caverna, eles são atacados por um monstro. Matando todos ali presentes, os únicos que conseguem derrotá-lo e, por conseguinte, sobreviver são William (Damon) e seu braço direito, o espanhol Tovar (Pascal).

No dia seguinte, após se aproximarem da Grande Muralha em meio à jornada, os amigos são capturados pelos chineses e forçados a serem mantidos como prisioneiros. Em uma perspectiva mitológica, a trama conta uma das maiores guerras que os chineses já enfrentaram: a batalha contra os monstros Tao Tie’s, os quais, aparentemente, fazem parte de uma maldição que é despertada a cada 60 anos para lembrar a nação da sua própria ganância.

Visualmente, o longa é um espetáculo para os olhos; há muito tempo não via um filme que realmente demonstrava criatividade e inovação com o uso do 3D, ao invés de encarecer o ingresso do consumidor, fazendo, portanto, com que as batalhas se tornem mais palpáveis. Ademais, a profundidade de campo aqui foi adequadamente empregada, criando planos abertos e aéreos maravilhosos do ambiente da muralha, com seu infinito cumprimento e de milhares de militares organizadamente posicionados ao longo de sua extensão, quase de maneira geométrica, a fim de intensificar a disciplina e a cultura rigorosa dos guerreiros orientais. Um dos momentos cinematográficos mais bonitos e que engrandece a direção de Yimou é aquele no qual são projetadas as lanternas brancas chinesas acesas no céu durante um funeral, as quais curiosamente, em um evento posterior, são transformadas em transporte aéreo militar. No entanto, mesmo com uma recriação de cenários competentes muitas vezes não se consegue escapar da artificialidade intensa advinda do uso de CGI. Prejudicando essa naturalidade, a vista pode cansar em diversas cenas.

A Grande Muralha

A Grande Muralha

Mas é definitivamente durante os primeiros embates com as criaturas malignas é quando o filme consegue mais brilhar, tendo em vista que é mais eficaz com a apresentação de diferentes armas e instrumentos usados pelos chineses e, ainda, com o uso criativo da cor em suas armaduras que sobressai aos olhos do espectador, pois dão vida à paleta essencialmente cinzenta da fotografia.

No que ele compensa com seus efeitos visuais, contudo, o filme falha desastradamente em ser capaz de contar uma história minimamente interessante e inclusive coerente. A começar pelo fato de que os chineses são referidos como soldados que pertencem à uma ordem chamada  “A Ordem Sem Nome” (alguém entendeu o trocadilho ridículo aqui?). Ademais, todos os personagens aqui também são tratados com tamanha superficialidade e desleixo, usando como desculpa para aprofundá-los o uso de diálogos expositivos que não fazem sentido algum. Perceba, por exemplo, como William é taxado em um momento por seu amigo como um “assassino”, “mentiroso” e um “ladrão” em meio ao segundo ato. Esses conceitos não somente contrariam toda a construção de “herói” que tínhamos em mente (afinal, trata-se do Matt Damon), como não possuem qualquer efeito no espectador, já que o comportamento completamente previsível do personagem não dá espaço para que duvidemos realmente da sua índole (o fato de ele trabalhar a sua “confiança” em relação aos outros não é o suficiente para torná-lo complexo). E, se não bastasse tudo o que já foi mencionado, há um possível caso amoroso clichê que surge entre o protagonista e a comandante Lin Mae (Tian), que é apenas quase perdoado pela importância e força que ela possui para narrativa como guerreira e líder feminina.

Vale salientar também que, em certo momento, cria-se uma subtrama pífia com uma fuga do seu amigo Tovar e o prisioneiro Ballard (Dafoe) que fica inteiramente dispersa na narrativa e sem uma continuidade devida, haja vista as elipses que não são preenchidas. Notem como, de repente, Tovar aparece novamente na Grande Muralha sem explicação nenhuma. O personagem de Ballard, por sinal, é esquecido e deixado completamente de lado, sendo o personagem mais descartável de toda a trama, cuja existência apenas justifica o fato de Lin Mae falar inglês, assim como para servir de interprete e tradutor simultâneo para os personagens principais.

A Grande Muralha

A Grande Muralha

Outro fator mal explicado são os monstros, os rivais da trama. Ainda que tenham criado uma história para justificar a presença deles e a existência de uma batalha, a mitologia deles não é aprofundada nem mesmo para explorar mais descobertas acerca de eventuais fragilidades ou pontos fracos. O roteiro se concentra, ao invés disto, em uma missão, um ponto que, ao ser atingido, acabará com todo o exército de Tao Tie’s, tornando a sua conclusão demasiado rasa, genérica e previsível.

A história do filme em si, por conseguinte, não é instigante ou desafiadora para o espectador, perdendo, inclusive, a incrível oportunidade de desenvolver alguma lição sobre ganância e/ou egoísmo do ser humano.

Por mais que A Grande Muralha seja uma boa dose de divertimento pelo seu atraente visual chinês, o filme não possui um mínimo de substância em meio à sua extravagância.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema


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