Crítica: Ben Affleck faz folhetim “neonoir” em “A Lei da Noite”
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Ben Affleck faz folhetim “neonoir” em “A Lei da Noite”

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A Lei da Noite

A Lei da Noite

Sólida carreira de cineasta do astro hollywoodiano experimenta o seu primeiro revés, com filme confuso sobre a ascensão de um gângster no período entre guerras

Por Adolfo Gomes

Sem cerimônia e quase desajeitado na sua frontalidade, Ben Affleck empilha, em seu mais recente trabalho como diretor, toda sorte de informações ( as  justificativas morais de seu protagonista, o contexto histórico, o entrecho romântico) e um entra e sai vertiginoso de personagens em diálogos curtos e desleixados… Tudo isso nos cinco primeiros de “A Lei da Noite” (Live by Night, EUA, 2017).

Esse começo atordoante, que lembra a “matrioska” narrativa de “Batman Vs Superman”, de Zack Snyder, pelo movimento que parecia sem fim de alinhavar subplots à trama, é, no entanto, límpido. Não tem nada de desafiador, nem exige maior grau de concentração do espectador. Afinal, tudo que é aludido, pela onipresente narração em off, é de uma platitude translúcida.

Affleck, que também assina o roteiro, se baseia num romance de Dennis Lehane ambientado entre duas guerras mundiais, duas cidades (a gelada Boston e a tropicalista  Tampa, dos everglades) e dois modos de vida ( a lei  e a marginalidade). Assim mesmo, com essa dualidade de almanaque, “A Lei da Noite” vai tentando construir sua parábola moral (e conservadora) sobre o espírito empreendedor norte-americano a fundar as bases do núcleo familiar, da justiça social e da integração racial.

Parece uma cartilha demasiada ambiciosa para um filme sobre a ascensão de um gângster no começo do século passado, não? Aos poucos, entendemos a pressa narrativa, que nada tem a ver com concisão, do começo da trama. Há muito a cobrir ainda: a consolidação da Ku Klux Klan, as origens da resistência revolucionária cubana e até o delinear do modelo financeiro dos “novos” cultos religiosos, que hoje conhecemos bem.

Mas não é só no background que Affleck acelera sua câmera. O filme sugere uma drama sobre pais e filhos e um “amour fou” à la Bonnie e Clyde,  que são descartados ou diluídos em meio à avidez pela configuração do grande “painel histórico” sobre aqueles anos cruciais para a formação do imaginário norte-americano.

São muitas evocações. Ao gênero noir, sobretudo, quando a narração em off se descolou do caráter descritivo da literatura para construir um fora de campo permeado de fatalismo, ironia e invenção. Tudo aquilo que as imagens não davam conta de expressar, a força da voz cobria, abrindo novos terrenos sonoros e mentais, para além do que o nosso olhar conseguia flagrar. Essa voz interior, que Affleck banaliza, nos privando, inclusive, da nostalgia de acreditar em desfechos felizes e improváveis que, se  concretizados, perdem toda a graça.  Como aqui.

Adolfo Gomes é cineclubista e crítico de cinema filiado à Abraccine. Curador de mostras e retrospectivas, entre as quais “Nicholas Philibert, a emoção do real”, “Bresson, olhos para o impossível” e “O Mito de Dom Sebastião no Cinema”. Coordenou as três edições do prêmio de estímulo a jovens críticos “Walter da Silveira”, promovido pela Diretoria de Audiovisual, da Fundação Cultural da Bahia.


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