Debatendo Cinema: O Sol É Para Todos (To Kill A Mockinbird, EUA, 1962) | Cabine Cultural
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Debatendo Cinema: O Sol É Para Todos (To Kill A Mockinbird, EUA, 1962)

O Sol é Para Todos

O Sol é Para Todos

Coluna de Gabriella Tomasi sobre a sétima arte; uma análise mais aprofundada do cinema

Direção por Robert Mulligan. Roteiro por Horton Foote. Elenco: Gregory Peck, Robert Duvall, Mary Badham, Phillip Alford, John Megna, Frank Overton, Rosemary Murphy, Brock Peters, Paul Fix, Collin Wilcox Paxton, James Anderson, Crahan Denton.

O Sol É Para Todos foi um filme dirigido por Robert Mulligan, cujo roteiro assinado por Horton Foote originou de uma adaptação literária homônima pela escritora norte-americana Harper Lee, a qual foi ganhadora do Prêmio Pulitzer de Ficção em 1961 pelo seu livro.

Vale salientar, primeiramente, que a tradução do título para a língua portuguesa, é bastante eficaz para a história aqui contada, uma vez que significa que o sol ilumina todas as pessoas, não importa sua raça, cor, preferência sexual, etc. Mas na realidade, possui um impacto igual quando analisamos o seu título original: Matar Um Rouxinol (em tradução livre), eis que conforme analisaremos posteriormente, possui um significado bem específico, o qual nos trará uma das mais importantes lições de vida.

Os créditos iniciais revelam a essência de toda esta obra ficcional: a trilha sonora delicada e os planos detalhes de um caixinha contendo lápis, apitos, bolas de gude, relógio, chaves, dois bonecos, entre outros objetos. Logo em seguida, rabiscos de um pássaro feitos por uma criança. O ambiente é notadamente infantil e essa é a exata perspectiva pela qual lidaremos no começo ao fim: através dos olhos e da sensibilidade da criança.

Mulligan foi extremamente criativo desde o primeiro plano inicial da trama: um contra-plongée que projeta o céu, enquanto percorre um travelling, o que faz com que as folhas das árvores em contraste mais escuro, ao seu redor, invadam o seu enquadramento claro e limpo. É uma metáfora de como a intolerância, o racismo e todos aqueles tipos de preconceito que as pessoas têm em relação ao diferente contaminassem a nossa humanidade. É dessa forma como somos introduzidos à pequena cidade sulista estadounidense chamada Maycomb.

Com ruídos de pássaros ao fundo, uma narração em off da pequena Scout (Badham) toma conta, já na sua voz adulta, na qual ela relembra os acontecimentos que marcaram sua vida a partir do ano de 1932 em que tinha seis anos de idade, e seu irmão Jem (Alford), dez. Ela descreve a cidade como monótona e quente, um lugar sem nada nem para comprar. Em sua memória os dias possuíam 24 horas, mas pareciam mais longos, o que ao longo da narrativa essa afirmação se prova verdadeira, uma vez que testemunhamos pouquíssimas cenas noturnas. A cidade interiorana é, igualmente, bem representada pela mise-en-scène, a qual reconstituiu maravilhosamente bem a época, utilizando uma fotografia de poucos contrastes e planos bem iluminados, em sua maioria.

Lá, um homem se aproxima para entregar uma encomenda ao seu pai Atticus Finch (Peck). Portando uma jovialidade e ingenuidade, Scout corre em direção ao pai avisando a chegada do Sr. Cunningham (Denton), o qual lhe traz compras como parte da quitação da dívida que possui pelos serviços advocatícios lhe prestados. Deste modo, somos apresentados ao personagem principal e, nesta oportunidade, a forma de criação e educação de seus filhos. Não poupando qualquer explicação, ele demonstra cumplicidade, autoridade e paciência quando ao mesmo tempo houve os protestos do filho mais velho em querer que ele jogue futebol ou não querer descer da árvore para tomar café da manhã. É uma perfeita introdução para que possamos compreender a personalidade de Atticus e, inclusive, para obter a empatia almejada no espectador. Jamais com olhos mal intencionados, é perceptível que ele é um pai bastante devoto aos seus filhos.

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Em seguida somos apresentados a dois personagens que, particularmente, não possuem uma função específica ou importante para a história, mas sim para a narrativa. É muito interessante como Maudie (Murphy), a vizinha, se presta para dar apoio e ratificar as escolhas do pai, quando muitas vezes Jem e Scout não conseguem entender uma situação, às vezes devido à própria teimosia. Os casos mais evidentes se dão quando Jem não quer sair da árvore, ou posteriormente, após o julgamento de Tom Robinson (Peters), o qual abordaremos mais adiante. Além disso, há o personagem Dill (Megna), um amigo dos pequenos que passa as férias de verão na casa da tia, vizinha dos Finch. Ainda que algumas vezes recaia em pleonasmos, ele é o marco temporal que indica a passagens de até aproximadamente três anos no filme, além de agregar para as travessuras dos irmãos.

Cumpre ressaltar que para a escolha do elenco em O Sol é Para Todos, Mulligan tinha feito questão na época em exigir atores mirins pouco profissionais. A atriz que interpreta Scout, Mary Badham, por exemplo, tinha feito apenas alguns papeis de teatro até então. Sua intenção residia no fato de que ele desejava que as crianças agissem o mais naturalmente possível, ou seja, como crianças de fato, sem que elas sentissem a pressão de toda uma equipe de filmagem e câmeras por todos os lados. O diretor se preocupou com um ambiente saudável de trabalho para elas. Afinal, a ingenuidade da infância também era uma preocupação do diretor e, portanto, essencial para que possamos mergulhar na trama. E foi obtido com maestria.

Por sinal, é justamente pelas brincadeiras e nos momentos de lazer entre eles é que passamos a simpatizar com cada um deles, e que, inclusive, podem despertar sentimentos de nostalgia de nossa infância pelo jeito livre e principalmente pelo jeito “moleca de interior” de Scout, a qual se recusa a colocar um vestido feminino, preferindo suas calças e macacões, como se espelhasse em seu irmão mais velho. É nesse contexto também que aprendemos, através de seus olhos, a existência de um homem misterioso e mau, projetado sempre de costas com roupas escuras, que (segundo os rumores da cidade) mantém seu filho louco, referido como Boo Radley (Duvall), acorrentado no porão de uma casa. Um lugar retratado em fortes contrastes (se opondo à iluminação clara no início), aparentando quase abandonado e inabitado, tal como imaginamos como uma casa mal assombrada seria. Mas essa memória seria uma reprodução fiel ou como eles mesmos a vêem? Esse mito do “monstro” é construído pelos irmãos, portanto, não somente em relação à Boo, mas também em relação a outros vizinhos que eles não necessariamente têm contato direto ou são um pouco ranzinzos, como uma velha idosa que mora próxima a eles. Evidente, no entanto, que esses mitos construídos também possivelmente originam da fofoca alheia, quando a tia de Dill confirma os rumores acerca de Boo, por exemplo. É fácil desconfiar de certos conceitos, já que se trata de uma população ociosa, conservadora e tradicional dos anos 30, indicando que tudo provavelmente seja produto de preconceitos de pessoas que não conseguem estender à mão ao diferente e, dessa forma, influenciam a imaginação de Jem e Scout.

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Mas certo dia, o juiz da cidade faz uma visita à casa da família Finch e solicita ao advogado para representar Tom Robinson, um negro acusado de ter estuprado uma moça branca chamada Mayella Ewell (Paxton), filha do pai Bob Ewell (Anderson). Atticus aceita. Na sequencia, as crianças, sempre alertas de tudo o que acontece na pequena cidade, resolvem seguir o pai no outro dia para averiguar o que estava acontecendo no tribunal quando uma audiência estava acontecendo. Mulligan então usa uma perspectiva interessante para tanto, quando projeta Dill, apoiado de pé nos ombros de Scout e Jem, espiando pela janela do tribunal tentando descobrir informações. Filmando apenas as crianças, a técnica utilizada serviu não somente para despertar a curiosidade de seus amigos, mas também a do espectador, já que dependemos da sua descrição detalhada dos eventos para compreender o que se passa. Novamente nos deparamos com a subjetividade infantil e da maneira como eles enxergam o mundo dos adultos.

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Mas essa trama, na realidade, desencadeia outra que pode parecer, a princípio, não relacionada com a principal, mas que se revelam em casos, nos quais as crianças assimilam a violência do mundo real. Neste contexto, Jem e Scout temendo a figura misteriosa e a casa “mal assombrada” decidem fazer pequenas demonstrações de “bravura” ao adentrar a propriedade vizinha dos Radley escondidos durante a noite. No entanto, sempre encontram os “bichos papões”. Os altos contrastes em preto das sombras que invadem a tela e se sobrepõem ao rosto delicado das crianças é então repetido diversas vezes como uma maravilhosa rima visual, toda vez que se aproximam de figuras misteriosas ou aterrorizantes com as dos Radley do lado de fora do quintal, ou a do próprio vilão Bob Ewell como a impactante cena executada em que ele se aproxima bêbado do lado de fora do carro de Atticus em tom ameaçante a Jem, em particular. Atticus diz a seus filhos: “Há muita coisa feia neste mundo, queria poder mantê-las longe de você. Nunca é possível”.

Esse medo, essa incompreensão e a falta de tolerância para com o próximo são mitificados, e também influenciam no comportamento quando Scout retorna às aulas e como desde o começo ela é responsável por começar brigas com seus colegas de classe. Desde questões mais importantes, como defender a honra de seu pai, ou problemas com a professora da escola, até as mais banais quando não aceita que o filho do Sr. Cunningham coloque uma quantidade enorme de xarope em sua comida durante o jantar. Neste quesito, Atticus engrandece sua figura educadora e paternal em relação à ela, de modo a também ensinar a nós, seus espectadores, para que possamos reconhecer nossas imaturidades tal como Scout teve que as reconhecer, e, por conseguinte, começar a aceitar o outro tal como ele é, mesmo sendo diferente ou se comportando de maneira incompreensível aos nossos olhos. O que se resume em uma das tantas frases mais lindas e icônicas do cinema que enriquecem o roteiro, quando em um momento terno entre pai e filha, Atticus diz calma e sabiamente: “Você nunca realmente entende as pessoas até ver as coisas do ponto de vista dela. Até estar na pele dela e sentir o que sente”.

Essas experiências, portanto, têm um gradativo impacto positivo em Jem e Scout. Da mesma forma como assimilam eles mesmos as explicações do pai, elas começam amadurecer e compreender melhor o mundo em sua volta, não somente por sua exposição aos males da vida, mas pelo fato de Atticus sempre ser honesto e não esconder nada de seus filhos. Assim, é natural que presenciemos, por exemplo, a cena, na qual se alternam planos entre uma arma e a reação das crianças, quando seu pai atira em um cachorro raivoso que ameaça a vizinhança, momento este que faz simplesmente chocar Jem e Scout. Ou então quando aprendem na prática o que Atticus diz quando “não se pode matar um rouxinol”, conforme trataremos ao final deste texto.

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Por outro lado, se os personagens mirins já se permitem evoluir como pessoas ao serem apresentadas a este lado da vida que contrasta com sua pureza inicial, nunca se deixa de lado esta aura de otimismo e delicadeza da juventude, transparecida nos mais eventos ordinários, contando na mise-en-scène sempre com uma trilha sonora alegre. Nesse sentido, pela inocência, elas também se permitem ser receptivas como seu pai, em relação aos demais.  É deste modo que, por exemplo, Jem presta mais atenção quando, em uma genialidade e criatividade dos diretores de arte, pequenos objetos são deixados dentro de uma casa de um rouxinol (e a referência novamente ao pássaro é extremamente importante).

A referida abordagem se torna ainda mais clara nas cenas subseqüentes, quando solicitam a Atticus para que vigie uma noite seu cliente, para protegê-lo de uma retaliação de alguns dos moradores. O insucesso do plano dos vilões se deve à Scout, que identifica o Sr. Cunningham em meio aos homens e, de um jeito doce e delicado, pergunta acerca do filho e se ele a reconhecia, pois ele, no início, havia deixado algumas compras na sua casa. Obviamente, ele se recorda do auxílio jurídico prestado e como Atticus teve a sensibilidade de aceitar a quitação de sua dívida por meio dos serviços, já que é pobre. Ele se comove e se retira com os demais. Ou seja, sem precisar usar violência ou qualquer outro recurso agressivo, Scout se utiliza de sua ingenuidade para que Cunningham perceba a magnitude de suas ações. É de tirar o fôlego a atuação desta jovem atriz que age com tamanha naturalidade.

Quando o dia do julgamento de Tom Robinson chega, a cidade inteira se mobiliza para comparecer ao tribunal, indicando que aquele evento poderia entrar na história daquela pequena cidade, já que Scout havia dito em sua narração inicial, que lá não costuma acontecer nada de importante. Jem, Scout e Dill resolvem se fazer presentes. É bem característica a forma como as cenas e os planos são ali executados, pois fica evidente que Mulligan foi cuidadoso com cada elemento em tela. Com uma profundidade de campo magistral, percebemos que os negros se sentam no andar de cima do local e, curiosamente, as únicas pessoas que dividem o espaço junto a eles são as próprias crianças, com o intuito de que fosse ressaltado aos nossos olhos que eles simplesmente não vêem a cor da pele como um empecilho para compartilhar nada. Já no andar de baixo, em contrapartida, estão todas as demais pessoas caucasianas, incluindo Bob e a vítima Mayella Ewell. Seus respectivos advogados, por sua vez, possuem uma conduta e uma linguagem corporal que denota a intenção de demonstrá-los como figuras arrogantes e gananciosas, e, para tanto, se sentam de forma desajeitada e preguiçosa, fumam charuto durante a sessão e se portam como se tivessem a causa ganha, o que contrapõe a forma polida, contida e profissional de Atticus.

Tom Robinson até então era uma figura misteriosa, já que não havia sido introduzido antes ao espectador. Como a câmara somente mostra o que os olhos de Jem e Scout veem, a única informação prévia é de que ele era casado e possuía filhos. Dessa maneira, o roteiro desenvolve e dá nuanças ao seu personagem aos poucos, conforme o andamento do julgamento.

Durante os depoimentos, Mulligan opta por primeiríssimos planos nos rostos de Tom, Mayella e Bob Ewell, o qual é testemunha de acusação. A linguagem corporal aqui também se tornou importante, porque ao mesmo tempo em que Tom fala com uma voz triste, mas convicta, Mayella foge da câmera repetidamente, embora a encare outras vezes com tom desafiador, enquanto Bob com certa desconfiança ainda mantém o comportamento de um mentiroso inconsequente. Por meio de um plano-detalhe em sua mão, a qual servirá como pista de uma revelação importante, percebemos gradativamente a fragilidade das acusações e das mentiras que foram contadas e, inclusive, de um sistema judiciário falho que, mesmo com provas fracas e duvidosas quanto às veracidades dos fatos apresentados, permitiu que o julgamento acontecesse. Repare como é surpreendente então a revelação de que o acusado confessa a incapacidade física de machucar qualquer pessoa, pelo fato de que seu braço esquerdo é completamente desprovido de um músculo sequer. Após o relato, o plano retorna a captar a expressão de Mayella: o sentimento de incredulidade que transparece nela e parece incorporar com a do espectador. Nota-se como a personagem inclusive se assusta com o simples ruído do martelo do juiz ao fundo. Outro aspecto interessante também é a forma como fora projetada o sentimento de culpa da vítima ao ter incriminado uma pessoa inocente quando Atticus apresenta oralmente suas alegações finais ao júri. Ela não é vista inteiramente fora de foco, e, colocada no quanto direito do quadro da tela, para que esse ângulo utilizado então fosse suficiente para identificar suas reações: retraída e com as costas encurvadas, ela se contorce e esfrega seu rosto na medida em que Atticus se refere à ela.

Gregory Peck faz um trabalho louvável e impactante durante sua atuação e seus monólogos em uma única (sim, única) tomada de nove minutos. Aqui ele transparece como um homem apaixonado pela profissão e pela justiça. Não importa sua cor, raça, sexo, desde que as leis sejam devidamente cumpridas, pois “todos os homens são criados iguais”, o que reforça e consolida ainda mais toda a forma como o seu personagem foi sendo construído e como ele se conduz durante a narrativa. Na época, o ator conquistou o Óscar na categoria de melhor ator e o prestígio foi realmente merecido.

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Ao mesmo tempo em que os depoimentos acontecem, Mulligan concentra em outras expressões faciais também, como a dos atores mirins, principalmente em Jem, cuja idade parece conseguir absorver muito mais todos aqueles acontecimentos do que Scout e Dill e, por meio desta abordagem, consolida a sua imensurável admiração pelo pai.

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O ritmo um pouco mais lento na narrativa que se assume aqui através da montagem é pertinente. Temos a sensação de que o julgamento durou por horas e horas. Ao final, a cena da prolação da decisão feita pelo júri, qual seja, a de considerar Tom Robinson culpado é executada de forma levemente mais acelerada, como se prolongar as formalidades da revelação da sentença fosse causar mais embaraços, o que podemos constatar pela maneira apressada como o juiz encerra a sessão. Em outra perspectiva, a direção em seguida se concentra no belíssimo plano em que Atticus caminha pelo corredor do tribunal em direção à saída, enquanto as pessoas negras sentadas no andar de cima se levantam para reverenciá-lo. Atticus, neste quesito, é uma pessoa tão humilde e tão humana que sequer nota a homenagem feita, retirando-se do enquadramento inclusive, transmitindo descontentamento. Porém, a imagem captada é extremamente impactante: note-se como após o advogado sair, o Tribunal fica vazio, e os negros permanecem lá, como se em silêncio suplicassem por amparo jurisdicional que nunca terão.

Posteriormente, a condenação de Tom Robinson veio acompanhada com a notícia de sua morte por um delegado que, no caminho à prisão, viu o prisioneiro tentar fugir. Emocionante, nem Atticus nem seus filhos conseguem encarar câmera: Jem e Scout se escondem escolhidos entre os braços e as pernas, ao mesmo tempo em que o pai dialoga com todos, relatando a terrível notícia, de costas para a quarta parede, expressando sua indignação.  A única que consegue realmente encará-la é a vizinha Maudie, dizendo: “há muitos homens neste mundo que nasceram para fazer o trabalho duro para nós. O pai de vocês é um desses.”. Assim, o ambiente é logo transformado em luto com o silêncio em sua volta.

Aquele sentimento de admiração e inspiração que Jem sentira ao ver seu pai trabalhando, é determinante para que ele insistisse em acompanhá-lo até a casa dos Robinson para avisá-los da morte de Tom. No local, Jem presencia mais uma vez a forma desumana como é tratado por Bob Ewell, o qual aparece para cuspir e tentar intimidar Atticus e a situação impacta Jem. o mundo dos adultos, portanto, é muito mais perverso do que se imaginava. Seu pai contudo confere um certo alívio à cena, como se em meio a todas as maldades ainda existem pessoas que não se rebaixam ao nível de Bob Ewell.

Na sequencia, já no outono, Jem e Scout retornam de um evento de Halloween da escola e resolvem pegar um atalho pela floresta. Os fortes contrastes, os ventos característicos da estação já conferem o tom de suspense nas cenas, o suficiente para notarmos que os personagens estavam sendo perseguidos por alguém. Logo, são atacados por um homem. Tudo acontece em um ritmo rápido, como na perspectiva das crianças, que são pegas de surpresa. A edição não nos ajuda identificar as pessoas envolvidas, e nem as crianças, mas, ao final, percebemos que eles foram salvos por outro homem, que encrava uma faca no peito do agressor desconhecido. Jem, o mais ferido, é carregado de volta ao conforto do lar, e Scout que de certa forma conseguiu se proteger na fantasia de presunto que usava e, que por sinal, odiava, segue na mesma direção.

Lá, Atticus chama a polícia e o médico e descobre que Bob Ewell foi o autor do crime, uma vez que fora encontrado morto em meio à floresta. Devo ressaltar que, embora descobrir que na versão literária haja um mistério não resolvido sobre quem de fato matou o vilão ou quem realmente atacou as crianças, na versão cinematográfica, contudo, não há tantas dúvidas criadas. A revelação, portanto, torna-se chocante apenas em relação à identidade do herói. Escondido atrás da porta do quarto de Jem aparece Boo Radley, desta vez apresentado como Arthur Radley: um personagem que transmite doçura, e palidez, mas que visivelmente é incompreendido. Em um efeito de iluminação perfeito, o personagem literalmente sai das sombras que lhe cobriam detrás da porta em direção da iluminação, ou seja, em direção ao “sol”. Uma linda metáfora, da qual já havia mencionado no início do texto: o sol realmente é para todos.

Mas ainda que a atitude nobre de Boo tenha supostamente salvado os filhos de Atticus, há de se lembrar que mesmo em legítima defesa, ele matou uma pessoa, surgindo então o questionamento moral e legal de “matar um rouxinol”.

Uma lição de Atticus que Scout entendeu completamente no desfecho da trama: “Rouxinóis não fazem nada a não ser fazer música para apreciarmos. Eles não destroem o jardim das pessoas, não fazem ninhos em milharais, eles não fazem nada a não ser cantar de todo o coração para nós. É por isso que é um pecado matar um rouxinol”.

Uma obra-prima da história do cinema e atemporal em todos os sentidos. Aprendemos a dura lição de que precisamos ser e precisamos ter mais pessoas como Atticus Finch no mundo.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

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