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Crítica A Lei da Noite: Ben Affleck estrela um filme esquecível

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A Lei da Noite

A Lei da Noite

Dirigido e roteirizado por Ben Affleck. Baseado no livro homônimo por Dennis Lehane. Elenco: Ben Affleck, Elle Fanning, Brendan Gleeson, Chris Messina, Sienna Miller, Zoe Saldana, Chris Cooper, Robert Glenister, Remo Girone

Por Gabriela Tomasi

O filme conta a história de Joe Coughlin (Affleck), o irlandês apresentado como o filho de um chefe de polícia em Boston. Atormentado pela sua experiência na Primeira Guerra Mundial, o militar retorna à cidade como um “fora da lei” que passa a roubar os bancos locais junto com seus companheiros. Mas estes são tempos perigosos com a presença de máfia e gangsters e o protagonista se encontra no meio de uma rivalidade entre os irlandeses e italianos, os quais visam dominar o comércio de armas, drogas e, principalmente lucrar com a bebida clandestina, tendo em vista a Lei Seca em vigor.

Com um namoro escondido engatado com a mulher do chefe da máfia irlandesa Albert White (Glenister), Emma Gould (Miller), um evento inesperado o força a se juntar com o lado italiano, comandado por Maso Pescatore (Girone) como retaliação. Ele então se muda para Flórida para controlar o mercado de rum que vem de Cuba, onde lá conhece sua futura esposa Graciela (Saldana).

O longa, adaptado do livro homônimo de Dennis Lehane, tem seus momentos, em sua maioria pela competência do diretor de fotografia Robert Richardson, o qual já trabalhou em outros projetos com nomes renomados como Martin Scorese e Quentin Tarantino. Dessa forma, criam-se momentos icônicos com a paleta monocromática escura e às vezes torrosa das cenas em Boston, as ruas molhadas que dão um efeito maravilhoso ao inverno e, inclusive os personagens posicionados em contraluz criando um efeito incrível do caráter sombrio dos mafiosos. Durante o período em que o protagonista se encontra na cidade é notável as influências noirs dos anos 30-40, assim como aqueles filmes de máfia modernos como O Poderoso Chefão e Os Bons Companheiros. Em Flórida, por sua vez, a paleta muda para os tons pastéis levemente mais quentes com palmeiras espalhadas pelo cenário, corroborando pelo ambiente caloroso e o estado emocional de Joe em sua nova vida.

A Lei da Noite

A Lei da Noite

Da mesma maneira que os cenários e as cores dão vida ao período nostálgico de Hollywood no mais perfeito estilo Warner Bros., A Lei da Noite ainda consegue nos presentear com alguns momentos de bom entretenimento de ação, em particular, as cenas de luta, perseguições de carros, tiroteios e ataques a clubes e bares.

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Porém, fato é que a trama almejava algo muito maior para fazer uma crítica à sociedade, em detrimento de uma abordagem mais intimista. O longa, portanto, trata de inúmeros problemas sociais ao mesmo tempo, sem lidar ou enfrentar nenhuma delas, como por exemplo, a corrupção, o vício de jogos e bebida da Lei Seca, a religião e a fé cristã como potencial fonte manipuladora de aprovação de leis, o preconceito racial e social, os imigrantes que ajudaram crescer a economia dos país, e, ainda, o oportunismo que corroem as virtudes da sociedade americana. Os temas são tantos que ressaltam o ritmo extremamente irregular da narrativa, optando ora por períodos de projeção mais acelerados e assuntos batidos, como a do Klu Klux Klan, e ora por outros mais lentos como a religião incorporada na personagem Loretta (Fanning), e, por fim, conta com uma não resolvida construção de um cassino.

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O ator que assina a direção, o roteiro e a produção junto com Leonardo DiCaprio empresta igualmente sua voz à narração em off em primeira pessoa, do início ao fim da narrativa, em uma referência a Os Bons Companheiros. Mas além de construir um tom expositivo e explanatório completamente desnecessário, não há qualquer humor ou inteligência nas frases de efeito que o protagonista enuncia que pudesse fazer jus à homenagem.

Essa ineficácia se intensifica justamente pela forma como Joe é interpretado pelo ator: uma atuação rasa para um personagem sem vida, desinteressante e genérico. Não temos aqui um senso de evolução dele durante a narrativa, ou qualquer fator que o torne complexo, mantendo aqui apenas uma postura de “gangster bonzinho, inocente e injustiçado”. Affleck, dessa forma, acaba desconstituindo o próprio personagem ao abandonar aquela “retaliação” inicial que o motivou em primeiro lugar a se juntar a Pescatore, para lidar com inconvenientes “conflitos internos” entre o que é certo e errado, sem sentido algum. Neste aspecto, sua esposa Graciela é um desperdício de talento da atriz em manter a imagem da “bela recatada e do lar” que passa a trama inteira se preocupando se seu amado irá mudar sua personalidade por conta do o que ele faz como profissão. Isso sem mencionar também os vilões desinteressantes e superficiais e uma tentativa desastrosa de imitação do personagem de Joe Pesci em Os Bons Companheiros, que aqui vem sem qualquer carisma ou profundidade.

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Affleck demonstra claramente querer ser comparado com grandes de diretores para consolidar seu nome no gênero do crime. Mas o acúmulo de tarefas e um filme pretensioso acabam prejudicando sua própria ambição.

O resultado, portanto, é que A Lei da Noite é um filme tão esquecível que não chega nem perto do épico gangster que ele sonhava tanto em ser.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema



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