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Do Caos [Calmo] Generalizado ao Aumento da [Des]Antenção à Cultura

Patrimônio e Sociedade; memória social, identidade cultural, patrimônios, coleções e muito mais

Do Caos [Calmo] Generalizado ao Aumento da [Des]Antenção à Cultura

Já há bastante que a cultura costuma ser tida como um gasto secundário. Não para os profissionais ou estudantes da área e/ou interessados, evidentemente, entretanto, uma rápida olhada nos gastos públicos nos mostra que a pasta da cultura, quando existe individualizada, é a que menos recebe recursos diretos da administração. Em instituições privadas, quando decidem atuar na área cultural, fica-se à mercê da boa vontade do gestor de cada tempo.

Comecemos pelas entidades públicas. A ocupação de cargos importantes para a vida cultural de uma cidade, de um estado ou de um país, numa visão de ocupação de poder executivo, no caso secretários e ministros, se dá no antigo e conhecido formato da indicação aos cargos de comissão. Aqui já encontramos inúmeras questões nevrálgicas como a dúvida de sempre: “quais são os critérios usados para escolher estas pessoas?” Pelo que sabemos da história da república brasileira, estes cargos costumam ser ocupados por conhecidos, amigos, financiadores da campanha ou pessoas a quem o eleito deva favores políticos. Existem, claro, exceções, momentos nos quais os cargos são ocupados por pessoas que se chama popularmente de “realmente da área”, mas como disse, são exceções. Nesse quadro é fácil encontrarmos em cidades, por exemplo, “políticos de carreira”, em geral ex-vereadores não reeleitos mas apoiadores do prefeito eleito, ocupando cargos de extrema importância para a produção cultural, e não só, mas também em pastas também fundamentais como transporte, saúde, educação, etc.

Estes ocupantes têm cargos a preencher, como diretores, assessores, coordenadores de áreas, e muitas vezes também diretores de museus, galerias e outras entidades do gênero. Portanto, mais uma vez estamos à mercê dos compadrios públicos para a gestão direta da cultura. Este segundo nível da ocupação seletiva de cargos costuma acontecer da mesma maneira que a primeira, com cargos sendo oferecidos a familiares, amigos, etc. e tal. Também, nestes casso há exceções. Eu mesmo, nas ocupações de cargos pós-eleições municipais, presenciei momento gloriosos quando o secretário de cultura de uma determinada cidade é um historiador, e pôs nas coordenações de áreas da secretaria exemplos como historiador para patrimônio cultural, bibliotecária para literatura, professor de teatro para o teatro, museóloga para gestão de museu, entre outros verdadeiros milagres.

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Ocupados os cargos, começam os trabalhos. Novamente, a preocupação é “o projeto ‘x’ vai continuar?”, “ah, depende do secretário e da vontade dele!”. Mais uma vez a boa vontade de cada gestor garante um sim ou um não para a continuidade de um projeto ou para o planejamento de outro. Existem alguns estudos que apontam motivos psicológicos para esse tipo de decisão. Coisas que envolvem orgulho, vaidade, mudança de gestão, mostrar que sabe fazer melhor, e demais motivos políticos. E por fim, para além da competência dos ocupantes de cargos e da boa vontade do gestor, temos o repasse de recursos. Muitas vezes, tanto para o poder público (na prática e não no discurso, óbvio) quanto para boa parte da sociedade civil (ignorante no sentido de não conhecer as atividades culturais e a importância dela), gastar com cultura não é útil, necessário ou interessante. Para os primeiros, grandes obras em rodovias, grandes obras em postos de saúde, grandes reformas em escolas são mais visíveis e marcam mais o nome da atual gestão que pequenos, mas necessários, reparos na estrutura de um patrimônio tombado, por exemplo. Talvez porque nas escolas, onde mais ou menos cento e cinquenta crianças estudam por turno, sendo então trezentas por dia, somada o número de pelo menos um responsável para levar e buscar essa criança, totalizando seiscentas pessoas (imageticamente), a placa dizendo, em letras legíveis a três quadras de distância, “REFORMA PROMOVIDA PELA GESTÃO DO PREFEITO FULANO DE TAL” tenha mais visibilidade que numa casa histórica. Portanto a questão, neste exemplo, pode ser o público esperado. Falaremos disso ainda neste texto.

[Des]Antenção à Cultura

[Des]Antenção à Cultura

Partindo para nosso segundo exemplo, o poder provado. Uma empresa, que em nosso exemplo será uma grande industrial de alimentos, pode passar por dez anos de uma administração preocupada em manter a história e a memória da empresa e das pessoas que a compõem, elencando vário motivos como a manutenção da reputação da marca, a importância dela na história da alimentação brasileira, na história econômica, entre outros, e com isso formar um acervo histórico institucional e uma equipe para trabalhar com tais questões. Mas, assim como existem gestões preocupadas com a cultura produzida na empresa, existe as que não o são, e de uma hora para outra o valor simbólico agregado ao trabalho pode ser modificado, pela simples, de novo, boa vontade de quem gere.

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Hoje temos ainda um agravante ainda maior: a crise econômica. Para as empresas privadas, cortar gastos é essencial. Seja em pessoal, seja em pastas. Nossa empresa exemplo, uma indústria alimentícia, deverá reduzir gastos com a produção sem diminuí-la, usando embalagens mais baratas; reduzindo o número de funcionários e seus benefícios; distribuindo a produção de forma mais rápida e barata, comprometendo às vezes o transporte de qualidade; entre outros modos, inclusive acabar com departamentos culturais que, numa empresa capitalista, não tem importância imediata. Já para os poderes públicos, investir em saúde, educação e segurança pública é melhor, porque são bases da sociedade, e principalmente porque a maioria das pessoas querem estes pontos com pleno funcionamento, relegando a cultura a um patamar secundário dentro da própria vida social, não só da administração pública.

Outro exemplo recente que posso dar é o caso de um prefeito que recém assumiu o cargo e cancelou um evento cultural tradicional da cidade, que atraiu durante 34 anos pessoas do país inteiro, e até de fora dele, alegando que não tinha verbas para tal e que o que tinha sido “previsto” iria para a saúde (a verba prevista estava próxima de um milhão e setecentos mil reais). Em sua rede social, após publicar a decisão, uma massa esmagadora dos comentários apoiou o prefeito, usando inclusive frases como “[…] festas e outros ‘eventos’ têm de ser 100% privados, não que cultura e estética não sejam importantes, mas vai explicar pra uma criança largada sem creche […] que a grana que podia ajudá-la foi para folguedos […]”; “saúde, educação e assistência social têm de ter atenção especial de qualquer gestor público”; “[…], pode-se fazer cultura de forma mais barata. A prioridade é pagar as contas!”. (Houve comentários analisando mais profundamente o numerário público previsto e afins, que foram contra a decisão, mas aqui estou falando dos cidadãos que subjugam a cultura. Noutro momento podemos falar dos que a elevam).

Então, vemos em situações assim, que acontecem todos os dias em várias cidades do país, o povo colocando a cultura como menos importante que outras necessidades sociais. Mas, acredito, que o que realmente ocorre é que pessoas desesperadas (que estão sem renda, sem emprego, com programas sociais (para além do estigma do assistencialismo) em baixa, preocupadas com saúde, educação e segurança dos filhos) acabam, em muitos casos, sendo trabalhadores ideais, que aceitam qualquer trabalho, por qualquer salário, independente das condições, tornando-se cidadãos desorientados e preocupados com pagar remédios e aluguel, e não em cultura, assistência a refugiados, minorias e etc., porque entendem que os problemas são agora! e que as soluções também devem ser.

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E a culpa disso tudo? É do desinteresse individual? Claro que é, assim como é do governo que não forma cidadãos, com educação e cultura de qualidade, e sim pagadores de impostos; é do capitalista que quer lucro e não qualidade e formação cidadã efetiva para o funcionário; é do acesso caro a boas condições de educação e cultura; é da falta de educação patrimonial e educação cultural na educação básica; é dos ativistas que tentam impor ideias “goela abaixo” ao invés de tentarem propor uma identificação coletiva com os ideais; é da segregação social em diversos níveis; é da necessidade de um pai ou uma mãe trabalharem em dois lugares para poder meramente sustentar os filhos; filhos estes que têm uma formação medíocre porque a escola não tem estrutura nem profissional valorizado; profissional este que estuda muito, recebe pouco, faz greve e é chamado de vagabundo, além de também trabalhar em duas ou três escolas para manter a família; etc. etc. etc.

A gente cansa só de pensar, mas querer uma solução, um novo messias, todo mundo quer, mas se indispor com “superiores” (sociais, políticos ou empresariais) e lutar diretamente por melhorias e justiça, aí deixa “pra quem tem tempo”, que depois de fazê-lo vai ser o “vagabundo” da vez. A verdade é que a culpa de a sociedade estar neste caos [calmo] generalizado é da sociedade, e no conforto de cada realidade e existência medíocre queremos mais é que alguém nos salve, MAS QUE NÃO SEJA EU!

Titulado em nível de graduação em Conservação e Restauro de Bens Culturais, graduado em História, especialista em Gestão, Preservação e Valorização de Patrimônios e Acervos e em Estudos em Memória, e mestre em Patrimônios, Acervos e Memória. Atualmente é Historiador e Conservador-Restaurador do Círculo de Estudos Bandeirantes, em Curitiba, entidade cultural agregada à PUCPR onde também ministra aulas e oficinas periódicas para graduandos em História

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