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Crítica Kong: A Ilha da Caveira – Entretenimento refinado

Kong A Ilha da Caveira

Kong A Ilha da Caveira

Direção por Jordan Vogt-Roberts. Roteiro por Max Borenstein, John Gatins, Dan Gilroy, Derek Connolly. Baseado em King Kong, por Merian C. Cooper e Edgar Wallace. Elenco: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, Jason Mitchell, Corey Hawkins, Toby Kebbell, Tom Wilkinson, Thomas Mann, Terry Notary, John Goodman, John C. Reilly, Jing Tian

Por Gabriella Tomasi

Um dos maiores monstros da história do cinema, King Kong o rei gorila ganhou sua primeira versão em 1933 em stop-motion e contava com Fay Wray e Robert Amstrong no elenco. Exatos 84 anos depois e depois de tantas outras versões, eis que surge mais uma para as telas do cinema brasileiro, e é uma das estréias mais aguardadas do mês.

O longa inicia em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, quando dois pilotos militares – um japonês e o americano Marlow (Reilly) – caem de paraquedas em uma ilha do Pacífico Sul após abandonarem seus aviões. A briga de gato-rato então neste lugar exótico é interrompida por King Kong – uma criatura muito mais forte, ameaçadora e agora gigantesca. Na sequencia, em um flashfoward, somos transportados para o ano de 1973. Chega então ao Senado em Washington Bill Randa (Goodman) e seu parceiro Brooks (Hawkins) para tentar financiar uma expedição com o exército militar até a Ilha da Caveira, uma ilha supostamente inabitada para explorar e mapear.  Por sua vez, a ideia de conquistar um novo território animou o estado de espírito do Tenente Packard (Jackson) que, amargurado com a derrota da guerra do Vietnã, aceita prontamente a missão. Juntam-se a eles alguns soldados ansiosos para ir para casa e, ainda, a fotógrafa antiguerra Mason Weaver (Larson) e o experiente capitão James Conrad (Hiddleston).

Esta é uma daquelas obras riquíssimas que honram os clássicos a que faz referência. Em um contexto pós-Vietnã, Jordan Vogt-Roberts aproveita para recriar habilidosamente o ambiente de Apocalypse Now com inúmeras referências como a cena do aparelho de rádio dentro do avião ao som de Paranoid de Black Sabbath (no lugar de A Cavalgada das Valquírias); a cena de helicópteros sobrevoando a ilha; a poeira amarela (e depois verde) do “napalm”; as explosões magníficas que inclusive aqui refletem o espelho da lente de óculos de sol de um dos militares. A homenagem é ainda mais patente com a maravilhosa fotografia que abusa dos tons vermelhos, amarelos e alaranjados para tanto enaltecer a violência e a ameaça de elementos como o fogo, quanto para engrandecer a imagem de Kong em contra-luz do por do sol ou os seus olhos aterrorizantes. Da mesma forma, o ambiente verde militar e da destruição e os capacetes desgastados dos soldados lembram Nascido para Matar de Kubrick; os pássaros (parecidos à versão de 1933) que sobrevoam o céu fazem jus a Pássaros de Hitchcock, e ainda temos uma citação de Moby Dick por Packard.

Kong A Ilha da Caveira

Kong A Ilha da Caveira

Porém, o que realmente se destaca é a utilização competente do CGI para recriação de ambientes e do próprio Kong que aqui assume proporções absurdas. Se nos primeiros segundos de projeção o cenário não se mostra tão natural, gradualmente vemos um melhor aproveitamento deste recurso que se transforma simplesmente em um deleite visual tanto para a contemplação da natureza quanto para os momentos de ação e agressividade dos confrontos. Dessa forma, o emprego do 3D foi extremamente pertinente, conferindo uma sensação de imensidão à profundidade de campo, como se pessoalmente aquela ilha fosse uma terra infinita em comparação à sua limitada forma nas fotos de satélite. Além disto, ressaltou a pequenez dos personagens perante Kong, cujo contato, principalmente da personagem Weaver, faz entender como nós, seres humanos, somos ínfimos perante todo o mundo e como há coisas que não podemos ou nunca conseguiremos dominar. Note como Weaver tem um senso mais apurado que os demais, somente por onde seu olhar ou o olhar da sua lente que a acompanha (captada em lindos planos em preto e branco por meio de freeze frames). É neste contexto que o tenente Packard cria um conflito: a história da ambição humana e o desejo conquistador que veio desde os tempos da colonização de expansão/dominação territorial e como o ser humano é visto como o mais evoluído e superior de todos. Desde os planos iniciais reforça-se a expressiva ideia de que a história se repete ao executar uma fusão maravilhosa do plano em grão mais grosso da película, remetendo à textura do 16mm para a alta resolução do 70mm. Aliás, tampouco é à toa que os personagens entram em contato com uma população nativa.

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Mas ainda que haja também outras discussões políticas e morais na mesma linha, como o papel do jornalismo ou do militar, estas questões acabaram não sendo muito aprofundadas para deixar mais espaço para a ação. Neste aspecto, a criatividade do diretor e gama de recursos visuais que ele utiliza são inúmeras: travellings circulares que formam duelos; os planos aéreos que mapeiam a ilha; os planos-detalhes de olhos que se confrontam ou mãos que, quando unidas, indicam companheirismo; os loops com a câmera; as fusões que foram inteligentemente integradas à montagem como, por exemplo, as auroras boreais que passam de um plano para outro; a utilização da linguagem de vídeo-game com a arma em primeira pessoa e outras rimas visuais preciosas de pessoas sendo pisoteadas brutalmente ou sendo arremessadas por braços ou rabos de monstros.

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O que prejudica, no entanto, é que em um determinado momento a história assume a mesma linha de Star Trek Sem Fronteiras quando os personagens em Kong se perdem na ilha e, em pontos diferentes da ilha, precisam se encontrar novamente para buscar resgate. Infelizmente, esse método apenas serve para inflar a narrativa sem necessidade, fazendo com que se perca o foco da historia e até diminuir o ritmo da narrativa. E se por um lado Vogt-Robert sabe conduzir cenas boas de ação, ele falha ao mesmo tempo dar conta de todos os personagens em sua volta, o que deixa lacunas de continuidade como a facilidade de Weaver em escalar uma montanha, ondas gigantescas que parecem não afetar personagens há poucos metros do local entre outros detalhes que podem passar despercebidos de tão sutis, mas que pode incomodar o espectador mais atento.

Kong A Ilha da Caveira

Kong A Ilha da Caveira

Em relação aos personagens, o maior mérito em Kong é não tornar Weaver uma personagem sensual com algum envolvimento amoroso. Ao invés disto, é revelador como os roteiristas tiveram o cuidado de construí-la uma pessoa com opinião, forte, ativa, heroica e que mantém os personagens masculinos como amigos ou parceiros. Em contrapartida, se todos os demais possuem camadas e muitos deles são individualizados apropriadamente, não podemos dizer o mesmo da personagem de Jing Tian, a qual infelizmente possuiu um máximo de 5 falas durante 2 horas de filme, e cuja existência parece apenas cumprir a meta de inclusão do estúdio.

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Em síntese, Kong: A Ilha da Caveira é um filme de monstro com muita ação e muita aventura. É o tipo de entretenimento refinado que ainda permite o espectador a sair da sala do cinema refletindo sobre assuntos importantes.

Observação: fiquem até o final da sessão! Existem cenas pós-créditos que indicam uma continuação.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

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