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Crítica Fragmentado: a volta por cima de M. Night Shyamalan?

Fragmentado

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Direção e roteiro por M. Night Shyamalan. Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula, Izzie Coffey, Brad William Henke, Sebastian Arcelus e M. Night Shyamalan

Por Gabriella Tomasi

Night Shyamalan é um promissor cineasta da atualidade, mundialmente conhecido por seus filmes de suspense. Desde 1992 já produziu filmes de qualidade e foi responsável por obras famosas, tais como Sinais, A Vila, A Dama na Água, A Visita e, ainda, por O Sexto Sentido, pelo qual recebeu duas indicações ao Óscar de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original.

Em Fragmentado, Anya Taylor-Joy (A Bruxa) interpreta maravilhosamente a personagem Casey Cooke, uma garota que se encontra em uma festa de aniversário “por pena” já que é considerada a esquisita da turma. Já nos primeiros planos percebemos o seu distanciamento emocional com o resto das pessoas em sua volta. Lentamente, ao aceitar carona junto com duas outras colegas: Claire (Richardson) e Marcia (Sula), ela nota a presença de um estranho no carro e, em seguida, todas são sequestradas por Dennis (McAvoy), uma das personalidades que habita dentro da mente de Kevin, o qual sofre de um distúrbio sério psiquiátrico ao manejar mais 22 personalidades diferentes. Em seu cativeiro, as garotas tentam encontrar um meio de escapar do lugar.

É fato que, pela sua experiência, o cineasta compreende a fórmula para uma boa narrativa de suspense que Hitchcock inclusive desde muito tempo já ensinava e defendia: mesmo que todas as informações necessárias estejam ao nosso alcance acerca da situação dos personagens, nossa expectativa sobre o que ocorrerá em seguida sempre é testada, utilizando, para tanto, o elastecimento das cenas e adiando ao máximo o ato narrativo subseqüente.  É neste aspecto que Fragmentado funciona, e muito bem.

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Essencialmente, este é um thriller psicológico que estuda com grande atenção três personalidades de Kevin que estão em comando, e o possível surgimento de uma 24ª. Neste contexto, James McAvoy interpreta com perfeição as diferentes facetas dos personagens, de modo quase caricato pela sua vivacidade e excentricidade, mas que é eficaz para que possamos distinguir quem é quem dentro de sua cabeça. Neste contexto, somos introduzidos à psiquiatra Dra. Karen Fletcher (Buckley), a qual tenta dar conta de todas as identidades, trazendo à tona idéias interessantíssimas de como elas disputam entre si poder e controle sobre Kevin e como algumas lutam para a “vir à luz”. Aqui, o vilão é tratado literalmente como uma bomba prestes a explodir e, ciente disso, gradualmente testemunhamos o desenvolvimento da narrativa que se dirige para a revelação de seus planos e de que maneira envolvem as três moças.

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Assinando também o roteiro, Shyamalan utiliza, para tal efeito, a direção que complementa pistas narrativas durante todo o longa. Notem, por exemplo, o fato de que Claire e Marcia sempre se mantém juntas, indo em direção oposta a de Casey quando recuam na presença de Dennis, e como, em um determinando momento, elas são separadas por um cano no quarto, onde são mantidas, quando discutem. Não é à toa, inclusive, que o agressor emprega certa violência psicológica – devido à sua obsessão por limpeza – ao exigir que as moças retirem alguns itens de roupas que estão sujos, apenas para que possamos perceber como Casey usa mais camadas que as demais, com suas blusas e jaquetas e casacos que carrega, cujo detalhe também possui valor narrativo para o desfecho, assim como é extremamente importante para entender a sua personalidade retraída. Além disso, contamos com pequenos objetos e elementos valiosos, como um walkie-talkie; a presença de uma vasta grama e ambientes naturais; a ausência de janelas reais e a presença de tubos, grades e jaulas que são indícios do ambiente em que estão inseridas e que por mais inofensivo ele possa​ ser, para as pessoas que estão ali é um verdadeiro inferno (o que é ressaltado principalmente pelos ruídos de animais selvagens).

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Neste sentido, Shyamalan evoca o thriller abusando dos espaços restritos para explorá-lo e, dessa forma, transmitir claustrofobia e a ausência de orientação das meninas no local, algo que foi feito de maneira similar em O Homem Nas Trevas: um labirinto que elas precisam encontrar uma maneira de sobreviver e escapar, em um senso de geografia perfeito. Ademais, o diretor emprega planos mais fechados e planos e contra-planos fixos e centralizados que simbolizam a oposição e o enfrentamento dos personagens com o vilão; a câmera subjetiva com adição de planos desfocados é esporadicamente aproveitada para transparecer confusões mentais nos personagens e; ainda, o fade-in/fade-out pode ser visto nos momentos de transe e bloqueio mental de Kevin.

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​E ​apesar de​, em geral, ser​ uma história instigante e impactante, o longa infelizmente ainda depende de algumas coincidências e alguns clichês para dar andamento e direcionar a sua narrativa até o seu desfecho. Objetos e mensagens que aparecem à diFragmentadoposição de Casey parecem forçadas e algumas escolhas preguiçosas do roteiro também prejudicam o final da trama ao não dar mais atenção e cuidado a um tema delicado e complicado que é o abuso sexual e psicológico.

Mas com referências incríveis ao famoso Hulk, Shyamalan cria brilhantemente seu próprio universo de “monstros” ao conectar esta obra com outra sua: Corpo Fechado, quando o seqüestro é relacionado com o Sr. Vidro. Com esta manobra, o diretor indica possíveis continuações.

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Fragmentado é, portanto, um literal fragmento d​e algo maior​ ​que talvez esteja por vir.

Estaremos aguardando ansiosamente para os próximos ​projetos.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

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