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Crítica T2: Trainspotting – a sequência de uma obra-prima

Crítica T2: Trainspotting

Crítica T2: Trainspotting

Dirigido por Danny Boyle. Roteirizados por John Hodge. Baseado no livro homônimo por Irvine Welsh.

Elenco: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Anjela Nedyalkova, Shirley Henderson, James Cosmo, Kelly Macdonald 

Por Gabriella Tomasi

Trainspotting originalmente foi um filme dirigido, roteirizado e protagonizado pela mesma equipe. Uma obra-prima com refinamento técnico e narrativo que, inevitavelmente, se transformou em um cult e é considerado até os dias de hoje o resultado de um trabalho meticuloso, atual e instigante. Baseado no livro homônimo por Irvine Welsh, contou-se a polêmica história dos amigos escoceses Mark Renton (McGregor), Spud (Bremmer), Sick Boy (Miller), e Begbie (Carlyle) que são viciados em heroína e tentam de alguma forma controlar a dependência química. A pergunta que não quer calar é: será que realmente vale a pena fazer uma sequencia e revisitar um clássico do cinema após tantos anos? A resposta é: sim e não.

Após 20 anos desde que Mark Renton abandonou e roubou de seus amigos a quantia de 16.000,00 libras que eles pretendiam dividir entre si, nesta nova sequencia o personagem, já na fase dos quarenta anos de idade, é introduzido da mesma forma como o filme acabou: correndo. Porém, não está fugindo, mas sim se exercitando na esteira de uma academia, até cair do aparelho e ser socorrido pelos demais. De certa forma, este cenário funciona como um elemento narrativo para apresentar a trama que presenciaremos: são novas imagens que relembram um passado distante e a luta constante de Mark Renton para superá-lo.

Em seguida, vemos o que aconteceu com todos eles: Spud é ainda o único que não consegue largar completamente a heroína após inúmeras tentativas; Sick Boy transfere seu vício para a cocaína e ganha seu dinheiro extra chantageando homens de família com a ajuda de sua nova namorada Veronika (Nedyalkova), já que não consegue lucrar com o bar que lhe foi deixado de herança e; Begbie passou todo esse tempo na prisão federal que, sem perspectiva de ser solto tão cedo, acaba fugindo do local. Mark então chega ao aeroporto de Edimburgo pela primeira vez após estes anos para revisitar seus amigos. Declarando inicialmente ter superado seu vício e estar empregado e casado em Amsterdam, descobrimos que não é completamente aleatória sua decisão de retornar. Em contrapartida, é óbvio que a presença do protagonista não é tão bem recepcionada e ainda há grande tensão entre os personagens, principalmente pelo temperamento agressivo e psicopata de Begbie, o qual planeja vingança contra o ex-amigo.

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É certo que, como toda continuação de filmes, T2 depende muito do primeiro filme para ser entendido e apreciado. Conforme trataremos adiante, o novo longa de Boyle é completamente nostálgico, o que acaba perdendo pontos quanto à sua originalidade ao repetir muitas fórmulas feitas na história de seu original. Porém, ao mesmo tempo, o trabalho do roteiro aproveita este mesmo sentimento para explorá-lo metaforicamente. Ou seja, se analisarmos a fundo, é como se a continuação de Trainspotting trouxesse a nostalgia da mesma maneira que as próprias drogas representam no passado dos personagens.

Crítica T2: Trainspotting

Crítica T2: Trainspotting

Como a primeira sequencia de 1996 se prestou para reverenciar personagens que acreditavam ser figuras superiores às pessoas ordinárias e à sociedade hipócrita, T2 demonstra como o envelhecimento e, portanto, o avanço cronológico da idade não significa que eles se tornaram mais maduros ou mais conscientes de suas atitudes no passado. Ao contrário, mesmo se agora os amigos se referem pelos seus nomes (Sick Boy é Simon e Begbie é Franco) ou se então estão um pouco melhor vestidos, a narrativa ainda trabalha gradualmente para que possamos perceber não somente o quanto não evoluíram individualmente, mas como se mantêm emocionalmente presos àquela época de tal forma a recaírem aos velhos hábitos. Perceba como, de início, Mark custa a colocar um vinil para tocar em seu velho toca-discos e depois como essa situação se resolve ao final, ou então quando Spud luta para manter a memória viva escrevendo sobre a história dele e dos amigos como uma forma de fugir da própria dependência da heroína – e neste quesito, Veronika irá interpretar um importante papel na narrativa (“Primeiro, há uma oportunidade; depois, uma traição”).

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Neste sentido, não é à toa que a velha trilha sonora retorna em versões diferentes, como as músicas de Iggy Pop e Lou Reed quando retrata, principalmente, a infância e adolescência de Simon e Mark.  Outras auto-referências aqui são executadas com muito carinho, como o momento em que Mark vê uma privada suja e sente nojo; quando ele se senta com o pai na mesa de jantar com uma das cadeiras vazias; a festa noturna moderna, entre outros elementos, cujos planos também são alternados ou sobrepostos pela montagem com o intuito de nos lembrar a primeira sequencia. Além disto, há lindas rimas visuais, como o protagonista que sorri através do vidro de um carro para o motorista ao quase ser atropelado; a imagem do trem percorrendo os trilhos; e a nova versão de “Escolha a Vida” – o famoso monólogo – que aqui é adaptado com uma intensidade expressiva pelo ator e que simplesmente é perfeita ao novo contexto (“Escolha Twitter, Instagram, Facebook. Escolha atualizar o seu perfil”). Boyle vai mais fundo ao resgatar os clássicos, já que sabe muito bem que Trainspotting faz parte dessa lista, ao fazer uma paródia de O Touro Indomável com Spud Indomável e a recriação da icônica cena de O Iluminado feito por Jack Nicholson.

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Com o mesmo humor e a mesma ironia, Boyle também mantém a mesma qualidade técnica ao empregar a câmera em movimentos angulares, ângulos holandeses e freeze frames. A fotografia, por sua vez, abusa da iluminação azulada e esverdeada tanto pela nostalgia, quanto pela atmosfera tóxica da relação perturbada entre os personagens. Destaque pelos efeitos maravilhosos de iluminação com flashes e sombras que simulam um trem passando enquanto testemunhamos o clímax da trama.

Crítica T2: Trainspotting

Crítica T2: Trainspotting

Mesmo não tendo a mesma força ou o mesmo impacto de Trainspotting de 1996, T2 possui muito mais qualidades do que defeitos e traz um olhar novo em sua homenagem sobre as seqüelas de ser um (ex) junkie na vida adulta.

Assim, mesmo que a necessidade de sua existência possa ser eventualmente questionada, o novo longa cumpre bem sua proposta e é inegavelmente muito bem feito.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

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