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Crítica: A Morte de Luis XIV, de Albert Serra

A Morte de Luis XIV

A Morte de Luis XIV

“O que compartilhamos no filme de Albert Serra é a experiência mesmo da imobilidade a se impor gradativa e irremediável a um corpo”

Por Adolfo Gomes

Já entramos em outros quartos à espreita do fim, mas nunca como em “A Morte de Luis XIV” (La Mort de Louis XIV, ESP/POR/FRA, 2016). O que compartilhamos no filme de Albert Serra é a experiência mesmo da imobilidade a se impor gradativa e irremediável a um corpo, sem qualquer traço de morbidez ou voyeurismo.

Não se trata apenas de atravessar, quase fisiologicamente, o derradeiro estágio que nos é comum. Ao contrário. Diante dessa aparente equalização terminal, o que presenciamos está longe de ser um movimento de “humanização”, pela dor e decadência, da figura de um soberano. Sua força e excepcionalidade emanam daí: da maneira como Luis XIV impõe (até) à morte a cadência e o respeito aos ritos que, também, definem a sua posição e história.

Neste sentido, convém acrescentar que lhe basta a presença física, o corpo-território de Jean-Pierre Léaud, para situar sua importância e grandeza – não sabemos, diegeticamente, nada sobre o Rei (suas realizações, o contexto histórico e “obra”), além do que nos fornece a mirada, respeitosa e afetiva, do séquito palaciano e dos médicos, testemunhas do seu calvário.

Serra, ainda do ponto de vista formal, constrói com rigor e espantosa austeridade um espaço limítrofe entre o distanciamento e a compaixão, criando um umbral poético a um só tempo materialista e epifânico. Não se vislumbra, aqui, qualquer transcendência ou glória na passagem para o pós-vida, a exceção dos espasmos autômatos (seriam esses os únicos vestígios visíveis da alma?) a se manifestar no rosto de Léaud ou a breve irrupção da música (Mozart) antes da paralisação total.

Bem, de fato “A Morte de Luis XIV”, é, em vários aspectos, o avanço dessa paralisia, da nossa impotência perante a natureza. Muito diferente de exercícios recentes e algo artificiais (“Maestá” e “O Moinho e a Cruz”), nos quais a utilização dos “tableaux vivants” soava arbitrária e maneirista; no filme de Serra a consolidação de uma imagem pictórica, imóvel, é a representação precisa do que resta aos grandes homens, o abrigo da arte, a vida imobilizada, encerrada nas dimensões de uma pintura ou de uma obra cinematográfica. É tudo o que teremos. Como diz o médico ao aceitar o seu fracasso: “faremos melhor da próxima vez”.

Adolfo Gomes é cineclubista e crítico de cinema filiado à Abraccine. Curador de mostras e retrospectivas, entre as quais “Nicholas Philibert, a emoção do real”, “Bresson, olhos para o impossível” e “O Mito de Dom Sebastião no Cinema”. Coordenou as três edições do prêmio de estímulo a jovens críticos “Walter da Silveira”, promovido pela Diretoria de Audiovisual, da Fundação Cultural da Bahia.


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