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Crítica: vale a pena assistir a comédia Gostosas, Lindas e Sexies?

Gostosas, Lindas e Sexies

Gostosas, Lindas e Sexies

Dirigido por Ernani Nunes. Roteirizado por Vinícius Marquez. Elenco: Cacau Protásio, Lyv Ziese e Mariana Xavier

Por Gabriella Tomasi

Gostosas, Lindas e Sexies é um filme de comédia que acompanha momentos alegres e tristes na vida de quatro inseparáveis amigas: Beatriz (Figueiredo), Tânia (Ziese), Ivone (Protásio) e Marilu (Xavier) que vivem na capital do Rio de Janeiro. Em uma inspiração clara à série de televisão e também aos filmes de Sex and The City, elas incorporam nesta versão brasileira mulheres de manequim plus size que esbanjam segurança, riqueza e independência. Cheio de boas intenções e com uma grande, inspiradora e importante mensagem acerca da beleza exterior e do empoderamento feminino, o longa do diretor estreante Ernani Nunes executa um trabalho, cujo resultado é limitado a muito mais que o filme poderia ser do que ele efetivamente é.

De fato o filme possui uma consciência e, portanto, uma missão de abraçar todas as formas de beleza física e, assim, demonstrar como os padrões estéticos estabelecidos por convenção pela sociedade são pífios. Todavia, essa abordagem seria muito mais efetiva e sincera se as quatro protagonistas não precisassem reafirmarem o tempo todo, exaustiva e repetidamente, o fato de que são “gordinhas”, como se tivessem algo a provar para o espectador. A situação não ajuda ou, em outras palavras, não a torna mais natural, quando o preconceito em relação à  forma do corpo é transmitido por personagens extremamente caricatos que emitem frases de efeito como, por exemplo, duas colegas de trabalho de Beatriz, as quais são as reencarnações das irmãs gêmeas malvadas e invejosas de Cinderela (e isso não é um elogio). Na realidade, a constante necessidade de tirar risos do espectador com o absurdo traz outros personagens igualmente pouco próximos à realidade como uma histérica cliente no salão de Ivone ou a chefe bastante anti-ética e nada profissional (e também histérica) de Beatriz.

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O roteiro ainda se revela cada vez mais problemático devido à uma decupagem irregular de cenas que criam situações pouco ou nada críveis. Pessoas que aparecem de repente, no primeiro ou no segundo ato, somente reaparecem no terceiro ato ou jamais retornam como, por exemplo, os filhos de Ivone e o marido de Tânia. Ainda, deixa lacunas narrativas essenciais à trama como, por exemplo, a desconfiança abrupta do namorado de Beatriz, Daniel (Bankoff), acerca de uma suposta traição que é abordada por um simples diálogo – momento que nos é revelado pela primeira vez tal situação.

Gostosas, Lindas e Sexies

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Aliás, esses problemas desencadeiam outro, que é a falta de capacidade de desenvolver propriamente a vida, a personalidade, as fraquezas e as virtudes de cada uma do quarteto para nos identificamos com cada obstáculo que enfrentam. Os eventos são tão episódicos que parecem uma novela, pois não conhecemos essencialidades das quatro protagonistas para, desta maneira, acreditar que existe um amor genuíno entre Daniel e Beatriz e nos impactarmos com o desfecho do casal, ou o relacionamento conturbado de Tânia que é brevemente citado e condensado em monólogos expositivos tanto para abordar como sua vida era antes quanto o seu posterior envolvimento com outras pessoas. A trama ainda tenta divertir o espectador, mas ainda assim não consegue ser completamente coerente em sua história, como o fato de Ivone ir convenientemente à Igreja certo dia e posteriormente ter um caso com seu sequestrador, cuja identidade revelada não faz o menor sentido ou; o fato de Ju (Alves) ser uma faxineira que nunca é vista faxinando e embora a reconheçam como a “doméstica que trabalha para as quatro amigas”, ninguém explica porque Tânia tem outra que trabalha em sua casa; ou então o envolvimento irresponsável de Marilu com um garoto do Ensino Médio (ou Ensino Fundamental?).

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Todas estas falhas perdem um pouco da naturalidade e a fluidez que a narrativa deveria ter. Em contrapartida, o longa é muito mais eficiente, quando, por exemplo, as quatro personagens principais engajam em conversas e temas bastante fortes e polêmicos atualmente, mas encarados com tanta normalidade. É louvável que o filme se permita, portanto, desmitificar um pouco o papel da mulher e, ao invés disso, colocar o homem em uma posição que normalmente é ocupada por elas. Alcança-se, por conseguinte, um equilíbrio perfeito: as mulheres podem trair, mas homens também traem; as mulheres podem ter encontros casuais, os homens também o fazem; as mulheres podem viver um romance com dois homens, assim como em muitos filmes preferem-se duas mulheres para um homem.

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Isso só quando alguém pela enésima vez não frisa o fato de serem “gordinhas”.

A direção estreante de Ernani Nunes também prova sua habilidade e consegue captar imagens memoráveis com a câmera. O travelling inicial que projeta uma noite urbana e posteriormente chega ao apartamento de Beatriz, assim como os encontros das amigas nos restaurantes e na piscina são as mais puras referências a Sex and The City. Além disso, o diretor que opta por alguns plano-sequencias que acompanham os personagens pelos cenários e trazem incríveis resultados como o deslocamento do elevador do prédio para dentro do escritório de Beatriz, além dos planos longos e fixos que focam nos debates do quarteto.  Por fim, destaco a linda transição executada do dia para a noite, por meio da utilização da iluminação, a fim de indicar a passagem do tempo quando Marilu entra no seu quarto misterioso.

Gostosas, Lindas e Sexies é um filme que possuía uma ótima ideia em suas mãos, mas que infelizmente não soube conduzi-la de forma eficiente.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

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