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Um diário especial: minha mãe e eu – 2

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Um Diário Especial

Um Diário Especial

Apesar da minha rebeldia, eu acabava ouvindo a mamãe. E realmente, o cara tinha uma Kombi, enquanto os namorados das minhas amigas tinham Aero Willys

Por Helena Prado

Antes de eu conhecer o professor de matemática com o qual me casaria, namorei um carinha que era filho de um dono de um boteco. Seu pai era português das berças e minha mãe vivia me enchendo o saco, dizendo que meu final seria ficar de tamancos, criar bigodes e trabalhar atrás do de um balcão vendendo ovos coloridos e sardinhas fritas, pelo resto da minha vida. E sua mãe era uma grosseirona que passava o dia todo na janela tomando conta da vida de todo mundo.

Isto minha mãe falava porque quis parar de estudar.  Eu ficava puta da vida. Mas quanto mais ela falava, mais eu gostava do carinha. Até porque, ele me apoiou quando papai morreu. Mas foi por pouco tempo.

Apesar da minha rebeldia, eu acabava ouvindo a mamãe. E realmente, o cara tinha uma Kombi, enquanto os namorados das minhas amigas tinham Aero Willys.

Papai não morreu de morte morrida nem matada. Papai suicidou-se. De desgosto. Porque meu irmão mais novo, Márcio, foi atropelado. E, dois meses depois, morreu de encefalite aguda, em consequência do acidente. Mamãe entrou numa depressão das brabas que durou muitos e muitos meses, um horror! Acordava no meio da noite chorando e gritando, lembro-me como se fosse hoje.

Só se acalmava quando chegava tio Braga, o médico da família que papai ia buscar. Mas conseguiu se reerguer.

Papai deu um tiro na cabeça dois anos depois.

Ô período triste, meu Deus!  Sem contar que também vovó Maria, mãe da minha mãe, teve no mesmo período um câncer devastador.

Só sei que no espaço de cinco anos morreram três pessoas da mesma família. Eu enlouqueci. Não sei como minha mãe não. Ao contrário, saiu para trabalhar.

Corta para abril de 2017
Aqui em casa sempre tivemos o hábito de almoçar entre 13h e 14h. Agora, se vacilar, acordo com mamãe almoçando. Ela é minha tatu bolinha. Come sobremesa e toma copos e mais copos de leite. Parece uma bezerra. Começou por causa de uma gastrite e de uma pequena úlcera já fechada. E não parou mais. Desembestou a tomar leite por tudo e por nada.

Ontem à noite, como é o costume, Paola e eu nos comunicamos por WhatsApp. Ela disse que já estava com saudades minhas e da “vova”. E mandou um monte de emojis todos de comida. Eu estava faminta porque passei o dia fazendo uma dieta detox, só com sucos. De repente, caímos na gargalhada. Ela disse: esses emojis são pra “vova”. Respondi: ela que não veja, senão engole meu celular. Rimos demais!!! Coitadinha da mamãe! Ela precisa pensar em outra coisa que não seja comida.

Ontem mamãe dormiu em frente à TV, à tarde. Ela ressonava alto, alto. Fui até ela e a ajeitei na poltrona, com muito carinho para não acordá-la. Eu queria tanto que ela voltasse a ler. Ela adorava. Ou desenhar a nanquim e pincel. Ela desenha divinamente bem.

Seus olhos a impedem de fazer tudo isso. Consta que há muitos anos ela teve um infarto no cerebelo. E como sequela seus olhos ficam piscando e lacrimejando. Assim, seu divertimento é ver TV.

Ela está por dentro das notícias por meu intermédio, e porque assiste (sem dar muita atenção) ao jornal da hora do almoço. De resto, ela diz que não quer mais ver nada triste, ou tomar conhecimento da nossa pornográfica política.

Ela agora adora ver programas bregas, além de todas, rigorosamente todas, as novelas. Eu fico horrorizada.

Como pode uma mulher tão bem formada e informada, que já leu, por exemplo, entre outros milhares de livros bárbaros, “O tempo e o vento”, assistir agora ao “Todo Seu”?

E à Sonia Abrão, então? E, aos domingos, Eliana?

Magdala não merece. Mas é o que ela quer neste momento de sua vida.

E seu desejo sempre será satisfeito. Porque ela quer. E porque eu quero vê-la sempre feliz.

25/04/2017

Aos 17 anos publicava minhas crônicas no extinto jornal Diário Popular. Foi assim e enquanto eu era redatora do extinto Banco Auxiliar, um porre! Depois me dediquei às filhas. Tenho duas, Paola e Isabella. Fiz comunicação social. Mas acho mesmo que sou autodidata. Meu nome é Helena.


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