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Um diário especial: minha mãe e eu – 3

Um Diário Especial

Um Diário Especial

Mamãe ligou pra o colégio e falou um montão pra diretora. Disse que sabia que eu era levada e insubordinada, mas que nunca fui mentirosa. E que, portanto, ela que castigasse as demais meninas. E furiosa citou a De Boni”

Por Helena Prado

Eu detestava o colégio de freiras onde eu estudava, o Santa Doroteia.

Nasci pra ser livre, sempre fui criativa, alegre e vibrante, vou mais longe: esfuziante e irrequieta! Como pode alguém com o meu jeito espontâneo e alegre obedecer e se dar bem com freiras retrógradas, recalcadas, chatas e rígidas?

Também só me dava bem com poucas colegas. Lembro-me de duas que eu gostava muito: Ivany, uma lindinha!   E Márcia Paula com quem viajei algumas vezes. Mas tinha verdadeira antipatia por Maria Tereza De Boni, um saco!. Outras eu apenas me dava bem, mas não era propriamente amiga. Caso de Loretta Bruno, uma ruivinha bonita com enormes olhos verdes.

Tínhamos uma professora de francês chamada Amália. Uma velha chata e metódica, que entrava na sala, abria todos os vitrôs que ficavam ao lado das alunas, e fechava o do lado dela. Se estivesse nevando, nós poderíamos morrer de pneumonia. Mas ela ficava resguardada.

Também tinha a mania de pegar uma flanela da gaveta, tirar o pó de giz de sua escrivaninha, guardar a flanela, e aí, sim, mandar que as alunas se levantassem e rezassem:
​”Mon Dieu, nous Vous offrons la leçon que nous allons faire, pour Votre gloire… e emendava com a Ave Maria em francês.

​Se mascássemos chiclete, perguntava o que estávamos ruminando. Uma fofa!

Um dia, tivemos a ideia – acho que quem teve fui eu mesma – de sumir com a flanela, pegar o apagador cheio de giz e bater sobre a escrivaninha de Amália. Tereza De Boni e outras participaram ativamente da sacanagem. Amália entrou na sala, e da porta já viu o excesso de giz no tampo de sua escrivaninha. Foi pegar a flanela e.. cadê? Saiu calmamente e voltou com outra. E seguiu sua pentelha rotina.

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Na outra aula, fizemos o mesmo. Burrinhas…

Dessa vez, ela saiu e voltou com uma freira a tiracolo. Era a diretora, que perguntou quem era responsável por aquilo. Imediatamente, ergui um braço e me entreguei. Todas ficaram caladas. Lá fui eu pra diretoria ficar de castigo. Ah, e peguei suspensão de dois dias, que, aliás, amei. E minha mãe abominou.

Mas foi a primeira vez na vida que vi minha mãe brigar por mim e me defender. Por quê? Porque contei toda a verdade, como agi a vida inteira, e disse a ela que não fiz a sacanagem sozinha. Citei todas que participaram, incluindo Maria Tereza De Boni.

​Mamãe ligou pra o colégio e falou um montão pra diretora. Disse que sabia que eu era levada e insubordinada, mas que nunca fui mentirosa. E que, portanto, ela que castigasse as demais meninas. E furiosa citou a De Boni.

Mas como os pais da Tereza viviam puxando o saco das freiras, elas optaram por cancelar minha suspensão.

Assim não teriam de castigar a De Boni, cujos pais eram a galinha dos ovos de ouro das freiras. As outras colegas, sem saber de nada, também saíram no lucro.

Corta pra abril/início de maiode 2017  

Dias atrás saí com minha advogada, que também tornou-se uma amiga querida. Ela me convidou pra almoçar por causa do meu aniversário e também pra tratarmos de alguns assuntos. Ganhei um livro e uma caixa de bombons. Ela é uma graça de pessoa. E desde que a conheci, houve uma empatia muito grande entre a gente. ​Como mamãe me incumbiu de comprar uns agasalhos pra ela ficar em casa, perguntei pra Rose, a advogada, se ela topava que o almoço fosse  no Shopping.

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Parêntese – Estou pensando seriamente em alugar um espaço no Higienópolis para pôr um colchonete e dormir por lá, no mínimo uns quinze dias por mês.  Já estou tão manjada, que por onde passo todos vêm e me abraçam, me beijam ou só me dão um tchauzinho, ou gritam: oi, Helena!!!

É que muitas das vezes mamãe me pede para ir à uma certa doceria e comprar pra ela rissoles de palmito, casadinhos de camarão ou empadinhas e coxinhas. Também tenho que mandar fazer barras das calças que compro pra ela e muitas outras coisas.
​Enfim, não tenho saído de lá…

Eu adoro escolher roupas pra mamãe. Mesmo que sejam moletons baratos. Eu combino as cores e escolho com carinho. Não quero vê-la mal-ajambrada e descombinada nem em casa. Quero ver minha tatu-bolinha toda “combinadinha”. Eu verdadeiramente amo minha mãe. E quanto mais o tempo passa, mais me apego a ela. É impressionante isso. Quando alguém vem com aquele papo de aranha que eu tenho que estar preparada….
​Nem vou falar o que penso.

​No último fim de semana, o que os sindicalistas resolveram não deixar nenhum pobre sair pra trabalhar porque perderam a boquinha da obrigatoriedade da contribuição sindical, eu e mamãe passamos o domingo e o feriado de 1º de maio na casa da Paola.
Mamãe delira quando vamos pra lá e ela dorme junto com a Paola, que diz: “vova”, você é a única pessoa, além do Gabriel, que eu deixo ficar na minha cama. Mamãe sente-se importante, acho. E adora a cama da Paola!

​Isso só é possível porque o marido da minha Teteia está fazendo um trabalho no exterior, por isso, temos ficado juntas quase todos os fins de semana.

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Eu já tinha acordado mas estava fingindo que estava dormindo. Aí recebi um WhatsApp de uma amiga muito querida, generosa, que já me socorreu em diversas ocasiões. Ela é inteligentíssima, gozadíssima e desbocada. Nó nos reencontramos pelo Facebook, quando eu estava internada por causa de umas fraturas na bacia. E ela disse que ia me visitar. Eu torci o nariz. Mas quando a vi, foi uma delícia. Amor à segunda temporada. Bem, voltando, Maria Tereza De Boni estava elogiando o capítulo anterior do meu diário, o segundo. E disse: “Hoje foi triste!!! Pq me reportei tb a tds as minhas perdas!!!! “

Pois é, a vida dá voltas incríveis. Tereza hoje faz parte da minha vida. Torce por mim, como eu torço por ela. Se eu precisar da Tera às 4h da madrugada, tenho certeza absoluta de que ela vem me socorrer. Quem diria, vira e mexe, eu digo isso a ela?!

Eu e Paola fomos ao Shopping Villa Lobos, claro, comprar uns salgadinhos pra mamãe, mas também para jantarmos.

Foi tão bom a gente sentar pra conversar sobre quando ela e Isabella eram crianças!
​Falamos de amor e de mágoas, acho que muitas já superadas. Mas falamos sobretudo da Isabella, a minha espiroqueta, que mora em Niterói, e que era grudada comigo, mas que, por contingências de vida, teve que ir morar com o pai quando estava com 12 anos.
Muito triste esta história!

3/05/2017

Aos 17 anos publicava minhas crônicas no extinto jornal Diário Popular. Foi assim e enquanto eu era redatora do extinto Banco Auxiliar, um porre! Depois me dediquei às filhas. Tenho duas, Paola e Isabella. Fiz comunicação social. Mas acho mesmo que sou autodidata. Meu nome é Helena.

4 respostas para “Um diário especial: minha mãe e eu – 3”

  1. Vc é fantástica, Helena! Inteligente, divertida,
    Espontânea e nos diverte muito com suas crônicas.
    Bjs

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