Crítica: vale a pena assistir “Muito Romântico”, filme de Melissa Dullius e Gustavo Jahn?
Cinema Críticas Notícias

Crítica: vale a pena assistir “Muito Romântico”, filme de Melissa Dullius e Gustavo Jahn?

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Muito Romântico

Muito Romântico

Dirigido e roteirizado por Melissa Dullius e Gustavo Jahn. Elenco: Melissa Dullius, Gustavo Jahn, Gustavo Beck, Friederike Frerichs, Kana Chiaki, Aqico Coco, Imogen Heath

Por Gabriella Tomasi

Muito Romântico traz novamente para as telas do cinema um longa brasileiro experimental, o qual não é exatamente o gênero mais comercial do mercado audiovisual que existe, pois geralmente se exige muito de seu publico para ser digerido e compreendido, mas funciona para aqueles que possuem mente aberta e estão acostumados a frequentar os festivais de cinema que ocorrem no país (o filme, por sinal, foi um sucesso no festival de Berlim, onde estreou em 2016). O mais famoso e recente filme de mesma abordagem nós podemos encontrar em Adeus à Linguagem do cineasta francês de Jean-Luc Godard, um dos pioneiros da Nouvelle Vague. Não coincidentemente, os cineastas Dullius e Jahn se apoiaram nessa referência estética para criar uma narrativa essencialmente de experiências por meio de imagens e sons pelo espectador que dependem deles para ser apreciado.

O filme inicia a partir de imagens contemplativas do mar, vistos a partir de um navio. Filmado em um película de 16mm, como se fosse a representação de um passado. A narração em off relata as sensações de estar naquele ambiente enquanto apreciamos o conjunto de vídeos e fotografias transmitidas dessa jornada. Um casal de imigrantes, Melissa e Gustavo então chegam à Alemanha, em Berlim, onde passarão a viver juntos.

O relacionamento entre os personagens passa por diversas fases: a da afeição, do distanciamento, do ciúme, entre outras experiências que transcendem tempo e espaço ao trazer as memórias e os sentimentos de cada um deles por meio de efeitos de montagem, como por exemplo, aceleração de planos contendo fotografias, sobreposição de planos que simbolizam a separação do corpo e da alma por exemplo.  Neste aspecto, todas as lembranças, fantasias e sensações são igualmente exploradas pelos elementos em cenário e de cor, principalmente a do azul e do vermelho que estão sempre em contraste. O vermelho abraça o amor (afinal, este é um romance), mas também abraça o azul melancólico da nostalgia, do fato de estar em um ambiente estrangeiro, com o qual o casal de brasileiros devem se adaptar – o que muitas vezes não é tarefa fácil. Interessante, neste sentido, notar de que forma outros imigrantes também compartilham seus pensamentos e experiências em relação à vida em outro país.

Mas a paixão e sua devoção pela arte é o que faz mover os dois personagens principais deste filme muito mais que a interação entre eles em si. Ao contrário do que podemos presumir com a leitura do título, o romance está presente através da pintura, canto, dança, teatro, e literatura que são constantemente trabalhadas e referenciadas, deixando o próprio contato humano quase que completamente de lado para dar vida ao artístico no íntimo espaço físico do quarto e da sala, e da mente e do espírito também. Por isso, o amor não é atração carnal, sexual nem superficialmente física, mas de companheirismo ao compartilhar a mesma vocação.

O que, no entanto, não funciona é a inexpressividade dos diretores/atores durante todo o longa, o que dificulta extrair algum sentimento por trás de diálogos forçados e atuação sem vida, tornando o próprio relacionamento do casal ou qualquer atitude de qualquer um deles muito pouco natural. Difícil, por conseguinte, encontrar fluidez em situações deparadas como o próprio ciúme de Gustavo, por exemplo.

Muito Romântico é, portanto, um filme que se distancia da narrativa clássica e das estréias que estamos acostumados a assistir, e por isso provavelmente não irá agradar aqueles que buscam apenas um entretenimento rápido e fácil, mas é ainda um trabalho artístico muito interessante com imagens belíssimas e criativas que merecem ser elogiadas.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema


  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Deixe uma resposta