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Um diário especial: minha mãe e eu – 4

Um Diário Especial

Um Diário Especial

“Foi numa aula de português que eu soube que meu teste de gravidez deu positivo. Quem fez foi minha prima. Ela ligou pra o Indac e pediu pra me avisarem”

Por Helena Prado

Criança infernal, adolescente pentelha, adulta maluquete…. Minha mãe sempre contava que quando eu era criança ela irradiava a minha trajetória: Helena acorda, sai do berço, abre todas as gavetas, tira tudo pra fora, desce as escadas, entra na cozinha, puxa a cadeira, encosta na pia, abre as torneiras, vai pra mesa, deixa cair leite no chão….

Quando eu estava com oito anos, ganhei do papai uma pulseira de chapinha com meu nome, que ele trouxe de São Paulo. Eu era louca para ter uma daquelas. Assim que ganhei, escrevi um bilhetinho para o meu namoradinho Maurício, que tinha onze anos. Disse pra ele o seguinte: Maurício, você já sabe que vai passar “Os dez Mandamentos”, né? O filme tem três horas e meia de duração. Já pensou como a gente vai poder beijar bastante? Na verdade, eu e Maurício íamos ao cinema sozinhos para nos beijar. A gente beijava o filme inteirinho, e eu nunca soube qual filme assisti com ele.

Morávamos em Ourinhos, SP, onde meu pai era promotor público. Nossos pais eram amigos. Não sei como nosso namorico começou. Mas me recordo muito bem como terminou.

Papai viu aquele bilhete na pulseirinha de prata e eu levei uma surra inesquecível, além de ficar um mês de castigo sem sair de casa. Mas Maurício passava embaixo da janela da sala, com um chapeuzinho na cabeça, e assobiava. Eu ia até a janela e dava um tchauzinho pra ele. Jogávamos beijinhos um pra o outro, até quando terminou o castigo.
Papai foi transferido pra São Paulo e os pais de Maurício e ele foram se despedir da gente na Estação Sorocabana. Estou vendo direitinho o Maurício me dando adeus e o trem começando a andar….

Nunca mais nos vimos ao vivo e em cores. Mas ficamos e somos amigos de facebook.

Já casada e aos dezenove anos, eu fazia balé. Frenética, fazia três aulas seguidas: clássico, jazz e moderno. Amava! Mas como eu não tinha empregada, punha na máquina de lavar uma meia calça, ou um collant, às vezes só as polainas… Se vacilasse, também punha só uma faixa de cabelo e de cintura para baterem sozinhas. Do mesmo jeito que jogava panelas quando, sem querer, deixava-as queimar. Eu abominava ser dona de casa.

Quando estava com 23 anos, tive a minha tão esperada e querida filha Paola. Eu tinha voltado a estudar um pouco antes. Desde que papai morreu, eu empaquei e só voltei a estudar aos 22 anos. Também fiz tudo junto. Outra hora falo de como da madureza e cursinho, fiz direto a faculdade, onde entrei em sexto lugar. Fiz Comunicação Social.
Cursei madureza no Indac. Que era um curso para onde iam ou todas as mulheres mais velhas que eu que casaram-se e que tinham parado de estudar, ou ainda todas as pessoas problemáticas como eu e que tinham grana para estudar num lugar badalado, com professores de primeira linha, e que gostavam de liberdade (nesta época, já dava pra eu pagar o curso).

Foi numa aula de português que eu soube que meu teste de gravidez deu positivo. Quem fez foi minha prima. Ela ligou pra o Indac e pediu pra me avisarem.

Foi uma zona na sala de aula! Subi na carteira, pedi pra todos se calarem e participei a classe e a professora. Pegaram-me no colo, fizeram a maior farra, cantamos, ri pra caramba, fiquei numa alegria tremenda. Foi demais!

Depois que Paola nasceu, voltei com tudo pra o balé. E também pras bolas para emagrecer quando parei de amamentar. Eu fiquei tristíssima porque eu adorava dar de mamar. Eu me achava uma rainha e pensava: além de ter feito uma menina toda linda e perfeita – sendo eu tão porra-louca e imperfeita – , eu ainda sou capaz de alimentá-la. Sou mesmo o máximo! Pena que minha alegria durou pouco!

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Mas em compensação, eu que tinha ficado uma geladeira de tão gorda, em dois meses e meio perdi tudo e mais um tantão do que tinha engordado.

Fiquei esquelética como eu gostava. E fui com Paulo e um casal de primos acampar em Paraty. Foi a primeira vez que me separei da minha amada teteia Paola. Ah, como eu amei ser mãe e como eu cuidei da minha teteia!

Corta pra maio de 2017

Ando meio desligada da política imunda que nos assola. Ando triste também porque há 19 dias estou internada com minha mãe no Hospital São José, ou BP Mirante. Antes, passei dois dias com ela naquele famigerado Hospital Samaritano. Confesso que esqueci a merda que é aquele hospital e seu corpo médico. Lembro-me que até fiz uma baita reclamação, e por pouco não escrevi para os jornais, reclamando. Mas minha mãe passou tão mal que sei lá o que me deu, que corri de novo com ela para lá. A cretina da médica que a atendeu internou-a por um dia e a liberou. Eu a questionei em relação ao cansaço que minha mãe vinha sentindo e seu inchaço também. Na verdade, minha mãe estava absolutamente ofegante, suas feições muito diferentes, e muito inchada. Ela era tão linda aos 48 anos….. E com uma diarreia intermitente. A anta, em vez de colher as fezes da minha mãe para tentar descobrir a razão de sua diarreia, deu a ela Floratil para prender o intestino. E me disse: se ela voltar a ter diarreia, você traz sua mãe de novo.

E quanto à alteração de sua pressão e seu cansaço, ela recomendou-me o médico que tinha pedido que minha mãe fizesse o M.A.P.A., que estava todo atrapalhado, e com a pressão muito alta.

Saí desembestada daquele hospital(?) com minha mãe a tiracolo e levei-a ao cardiologista que havia os exames, incluindo o M.A.P.A., óbvio.

Resumindo: ele mandou que eu a internasse imediatamente.

Pois bem: ela foi e ainda está sendo revirada para ver se descobrem o motivo de sua diarreia. Até agora, entretanto, algumas doenças já ficaram claras: 1- ela estava fazendo alguns trombos. Tanto que dois dias depois de hospitalizada, minha mãe teve uma trombose pulmonar e quase morreu, ficando na UTI por dois dias e meio. Significa dizer que, se eu não a tivesse levado no mesmo dia ao cardiologista, ela teria morrido em casa. Porque a estúpida da médica não chamou um cardiologista para vê-la, aproveitando que ela estava internada.

2- descobriram que ela tem um câncer de mama e que talvez precisasse ser operada. Por isso, fizeram outro exame para saber se o tumor era sensível a um determinado hormônio. Se fosse, se bem entendi, ela ficaria livre da cirurgia. Porém, antes e de qualquer jeito, precisariam descobrir a razão da maldita diarreia, até porque seu potássio está praticamente zerado.

Eu pergunto a quem estiver lendo este diário: se fosse a sua mãe, o que você faria contra o Hospital Samaritano e contra a médica (?) baleia que atendeu a sua mãe? Digo baleia, porque a médica deve pesar 376 quilos, mais ou menos. Acho que mais.

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Bem, ontem o médico que cuida da mamãe me disse que eu precisava sair daqui e respirar novos ares antes que eu também sucumbisse.

Fui me arrastando para casa e fiquei deitada e chorando até às 18h. De repente, não sei explicar como, levantei-me e resolvi que ia ao lançamento do livro do amigo de facebook, o jornalista Carlos Marchi. 

Me arrumei, rapi-dez, e lá fui eu.

Quando vi a Berylla Ancallimë, fiquei profundamente feliz. Eu só a conhecia pelo face, e ela é uma garota genial. Simples assim. E é um baita privilégio ser amiga de uma moça tão inteligente e brilhante, juro! Mas eu sinto que fui uma pentelha com ela, pois contei uma montanha de tragédias pelas quais estou passando. Berylla tem uma Beryllinha de nome Fernanda que é a menina mais doce que já conheci.

Depois de pegarmos o autógrafo de Marchi e de tomarmos um lanche delicioso na Livraria Cultura, nos despedimos e nos separamos.

Foi na Paulista que eu senti uma solidão e dor no coração absurdas. E fui andando e chorando uns três quarteirões, desasada. Pensando o tempo todo no que será da minha vida sem minha mãe. Senti um vazio inexplicável. E um amor infinito. Ainda uma vontade incrível de estar agarrada ao João, meu namorado, que infelizmente não está podendo vir a São Paulo.

Tive medo também, muito medo.

Por muito pouco, não peguei um táxi e voei para o hospital.

Afinal, acabei achando um táxi e fui para a minha casa. Assim que cheguei, liguei para o hospital. A empregada – que é uma santa e a quem serei eternamente grata – atendeu com a voz ótima e disse que mamãe estava bem. Disse ainda que ela queria falar comigo e passou o telefone para ela.

Eu disse: —-oi, mãe, tudo bem com você?
Ela :——— tenho uma boa notícia pra te dar.
Eu :———-oba! Diga, lindona!
Ela :———-o médico passou aqui e disse que NÃO VOU PRECISAR SER OPERADA.
Eu :———-mãe, fala sério!
Ela :———é verdade, filha!

Bom, dei pulos de alegria no quarto.

Mas achei prudente telefonar pra o médico, que confirmou o que minha mãe disse.

Fiquei tão eufórica que só adormeci às 4h da manhã, ligando pra Paola e chorando e rindo de alegria.

Quero muito agradecer minha filha Paola pelo carinho e amor com que ela trata sua avó. E pelos carinhos que ela me faz, deixando-me mais feliz e sem a sensação de estar tão só. Também agradeço minha filha Isabella, a minha espiroqueta, pelas vezes que liga para saber da vova.

Um superobrigada especial aos doutores Eduardo Falude e Manoel Carlos, ambos das equipes de cardiologia e oncologia, respectivamente. O primeiro, do BP Mirante, do Sírio e do Oswaldo Cruz. E o segundo, do BP Mirante. Eu amei conhecer vocês, “senhores”, ahahahhaah! Um beijão!

Obrigada, João meu amor, por todos os telefonemas e por todos os choros e lágrimas derramadas e enxugadas com suas palavras de doçura e compreensão. Eu te amo, meu querido!

Quero muito fazer um agradecimento geral a todos que entraram em contato comigo, de uma forma ou de outra, que foram me ver, todos torcendo pela minha mãe e me falando palavras doces e de muito carinho, mandando-me mensagens de fé, força e coragem. São amigos de várias turmas, primos, conhecidos, irmãs e amigos, inclusive do outro lado do Atlântico, nossos portugas queridos, que mesmo de tão longe, estão sempre a me consolar. Todos gente do bem. Eu sou uma sortuda!

Um beijão geral!

Aos 17 anos publicava minhas crônicas no extinto jornal Diário Popular. Foi assim e enquanto eu era redatora do extinto Banco Auxiliar, um porre! Depois me dediquei às filhas. Tenho duas, Paola e Isabella. Fiz comunicação social. Mas acho mesmo que sou autodidata. Meu nome é Helena.

2 respostas para “Um diário especial: minha mãe e eu – 4”

  1. De uma passagem tão linda que foi sua gravidez para depois contar a dor que sente com a dor da sua mãe, me deixou muito emocionada.
    Tenho certeza, Helena, que seu próximo capítulo virá recheado de boas notícias, com sua mãe já em casa, saudável, como sempre foi.!
    Fé, força e coragem, nunca lhes faltaram, mesmo que, em alguns momentos, um abatimento tenha te visitado.
    Mas, você conta com o que de mais belo existe : o amor do próximo, como o amor que você, tão ternamente demonstra .
    Você é uma mulher do bem ! Do bem mais que descritível …
    Meu beijo !

  2. Puxa eu estava escrevendo para você Helena e sumiu tudo. Pois é , estava comentando como você consegue ser tão criativa mesmo com tantos problemas pela dianteira? Talvez seja porque tudo é alimento para sua fome intelectual. Te curto muito querida e gosto bastante de seus escritos

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