Crítica Uma Família de Dois: mais um remake descartável de 2017? | Cabine Cultural
Cinema Críticas Notícias

Crítica Uma Família de Dois: mais um remake descartável de 2017?

Uma Família de Dois

Uma Família de Dois

Dirigido por Hugo Gélin. Roteirizado por Hugo Gélin, Mathieu Oullion, Jean-André Yerlès. Elenco: Omar Sy, Gloria Colston, Clémence Poésy, Antoine Bertrand

Por Gabriella Tomasi

É interessante presenciar como o ano de 2017 vem sendo o ano dos remakes, praticamente. Nós temos a versão argentina do filme francês Os Intocáveis e que já existe uma possível versão norte-americana no caminho; Blade Runner que ainda vai estrear; A Vigilante do Amanhã que se baseou na versão animada japonesa; Kong: A Ilha da Caveira que desde o século passado vem ganhando novas filmagens e até mesmo It: A Coisa é um dos longas mais aguardados do ano. Dessa forma, Uma Família de Dois é também uma refilmagem da versão mexicana Não Aceitamos Devoluções (2013).

Em parte o remake funciona extremamente bem, principalmente em seu design de produção. As cores quentes da Riviera Francesa, em que encontramos lá Samuel, interpretado com o mesmo carisma de sempre por Osmar Sy (Os Intocáveis) que, vestido em cores brancas, vive a vida tranqüilo, mas inconseqüente e com pouca responsabilidade por seus atos, como capitão de um iate para um hotel local, regado de festa e mulheres em sua volta. Mas tudo muda quando aparece a britânica Kristin (Poésy), seu antigo romance, que lhe entrega sua filha de colo Gloria (posteriormente interpretada por Colston aos oito anos), alegando ser ele o pai da criança e, na sequencia abandonando-a aos seus cuidados. Samuel então viaja imediatamente para Londres e tenta encontrar a mãe, não acreditando na paternidade da criança. Mas o azar o levou a se estabelecer na capital inglesa – encontrando um emprego, um lar e uma vida com Gloria. Oito anos depois, Kristin retorna para recuperar o tempo perdido com a filha.

Este é um filme com uma ótima história para contar, mas que falha em sua estrutura narrativa. Se analisarmos atentivamente a forma como ela foi construída, podemos perceber que ela é feita de picos de altos e baixos na vida do protagonista às vezes oscilando até de forma brusca. Por exemplo, no início quando sua vida de solteiro caminhava bem, nos divertimos com a comédia leve até que chega Gloria e quebra o tom com o drama. Na sequencia, quando chega em Londres muda-se novamente para o cômico até descobrimos um fato sobre Gloria que o desloca para o drama. O lado cômico também volta em seguida quando vemos a rotina entre pai e filha que depois é quebrada pela presença de Kristin e os supostos e-mails, e assim sucessivamente. É como se o longa não encontrasse um equilíbrio certo e define momentos específicos para quando quer ser sério e quando quer ser brincalhão, apesar de que devo elogiar o fato de que o filme nunca chega a ser melodramático. Mesmo assim, há uma série de eventos e elementos que nunca a chegam a se complementar de maneira fluída. Em outras palavras, tudo é muito episódico pela mudança constante do tom como os momentos de mãe e filha, a disputa pela paternidade (que relembra Kramer vs Kramer), e até mesmo uma possível doença da filha que é revelada para Kristin apenas quando conveniente para o roteiro e para o tom dramático da situação, obviamente.

Uma Família de Dois

Uma Família de Dois

Portanto, pautando-se por uma decupagem irregular de seu roteiro, cada cena dá a impressão de ser algo singular e não algo que tenha coesão, como parte de algo maior, apontando para diversas direções ao invés de trabalhar seriamente apenas uma. É o que acontece com Bernie (Bertrand), o amigo da família, o qual a narrativa inclusive sugere sua paternidade afetiva em relação à Gloria, já que ele literalmente esteve presente em todos os momentos importantes de sua vida, como a primeira palavra (e o filme mostra isso). Mas a ideia é prontamente abandonada, sem nunca ser desenvolvida e, deste modo, desperdiçando por completo a existência de seu personagem. Outros problemas igualmente surgem quando tratam certas atitudes de Samuel de forma completamente indulgente ou até mesmo de Kristin, cujas motivações para o abandono da filha nunca são devidamente enfrentadas pelas duas, preferindo concentrar o embate entre pai e mãe.

O filme tem ótimos momentos, contudo. Especialmente quando Samuel chega à Londres e deve enfrentar o choque cultural e de linguagem, e quando posteriormente é a filha que faz essa ponte que o personagem nunca alcança por conveniência, eis que convive apenas com pessoas que falam a língua francófona. Pois afinal, este é um maravilhoso simbolismo de como o protagonista dedicou oito anos de sua vida estritamente à sua filha, à uma pessoa somente: o resto lhe é secundário. E de ir de uma postura narcísica de antes até a sua versão mais altruísta é realmente impactante.

Pena que uma história tão linda foi tão mal desenvolvida.

 

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

Deixe uma resposta