Crítica Perdidos em Paris: um honesto filme de comédia | Cabine Cultural
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Crítica: Perdidos em Paris

Perdidos em Paris

Perdidos em Paris

Dirigido e roteirizado por Dominique Abel, Fiona Gordon. Elenco: Dominique Abel, Fiona Gordon, Emmanuelle Riva, Pierre Richard

Por Gabriella Tomasi

Perdidos em Paris é um filme de comédia protagonizado, produzido, roteirizado e dirigido pelo casal Fiona Gordon e Dominique Abel.  A trama conta a jornada da bibliotecária canadense Fiona (Gordon) que parte rumo à Paris a pedidos de sua tia Martha (Riva), a qual teme ser recolocada em um asilo para idosos contra sua vontade e lá, Fiona acaba encontrando e se envolvendo com o mendigo Dom (Abel).

A transição da paleta fria e branca que caracteriza a neve do rigoroso inverno no Canadá para as cores extremamente vivas na calorosa capital francesa é maravilhosa, sendo mais do que perceptível o carinho pelo qual a cidade é retratada apenas pela exploração dos lugares turísticos em que muitas das cenas se passam, como a Torre Eiffel, o passeio de barco no Rio Senna e os jantares à noite, o cemitério famoso Père-Lachaise, a Ponte Mirabeau e o contraste entre a arquitetura moderna e antiga – da mesma forma como Woody Allen centrava suas tramas nas cidades europeias com tamanha afeição. A partir daí, é interessante como a dinâmica entre Dom e Fiona se concentra para desenvolver o que estar “perdido” significa para cada um naquele local: A segunda é uma estrangeira, que mal fala a língua nacional e tenta procurar sua tia mesmo após ter perdido todos os seus pertences, recorrendo inclusive ao Consulado Canadense como refúgio. O mendigo, por sua vez, é retratado como um vagabundo e se vê encantado por Fiona, de forma parecida como Charles Chaplin interpretava seus personagens.

Aliás, tal comparação não é mera coincidência e tampouco é apenas uma referência já que o tom cômico parece se desenvolver na mesma forma em slapstick durante toda a trama, ou seja, seus atores fazem gestos e manias grandiosas para conseguir fazer o espectador dar risada, uma técnica que não somente pela qual Chaplin ficou famoso, mas o personagem Mr. Bean igualmente a empregava. Emmanuelle Riva, que é mais famosa por suas interpretações em Amour, Hiroshima Meu Amor e sua participação em A Liberdade é Azul, tem uma última atuação antes de seu falecimento e sua personagem é uma idosa extremamente cativante que busca e demonstra independência e força ao fugir de médicos, policiais ou qualquer tipo de autoridade em geral que a possa conduzir ao asilo. Uma lucidez, por sinal, que muitos subestimam como, por exemplo, quando Norman – um antigo amigo de Martha  – conta a uma enfermeira propositalmente que encontrou a colega há mais de vinte anos atrás, quando, na verdade, a encontrou apenas há alguns segundos atrás.

No entanto, o longa carece de um propósito maior, ou, em outras palavras, falta substância por trás de suas inúmeras gags, piadas, referências a clássicos do cinema mudo e conflitos e, deste modo, não se sabe o que a película intenciona realmente dizer para a sua audiência. O que, por conseguinte, o torna apenas um instrumento para entretenimento e escapismo vazio, empobrecendo sua qualidade cinematografia quando nem seu principal elemento, o humor, possui uma função narrativa específica. E não digo que a comédia não funcione. Pelo contrário, é possível se envolver na aventura dos personagens, assim como dar boas risadas muitas vezes, porém, o tom é sempre executado de maneira repetitiva e em piloto automático, até que depois de determinado tempo chega a cansar pela ausência de elementos novos e diferentes para que se torne uma obra um pouco mais interessante e complexa. Portanto, os curtos oitenta e três minutos de projeção se tornam mais longos do que deveriam.

Perdidos em Paris é, por fim, um honesto filme de comédia, mas que infelizmente não soube aproveitar o potencial que possuía.

 

Gabriella Tomasi é crítica de cinema e possui o blog Ícone do Cinema

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