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Quando a Empatia não é Necessária e o Respeito é Vital

Patrimônio e Sociedade; memória social, identidade cultural, patrimônios, coleções e muito mais

Quando a Empatia não é Necessária e o Respeito é Vital

No dia 15 de fevereiro de 2016 a Assembleia Legislativa da Bahia aprovou uma lei pela qual considera a Bíblia Sagrada um patrimônio imaterial do estado. No dia 4 de maio de 2017 a Pedra de Xangô foi tombada como patrimônio cultural da cidade de Salvador. Em São José dos Pinhais pelo menos metade dos bens patrimonializados pela prefeitura são capelas católicas. Como sabemos, estes tombamentos visam de alguma forma representar a importância destes bens para a sociedade na qual se inserem. Sendo assim, como ficam as pessoas que não se sentem representadas por esses bens?

De início, os tombamentos visavam, e em grande medida ainda tentam representar todas as pessoas membras de algum grupo. Ao tombar a Bíblia na Bahia o Deputado Pastor Sargento Isidório justificou dizendo “Para a maior parcela do cristianismo a Bíblia é a Palavra de Deus, portanto ela é mais do que apenas um bom livro, é a vontade de Deus escrita para a humanidade. Para esses cristãos, nela se encontram, acima de tudo, as respostas para os problemas da humanidade e a base para princípios e normas de moral”. Com este trecho podemos dizer que o Deputado, independente da sua predileção religiosa já explicitada pelo título com o qual se apresenta, tenta mostrar que o livro sagrado dos cristãos é de extrema importância para o povo baiano a ponto de ser elevado a patrimônio. Mas como ficam os ateus que porventura acreditem que a ocupação das terras do estado se deu apenas com vieses de mercantilismo e capitalismo europeu, fundamentado na expansão de terras e busca por riquezas, deixando alheio o livro?

E em São José dos Pinhais, como se encontram as pessoas que não fazem parte das comunidades católicas que frequentam as capelas tombadas?

Num ponto de vista holístico e complexo, podemos tentar fazer pontes, por exemplo, com a religiosidade fortemente presente nos ocupantes dos territórios brasileiros, com suas leis, normas morais e etc., implicando nos desenvolvimentos que nos trouxeram onde estamos. Assim, ateus e cristãos foram embalados nos braços de uma sociedade de grande tradição religiosa, mas talvez para quem “não está dentro” dos trabalhos com patrimônios e afins isso não faça sentido. Agora, no imediatismo da vida cotidiana isso pode não explicar nada.

Agora, vamos a outro exemplo: no dia 6 de fevereiro de 2017 a equipe do Museu da Inconfidência, em Minas Gerais, notou que a parede de pedra de um dos lados da entidade trazia a frase “patrimônio da humanidade elitista”. Localizado na praça Tiradentes, o museu faz parte do centro histórico de Ouro Preto que além de ter selos patrimoniais regionais e nacionais é considerado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO.

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O museu guarda peças que lembram a Inconfidência Mineira, movimento separatista regional reprimido pela Coroa Portuguesa, além de outros materiais que mostram um cenário da vida da região no século XVIII, quando do ciclo do ouro e do diamante. Aqui, acredito, podemos compara com a história do jogo de louça do Barão Cafeeiro tratada em textos anteriores. Como se pode ver pela ocasião da pichação, alguém não se sente representado pelo acervo e pelas atividades ali conservadas e executadas.

Num outro painel onde encontramos a não representatividade, temos o dia 30 de setembro de 2016, quando o Monumento às Bandeiras e a estátua de Borba Gato amanheceram pichadas com as cores rosa/vermelho, amarelo, verde e azul. Mais uma vez temos que alguém, neste caso um casal flagrado por câmeras de segurança, não está contente com algo tido como importante, aqui os materiais que lembram das expedições do século XVII que saíam de São Paulo em direção ao Paraná, Minas Gerais e outras regiões em busca de riquezas e posteriormente expansão territorial.

Monumento às Bandeiras Pixado

Monumento às Bandeiras Pixado

No caso do Monumento e de Borba Gato essa não foi a primeira manifestação deste feitio. Noutra vez o Monumento teve as palavras “estupradores”, “ladrões” e “bandidos” escritas também com tinta spray.

Até aqui temos que quadro? A de pessoas que podem não se sentir parte dos bens preservados e tomados como referências por alguns governos e regiões, como se a estética ou o material, ou ainda a mensagem imaterial por traz da materialidade não representasse sua história, sua memória ou seu comportamento face ao mundo e à vida, indo contra seus princípios de verdade, certo e errado e afins. Bem, isso é um direito de todos! Todavia, um monumento ou um patrimônio precisam mesmo representar a todos? Será que essa visão mantida há tanto tempo ainda vale para os dias atuais? Quiçá não representassem parcelas populacionais antigamente, mas como estas parcelas não tinha voz na sociedade hierarquizada não exprimiam seu descontentamento. Hoje, com as inúmeras formas de expressões ideológicas (pichações, redes sociais, cartazes, movimentos populares, …) todos podem se mostrar portadores de uma posição aos acontecimentos.

Os ateus são-joseenses não precisam achar as capelas merecedoras de atenção a nível de serem preservadas, nem os ateus soteropolitanos precisam ver a Bíblia ou a Pedra de Xangô como parte importante da vida cultural. O casal paulista também não tem a menor obrigação de acreditar que Borba Gato e sua turma merecem uma memória gloriosa, como tenta mostrar o Monumento, por expandir o Brasil, ao contrário, podem sim julgá-los de uma forma diferente. E no museu mineiro, podem as pessoas talvez oriundas de classes sociais “inferiores” não se sentirem parte das coleções artísticas, indumentárias e de porcelanas baronescas? Claro que sim!

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Apesar disso, acho importante outra reflexão não tão contestativa: há quem se sinta representado. Há católicos e evangélicos que adoram a patrimonialização de igrejas e da Bíblia; há quem professe fés de matrizes africanas e ache a Pedra de Xangô fundamental; há quem veja Borba Gato como um ícone brasileiro; há quem brilhe os olhos com as louças baronescas.

Como fazemos então numa sociedade tão destoante, diferente, múltipla?

Uma das tentativas de solução pode ser a democracia. As pessoas que se sentem parte da Pedra de Xangô formam uma maioria simples da população, tipo um 50% + 1? Se sim, temos que respeitar a maioria. Os cristãos felizes com as capelas protegidas pelo poder público formam um grupo maior que os descontentes? Se a resposta for não, acredito que uma revisão seja necessária. O problema é que quem deve se ocupar disso é, num ideal, o poder público que oficializa as leis patrimonializadoras de bens. Eles e elas, poder executivo e legislativo, é que devem refletir, discutir e até consultar antes de tomarem decisões deste grau de importância.

O embaraço está, como também já aventado em textos anteriores, a desatenção à cultura como votar a patrimonialização de bens fosse menos importante que votar verbas para a saúde ou outros “temas vitrine”. A desatenção é quase que generalizada na sociedade imediatista, e enquanto esperamos uma melhor gestão e maior atenção nos cabe o respeito. Se não me sinto representado pela louça do Barão não preciso quebrá-la! Posso discutir, apresentar novas visões ou qualquer outro modo mais pacífico de jogar luz nos assuntos tão esquecidos.

A prefeitura de São Paulo avaliou em trinta e sete mil reais a reparação das pichações. Se é verdade ou uma cena para dizer “temos que gastar com imprevistos desnecessários” não importa. O que temos de pensar é que o gesto de contestar é extremamente enriquecedor e carente no Brasil atual, e que o gasto é realmente desnecessário, pois há outras formas de ser contra. Reconsiderações são primordiais e cada vez mais urgentes. Respeito é sempre atual, válido e socialmente vital.

Luciano Chinda.

Titulado em nível de graduação em Conservação e Restauro de Bens Culturais, graduado em História, especialista em Gestão, Preservação e Valorização de Patrimônios e Acervos e em Estudos em Memória, e mestre em Patrimônios, Acervos e Memória. Atualmente é Historiador e Conservador-Restaurador do Círculo de Estudos Bandeirantes, em Curitiba, entidade cultural agregada à PUCPR onde também ministra aulas e oficinas periódicas para graduandos em História

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