Dos Casos da não Representatividade Tornar-se Invisibilidade Silenciada | Cabine Cultural
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Dos Casos da não Representatividade Tornar-se Invisibilidade Silenciada

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Patrimônio e Sociedade; memória social, identidade cultural, patrimônios, coleções e muito mais

Dos Casos da não Representatividade Tornar-se Invisibilidade Silenciada

Este ano a Semana Nacional dos Museus, evento promovido pelo Ministério da Cultura do Brasil (MinC) para comemorar o Dia Internacional dos Museus – 18 de maio – realizou sua décima quinta edição. Todos os anos o MinC propõe temas e os museus e outras entidades de memória, de cultura e afins, voluntariamente se dispõem a programar atividades relacionados aos assuntos sugeridos. Em 2017 o tema foi Museus e Histórias Controversas: dizer o indizível em museus e é sobre este indizível que refletiremos neste texto.

O que é o indizível de um museu? Indizível é de não poder dizer, então, talvez esta palavra não esteja bem posta no título da proposta, não é? Porque se museus são espaços culturais, de memória, história e reflexão, por que não se poderia dizer alguma coisa dentro deles? A função deles não é justamente a de falar sobre coisas? Portanto, trataremos do indizível como invisível, porque esse sim é um tema muito pertinente a museologia contemporânea.

Rapidamente apresento um histórico dos museus: no século XVIII, com grande intensidade também no século XIX e até a primeira metade do século XX pelo menos, aconteceram muitas descobertas arqueológicas “importantes” para o mundo. Um exemplo delas é o descobrimento da Tumba de Tutancâmon, faraó egípcio que foi encontrado numa tumba que – apesar dos milênios que se passaram – resguardou os objetos, pinturas e escrituras quase que em perfeito estado de conservação. Outro exemplo são os sítios arqueológicos com rastros da civilização romana encontrados em várias regiões da Europa, além dos objetos mesopotâmicos encontrados no atual Iraque, e também, para além destes que são mais famosos, a intensificação do contato do “homem civilizado” (europeu ou europeizado) com os povos nativos de muitas regiões como as do interior do continente americano e da Oceania. Ao ter contato com toda uma riqueza material diferente de sua cultura, o homem ocidental ou ocidentalizado maravilhou-se e decidiu deliberadamente levar consigo alguns objetos para suas universidades, museus e institutos para estudá-los. Numa visão acadêmica isso pode parecer muito enriquecedor, mas se pensarmos em posses temos um problema: de quem é o objeto? Do país onde ele foi encontrado ou de quem encontrou? Geralmente os materiais eram encontrados por europeus ou americanos em terras que não eram dos EUA ou da Europa. Na maioria esmagadora dos casos, o descobridor levava consigo o que foi descoberto.

15ª Semana Nacional de Museus

15ª Semana Nacional de Museus

Uma vez possuidores destes objetos, além de estudá-los passaram a expô-los, formando assim os gabinetes de curiosidades que foram os pais dos museus.

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No Brasil os museus passaram a se formar no século XIX, também com materiais antropológicos recolhidos nos contatos com povos nativos e ainda com objetos de algumas famílias (e este “algumas famílias” merece mais atenção a ser dada noutro momento), com o ideal de representar o povo que fazia parte desta ou daquela região. Agora, a questão é que tipo de materiais estavam e ainda estão nestes museus e quem esses objetos representam? Também de forma sucinta, podemos ver as famílias de maiores posses financeiras e de maiores destaques sociais retratados em seus objetos, como o Barão Cafeeiro e seu jogo de louça, que já tratamos, e também as tribos indígenas sintetizadas em algumas cestarias, colares e outras manufaturas. Apesar de estarem representados, os indígenas não falaram por si, alguém – branco e ocidental ou ocidentalizado – elegeu algumas peças quando visitou as tribos e resolveu colocá-las em algum museu.

Neste viés, pensando genericamente nas grandes famílias colocadas em fotos, instrumentos musicais e roupas nos museus, onde estão os trabalhadores braçais e os descendentes dos escravizados, por exemplo? E mesmo quem está representada, como as altas classes, não estão inteiramente ali, pois, onde estão as mulheres? Quando pensamos no século XIX e começo do XX, principalmente na materialidade dos acervos museológicos, é muito difícil ver à época representações femininas por mais ricas, sociáveis, “belas, recatadas e do lar” que fossem. Voltando aos escravizados e seus descendentes, além de serem socialmente inferiores nos tempos citados houve o caso da queima de documentos. Rui Barbosa, quando foi Ministro da Fazenda do Brasil mandou queimar todos os documentos relativos a escravidão que existissem principalmente em cartórios (os motivos disso ainda são uma controversa e também vale uma reflexão), deixando o povo africano no Brasil ou já brasileiros sem muitos registros históricos uma vez que foram “posse”, “propriedade” por muito tempo.

Com isso, torna-se difícil a construção de uma história que possa abarcar os mais variados e possíveis pontos de vista, porque alguns grupos foram, autoritariamente ou não, silenciados. Como vimos no texto Quando a Empatia não é Necessária e o Respeito é Vital, é extremamente possível, normal e até saudável para a sociedade que alguém discorde, questione ou não se sinta representado por patrimônios, entretanto, não dar voz é absolutamente antidemocrático.

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Neste grande e complexo contexto, tivemos a Semana Nacional de Museus deste ano que buscou oportunizar uma reflexão sobre estes invisíveis. Algumas questões filosóficas são muito boas para refletirmos, como: como podemos encontrar os invisíveis dos museus? Para mim isso só é possível quando identificamos quem e o que é visível, assim podemos apontar quem ou o que falta. Os museus todos têm sempre a obrigação de representar todo mundo? Será mesmo? Particularmente acredito que não. Pode ser que os museus que temos hoje e foram forjados no século XIX representem as altas classes e isso talvez não seja um problema, desde que na sociedade democrática os grupos que não figurem nestes locais possam se expor em cultura e presença em outros locais. A gestão não pode ser partidária socialmente falando.

Como exemplo prático uso o acervo do Círculo de Estudos Bandeirantes, entidade cultural fundada em 1929 por onze intelectuais curitibanos. O CEB foi fundado por homens católicos, possuidores de projeção social, instrução acadêmica e consciência científica bem desenvolvida que almejavam um espaço onde debater religião, política, urbanização, educação e outros temas vitais, na visão deles, para a sociedade. Após a morte dos últimos fundadores na década de 1970, foi comum os familiares mandarem para o CEB documentos e objetos dos falecidos fundadores, formando um grande acervo de objetos antropológicos, relatórios de estudos de campo, jornais, muitos livros e revistas, fotografias, correspondências e etc., que, na minha perspectiva, tratam de muitos grupos sociais a partir da visão de homens católicos, possuidores de projeção social, instrução acadêmica e consciência científica bem desenvolvida. Com isso, deve o CEB hoje, que trata de preservar este acervo adquirido e de ofertar atividades acadêmicas, científicas e culturais, representar, por exemplo, os descendentes dos escravizados paranaenses? Para mim, não, pois essa não é a proposta primeira da entidade. Todavia, deveria haver um espaço onde os numerosos grupos contra o racismo, a favor da igualdade racial e outros títulos, pudessem se representar, e no Paraná não há, pelo menos não com a mesma atenção tida em museus convencionais.

15ª Semana Nacional de Museus deste ano.

15ª Semana Nacional de Museus deste ano.

Outro grupo que posso apontar como invisível no acervo do CEB são as mulheres. Os poucos documentos que falam de mulheres são colunas em jornais e revistas que dão dicas de beleza, cuidados com a casa, filhos e marido, receitas, comportamento e etc.. Também os próprios indígenas representados nos vários documentos do Professor José Loureiro nunca falaram por si, mas sim, alguém sempre falou por eles. Por mais que o Professor José Loureiro muito defendesse a demarcação de terras para os Xetá, para evitar o fim daquele grupo, os próprios Xetá nunca tiveram a vez e a voz de criticar os fazendeiros que expandiram suas posses para o interior do estado buscando novas terras para o plantio do café na primeira metade do século XX.

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A principal questão que quero trazer com isso tudo é quem está nos museus? Muitas vezes as classes mais fragilizadas ou inferiores da sociedade, seja lá como cada um queira chamar, não figura estes espaços e isso aumenta a racionalidade das comuns frases “museu é pra gente rica” ou “isso não é pra mim”. Tanto se luta dia-a-dia para que os mais variados públicos frequentem nossos museus, mas geralmente os mesmos tipos estão lá nas aberturas de exposições ou lançamentos de livros, e eles estarem sempre lá não é um problema, ser socialmente melhor projetado não é um problema, mas por que uma dona de casa, por exemplo, vai frequentar com assiduidade um museu onde ela verá os mesmos rostos da política e das propagandas de lojas tradicionais?

Como já apontei antes, a gestão cultural é complexa, tanto em quantidade de coisas a fazer quanto em grau de dificuldade para se fazer essas coisas, mas não se deve nunca desistir. Talvez representar a todos seja uma utopia, porque mesmo que consigamos dar conta do que não aconteceu no passado, como congregar nativos, escravizados, homens, mulheres, homossexuais, trans, e outros, temos desafios novos como a presença dos imigrantes e refugiados que vieram em massa para o Brasil a partir de 2010. O trabalho é sempre atualizado, as necessidades são sempre novas e filhas de seu tempo, mas a tentativa sempre vale a pena.

Titulado em nível de graduação em Conservação e Restauro de Bens Culturais, graduado em História, especialista em Gestão, Preservação e Valorização de Patrimônios e Acervos e em Estudos em Memória, e mestre em Patrimônios, Acervos e Memória. Atualmente é Historiador e Conservador-Restaurador do Círculo de Estudos Bandeirantes, em Curitiba, entidade cultural agregada à PUCPR onde também ministra aulas e oficinas periódicas para graduandos em História


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