Debatendo Cinema: Manhattan e Os Encontros e Desencontros Amorosos | Cabine Cultural
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Debatendo Cinema: Manhattan e Os Encontros e Desencontros Amorosos

Manhattan

Manhattan

Coluna de Gabriella Tomasi sobre a sétima arte; uma análise mais aprofundada do cinema

Por Gabriella Tomasi

Woody Allen é um cineasta bastante conhecido pela sua temática, qual seja, os relacionamentos românticos. Muitos deles baseados em seu ponto de vista, suas experiências, de tal forma até a criar alter egos com seus personagens principais, como, por exemplo, a escalação de Jesse Eisenberg. Ao analisar toda a filmografia percebe-se que ele tem esse gosto particular: seu clássico Noivo Neurótico, Noiva Nervosa; Hannah e Suas Irmãs; Maridos e Esposas; Melinda e Melinda, entre outros. Da mesma forma, é o seu amor por explorar as cidades referência no mundo como se elas fossem personagens das suas histórias, cada um com seus encantos específicos como Meia-Noite Em Paris; Para Roma com Amor; Vicky Cristina Barcelona.

Manhattan não é diferente, já que o cineasta coloca a cidade de Nova York não só como um pano de fundo de onde se passa a trama, mas também como se ela fosse um personagem a parte. Dessa maneira, a fotografia em preto e branco executada dá um tom melancólico, assim como exalta a silhueta da sua arquitetura, como, por exemplo, a cena mais famosa deste longa quando Isaac e Mary são vistos de forma distante – em plano geral – e enquadrados no canto para que possamos notar a ponte gigantesca que diminui os personagens e imortalizando o cenário da beleza do bairro nova-iorquino. Outro exemplo é no começo do relacionamento entre Isaac e Mary, no qual a fotografia utiliza de sombras e feixos de luz na cena em que ambos passeiam no observatório da cidade, onde confessam seus problemas. Na sequencia, a conversa começa a ficar confusa e um pouco perdida, e, assim, os personagens sutilmente desaparecem na escuridão da iluminação e, após, aparecem novamente como se estivesse traduzindo imageticamente o que aquele diálogo representa para eles, como peças escondidas dentro de si. O mesmo volta a acontecer quando Yale revela ao amigo um segredo importante.

Nos primeiros minutos de projeção, Allen faz uma narração em off, interpretando seu personagem, o protagonista Isaac, como se estivesse escrevendo um livro e nos contando como a cidade norte-americana lhe encanta, enquanto inúmeros planos sucessivos nos mostram diferentes partes do bairro, sempre muito bem movimentados. Essa abordagem já não é mera coincidência, uma vez que ele tenta – e consegue muito bem – transparecer um ambiente urbano romântico, mas ao mesmo tempo em ritmo caótico, e repleto de pessoas em todos os cantos (reparem como na maioria das vezes, os lugares públicos sempre estão bem cheios). Essa sensação nos trás a nossa incessante busca de alguém, em meio a milhares de outras pessoas, com quem possamos dividir nossas vidas como uma das mais puras condições humanas. Os começos, os fins dos relacionamentos e, portanto, a constante motivação de busca de uma companhia estável é o tema central do roteiro (desenvolvendo-o inclusive sob um viés quase existencial). Woody Allen, na realidade, vai mais longe ainda ao estruturar sua narrativa de forma cíclica dentro da decupagem clássica de três atos (introdução, desenvolvimento, conclusão), com subtramas que se passam paralela e/ou simultaneamente, mas que nunca deixam de se complementar. Em outras palavras, os atos e as opiniões de cada um dos personagens afetam os demais em sua volta, assim como as soluções que o roteiro concede a eles. Para tanto, o diretor se utiliza de planos longos, enquadramentos precisos que conferem maior organicidade à narrativa –  e o fato de que Allen consegue conduzir tudo de forma tão natural, e não episódica, é admirável.

Manhattan

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No início da trama, Isaac de 42 anos e sua namorada de 17 anos Tracy, interpretada esta por Mariel Hemingway, têm uma conversa distraída com o casal de amigos – já casados há algum tempo –  Emilly  (Anne Byrne) e Yale (Michael Murphy), o que nos concede a oportunidade de já emergir no íntimo dos personagens e da realidade de todos eles. Isaac é um homem duas vezes divorciado (o que o diretor espelhou na sua própria vida, já que, naquela época também possuía o mesmo estado civil); odeia seu trabalho como roteirista de programa de televisão, mas que tenta alavancar sua carreira como escritor e; sua última esposa, interpretada por Meryl Streep, que o abandonou por outra mulher, agora está escrevendo um livro sobre o casamento deles.

Isaac aqui é a persona neurótica como sempre Allen costuma descrever seus protagonistas e alter egos e isso reflete muito da maneira como ele se relaciona com Tracy, como o fato de que ele sempre esconde informações sobre a namorada, sempre se preocupando com a percepção do que os outros possam vir a ter; ou questionando sempre a autenticidade dos sentimentos expressados pela amada, em razão de sua pouca idade. Curioso notar que, conforme a narrativa progride, Isaac possui muitas indecisões, mas é sempre motivado pelos seus impulsos e tende a se direcionar pelo “calor do momento” como sua demissão subseqüente em seu trabalho e suas decisões em relação ao seu romance com Tracy, como abordaremos adiante.

Posteriormente, Yale, seu amigo, choca a todos com a revelação feita em confidência de que está traindo sua esposa com outra mulher, contrariando nossa expectativa de que o relacionamento entre o casal fosse mais “sólido”. Neste momento, Yale introduz na história a personagem a quem seremos apresentados, a jornalista Mary, interpretada pela musa de Allen na época, Diane Keaton. No primeiro encontro com Mary, acompanhada inicialmente por Yale, é divertido como Allen trabalha um clichê de forma diferente, qual seja, dois personagens do sexo oposto que se detestam, mas depois se atraem. Ele trata esse tema e envolve ambos pela forma como eles discutem suas preferências, dialogando de forma bastante inteligente para defender suas paixões, o que acaba ofuscando e distraindo nossa atenção para o que acontece em volta, como a presença de Yale e Tracy no mesmo quadro. Notem como Mary e Isaac passam a tomar o centro da tela enquanto ao lado permanecem ambos seus companheiros.

Sutil e não coincidentemente, dentre tantas opiniões diversas e confrontação, Mary e Isaac se aproximam por um carinho que o casal passa a compartilhar: a cidade de Nova York e a arte. É dessa forma que se estabelece uma relação entre os personagens: com as paisagens contemplativas da câmera de Allen pela cidade ao levar o cachorro de Mary para passear, dentre as quais podemos observar a imagem icônica da ponte conforme mencionamos no início do texto, com uma iluminação perfeita que utiliza os tons mais claros da luz da lua com o tom escuro da noite nas ruas. De repente, aquela cidade caótica se transforma em um lugar extremamente calmo. Em relação à arte, é fácil notar pelos diálogos leves, mas complexos em conteúdo, as várias críticas que o cineasta faz acerca da liberdade de expressão artística e como isso vêm mudando de acordo com as exigências do mercado. Notem como Isaac se irrita com roteiros fabricados e pouco inteligentes, buscando, por conseguinte, um alívio/escapismo de sua carreira como escritor e; Mary questiona seu papel como jornalista; além das suas discussões acerca de pintores, escritores e demais intelectuais famosos.  No subseqüente momento, quando os dois se apaixonam, Isaac, consequentemente se distancia de sua namorada, incentivando-a a aceitar um programa de intercâmbio em Londres, sob o argumento de que ela deve aproveitar a vida e as oportunidades que lhe aparecem, a contragosto da amada, a qual deseja permanecer ao seu lado.

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Mas a paixão que nasce ali passa a ter significados distintos para cada um deles, pois a amizade inicial se dá enquanto Mary se frustra ao ter que se posicionar como a segunda mulher e “dividir” o tempo de Yale com a sua esposa e a partir de então vê em Isaac um romance mais libertário e sem restrições – já que muitas vezes idealiza os relacionamentos “tradicionais” de sua família católica. Isaac, por sua vez, fica contente ao lado de uma mulher mais próxima da sua idade, intelectual e que possui os mesmos interesses.  Da mesma forma, as inseguranças, as neuroses – tema preferido do cineasta – começam a transparecer na medida em que passamos a conhecer mais estes dois personagens.

Aliás, Mary é uma personagem interessante de se analisar, principalmente quando contrastada com Tracy e Emily. Uma mulher completamente insegura, idealizadora, e que se esforça para convencer a si e aos outros, como se tivesse algo a provar, de uma versão que ela não é, haja vista as situações que ela acaba se envolvendo, como a reprovável condição de ser amante de um homem casado. Neste aspecto, a relação que surge entre ela e Isaac é o motor principal que move a trama, e que desenvolve os conflitos e os dilemas posteriormente.

Emily, a esposa de Yale, por sua vez, possui uma participação no longa muito mais tímida, mas eficaz, pois se por um lado ela se demonstra devota ao marido, comprometida com ele, por outro lado, a ideia de um “casamento perfeito” é logo desconstituído, pois nos momentos mais  íntimos, a personagem revela ao amado os seus anseios de uma família, de filhos, e, uma consequente resiliência de sua parte com as rejeições de Yale em relação a tudo isso, demonstrando que não é particularmente feliz ao lado do companheiro.

A maior ironia aqui neste longa, no entanto, é que a única pessoa subestimada por sua inteligência e maturidade é a única que possui algum senso comum na trama: Tracy. Tão segura, determinada, a garota não tem vergonha de expressar seus sentimentos, de dizer o que pensa para os outros e de falar sobre si aos outros (mesmo sendo a mais nova), sendo a única, de toda a história, transparente com as pessoas e sem segredos a esconder. Portanto a idade passa a ser um número que Woody Allen desmitifica; ele desconstitui todos os nossos preconceitos advindos desta característica, transmitindo a ideia de que maturidade não tem uma relação necessariamente com os anos vividos – cronologicamente falando; mas é sim é uma questão psicológica de caráter muito mais profunda e complexa do que acreditamos ser. Esse preconceito inclusive é abordado de maneira divertida nas referencias seus cineastas ídolos quando Isaac compara os amigos de Tracy com os filmes do Fellini, já que o diretor italiano costuma trabalhar os relacionamentos amorosos com grande desconfiança, que muitas vezes idealiza o amor como um sonho, mas seus personagens são geralmente bastante egoístas.

Já no terceiro ato, quando Isaac se encontra sozinho, uma vez que ao final Mary o abandona para ficar ao lado de Yale, o protagonista encontra-se completamente isolado, vazio e sem propósito na vida, o que o leva a teorias para questionar a existência do próprio ser humano e pelo o que realmente se vale viver a vida e, por conseguinte, o sentido dela, até que seus pensamentos o transportam para Tracy – quem ele havia abandonado anteriormente.

Assim sendo, Isaac, ao suplicar para que Tracy fique em Nova York e para que não parta para Londres (como inicialmente incentivado), mostra que o protagonista parece não lograr se sustentar sozinho, sempre precisando de alguém por perto; seja amigos, ou uma mulher ao seu lado; ressaltando o quanto nossas inseguranças são pífias e fundadas na própria imaturidade, sejam elas encontradas na idade que for.

Manhattan é uma obra-prima de Woody Allen que ao mesmo tempo em que sua trama simples, seu conteúdo crítico é extremamente rico em relação a encontros e desencontros amorosos que acabam muitas vezes delineando o rumo das nossas vidas.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema, graduanda em letras, membro do coletivo de mulheres críticas de cinema – ELVIRAS, e possui o blog Ícone do Cinema

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