Crítica: vale a pena assistir "Os Meninos Que Enganavam Nazistas"? | Cabine Cultural
Cinema Críticas Notícias

Crítica: vale a pena assistir “Os Meninos Que Enganavam Nazistas”?

Os Meninos Que Enganavam Nazistas

Os Meninos Que Enganavam Nazistas

Dirigido por Christian Duguay. Baseado no livro homônimo de autoria de Joseph Joffo. Elenco: Patrick Bruel, Elsa Zylberstein, Kev Adams, Christian Clavier

Por Gabriella Tomasi

Não faltam filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. O terror que o nazismo propagou perante boa parte da Europa Ocidental sempre foi um tema de discussão. É de se louvar que ainda a indústria cinematografia aposte em contar histórias (e ainda baseadas em fatos reais) sobre a dor daqueles que sofreram a repressão do exército alemão, porque com os rumos que o contexto político atual global está tomando, apenas prova que sempre é bom relembrar as lições que essa época sombria deixou.

Em Os Meninos Que Enganavam Nazistas, baseado na obra literária homônima, conta-se a história real de Joseph Joffo, um menino judeu que viveu com seus três irmãos mais velhos e seus pais em um bairro de Paris até que a ascensão nazista afetou o cotidiano feliz da família, forçando todos a se separarem para fugir até uma zona livre e não ocupada da França, o litoral sul. Assim, Joseph e seu irmão Maurice partem em uma jornada de sobrevivência durante este período.

O primeiro ato, ou seja, a introdução é muito bem realizada. Em um primeiro momento, temos a ambientação de toda a história, os cenários no design de produção foram muito bem recriados de modo que podemos facilmente nos situar na época. A rotina da família é muito bem abordada: demonstra-se a cumplicidade desde o começo entre Maurice (Palmieri) e Joseph (Le Clech), um laço bem forte, enquanto os filhos mais velhos já se preparam para assumir o negócio do pai, qual seja, uma barbearia local. É interessante observar como os meninos caçoam dos alemães e fazem piadas, estando consciente da situação, mas nunca de sua gravidade. É o choque inicial que vemos, principalmente no rosto do caçula quando seu pai, desferindo tapas no jovem, tenta por meio deste gesto ensinar-lhe de que nunca, sob nenhuma circunstância, deve-se admitir a sua real religião. No entanto, no decorrer da narrativa, o diretor Duguay recai em erros de ritmo e decupagem narrativa que, ao final, não consegue exatamente amarrar todas as pontas para um desfecho satisfatório.

O primeiro ponto reside nos problemas que advêm de seu título. Em português, a tradução foi bem oportuna e condiz com o que esperamos e veremos na história. Todavia, o problema está em seu formato original: “un sac de billes”, que significa “um saco de bolinhas de gude” e que não corresponde muito bem com a premissa do filme, pois ainda que Duguay tenha tentado desenvolver um sentido para o seu título, como o amigo da escola que compra a estrela judia de Joseph com bolinhas de gude, e, este por sua vez, o abandona ao sair de casa, ou a brincadeira inicial que se estabelece entre ele e Maurice e até mesmo a metáfora de seu desfecho são apenas colocados pontualmente e não desenvolvidos durante a trama. Em outras palavras, o objeto a que se refere o título é apenas relembrado poucas vezes, e não como objeto-símbolo que faça parte da narrativa como algo maior, o que dificulta ainda mais o espectador desvendar o sentido da frase.

Ainda, como se sabe, o longa se trata de uma história real, ou mesmo adapta uma realidade descrita em um livro, o que pode ser desafiador para alguns realizadores, ainda mais quando se tem cinco roteiristas no mesmo projeto. Isso é visível em Os Meninos Que Enganavam Nazistas pela quantidade de informações e contextos históricos que se tenta lidar. O lado positivo é que podemos testemunhar a jornada inteira dos meninos Joffo, sob a perspectiva de Joseph, mas o lado negativo é tentar desenvolver de maneira clara e completa todos os assuntos que explora. Assim sendo, a decupagem irregular do diretor faz com que alguns momentos sejam menos impactantes do que outros, como, por exemplo, a cena da caminhada em que Joseph machuca o pé, a qual dura apenas alguns minutos e, portanto, não conseguimos sentir a exaustão dos personagens ou; a confusa “separação” dos irmãos que passam a trabalhar em diferentes estabelecimentos e, deste modo, Maurice acaba se envolvendo na Resistência francesa (que é muito pouco desenvolvida) ou; a inesperada mas pouco tensa emboscada dos irmãos por um homem que lhes conduz de um internato até a cidade (e mesmo os irmãos retornando à escola posteriormente, o assunto jamais é enfrentado novamente) ou; a ponta solta que se deixa do amor de infância de Joseph, Françoise (Leclère).

Mesmo assim, não se pode negar a força do cineasta em extrair momentos que equilibram perfeitamente os momentos de suspiro tranquilo com seu tom cômico e, ainda, os momentos dramáticos que são acentuados pelas incertezas que traz a guerra e a claustrofobia mediante a pressão que não somente o exército alemão fez perante a sociedade francesa e suas vítimas, mas também pelos próprios nacionalistas franceses (estes últimos sendo muito tardiamente desenvolvidos, infelizmente). Destaco aqui as cenas, onde com um alívio profundo Joseph grita e declara sua identidade: “eu sou judeu” que até então era duramente reprimida, como se estivesse revelando algo escondido desde nascença, e, no mesmo instante, com o intuito inclusive de salvar aqueles que lhe acolheram em uma ironia maravilhosa e inversão de papeis, nas quais os radicais nacionalistas passaram a sofrer logo em seguida à libertação da França do nazismo. Porém, mais importante que isso, é a forma como Joseph amadurece e percebe que, independente de religião ou raça, a discriminação com o ser humano – de modo universal – é abominável.

Uma das lições mais preciosas de vida, Os Meninos Que Enganavam Nazistas pode não ser uma obra perfeita, mas que ainda merece ser contada e ser vista.

 

Gabriella Tomasi é crítica de cinema, graduanda em letras, membro do coletivo de mulheres críticas de cinema – ELVIRAS, e possui o blog Ícone do Cinema

Deixe uma resposta