Entrevista com o diretor artístico Elísio Lopes Jr.
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Entrevista com o diretor artístico Elísio Lopes Jr.

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Elísio Lopes Jr

Elísio Lopes Jr

“Eu fiz bilheteria, fiz operação de som, de luz, varri palco… Tudo isso faz de mim a pessoa que sou hoje. Ciente da importância do que faço, da importância do meu trabalho para o mundo, e sou feliz com minhas escolhas.” (E.L.Jr.)

Por Elenilson Nascimento

Sabe essas pessoas que você quer levar para casa embrulhadas em papel de presente? É exatamente assim que muita gente se sente ao encontrar o diretor artístico Elísio Lopes Jr. Reconhecido pelo talento, simpatia, educação, inteligência e versatilidade, além de ser uma delícia de pessoa, este artista baiano, um quarentão com cara de adolescente, vem construindo uma carreira impressionante, fruto de muito trabalho em várias frentes.

O rapaz já fez de tudo, já foi bilheteiro, operador de som e luz, cenógrafo, articulador, multimídia, até participou da co-direção do recente DVD de Ivete Sangalo em Trancoso, além da direção do Prêmio Braskem de Teatro, da reinauguração da Concha Acústica do TCA, responsável pela criação estética do DVD de estreia da carreira solo de Saulo, e seu nome também ficou à frente do concerto Pérolas Mistas (espécie de prévia do Afródromo), e de ter produzido um documentário que marcou o lançamento de uma campanha mais do que necessária contra intolerância religiosa, da Fundação Palmares, junto com o Coletivo Criativo N, equipe que acompanha o artista.

Elísio começou a sua carreira escrevendo – para teatro e programas de tevê, mas já teve encontros com a música em trabalhos de criação na área de eventos, sistematizando os conteúdos e dando uma forma àquilo que se mostra em cena. “O teatro tem dificuldade de vender o que tem de melhor, e muitos artistas criam seus espetáculos pensando no que deseja dizer, não no que é preciso dizer”. E é dessa maneira bem direta que Elísio se desnudou um pouquinho neste papo bem (in)formal, mesmo que o Google tenha dificultado um pouco o nosso contato.

Para este diretor artístico, os artistas deveriam ser forçados a pensar em um formato de show que vá além destas fórmulas consolidadas pelos ensaios de verão e camisas coloridas na capital baiana. “Tive a oportunidade de dirigir grandes estrelas do Brasil, atuar ao lado de figuras profundamente midiáticas, e nenhuma delas é minha amiga pessoal”, afirmou. Para ele, o déficit de boa educação, espaços estruturados e mais profissionalismo não podem ser prerrogativas para o descuido.

À frente da direção do show de Maria Bethânia, que reabriu a Concha Acústica do TCA, no ano passado, por exemplo, Elísio chegou a dizer que “foi um prazer ter ficado com a melhor parte”, mesmo assim, ao contrário da grande massa de produtores culturais em Salvador, o rapaz não é nenhum pouco deslumbrado, muito pelo contrário, é uma dessas pessoas que você faz questão de querer convidar para um café todo os dias, mesmo você não gostando de café. Mas não pensem vocês que a trajetória dele foi esse mar de rosas cheio de artistas famosos. Nesta entrevista, ele fala um pouco de preconceito, racismo, essa política assistencialista, falta de oportunidades para muitos, a máfia dos editais e, principalmente, sobre o fazer arte. Um cara simplesmente maravilhoso!

Elenilson – Como o teatro entrou na sua vida?

Elísio Lopes Jr. – Como expectador. Quando criança eu tive acesso ao teatro como minha principal opção de lazer. Sempre uma tia, uma prima, alguém para me acompanhar e pude frequentar bastante teatros como o Maria Bethânia, Espaço Xis, Teatro Vila Velha, além de assistir a grandes atores que depois se tornaram meus colegas. Foi muito importante para mim.

Elenilson – Você parece ser a pessoa mais bem comportada, mais enturmada e mais de bem com a vida que eu conheço, mas o que ainda lhe aborrece numa cidade provinciana, atrasada e metida a moderna como Salvador?

Elísio Lopes Jr. – Me irrita profundamente essa mentalidade tacanha: “Eu deixo de ganhar 100, para você não ganhar 1.000”. Muitas vezes o que mais incomoda não são as próprias faltas, e sim os ganhos dos outros. Penso totalmente diferente. Gosto do coletivo, não quero vencer sozinho. De nada vai adianta chegar no topo e não ter com quem dividir. É chato não se reconhecer nos outros.

Elenilson – Já dá para imaginar – num futuro onde os gêneros e papéis sexuais estarão abolidos tanto nos palcos como fora deles?

Elísio Lopes Jr. – Não acredito. Aposto que os gêneros serão multiplicados e as identidades mais “normalizadas”. Mas vivemos processos cíclicos. Tempos de luz e tempos de sobra. A vida alheia ainda é uma diversão para muita gente. E racismo e homofobia são doenças contra as quais ainda não encontramos os antídotos.

Elenilson – O motivo da pergunta anterior é porque, no Brasil da intolerância e do atraso, até plateia é linchada na sessão de cinema. Tô falando de “Praia do Futuro”, de Karim Aïnouz, onde o Capitão Nascimento virou, segundo uma colunista do A Tarde, uma espécie de “barbie-salva-vidas”. Não me espantou nada essa reação burra de ignorância num país que acha que ser macho é ter rola grande e nenhum cérebro. Como você ainda encara essas manifestações de intolerância, você acha que isso tudo é uma consequência “natural” da nossa criação machista, ou da perpetuação de temas sexistas como “Tropa de Elite 2”, quando o tenente-coronel já dava indícios de que ia “afrouxar a … disciplina”? (*piadinha ridícula e vinculada no mesmo veículo da província)

Elísio Lopes Jr. – Existem idiotas em todas as profissões, e com todas as opções sexuais. Não vejo isso como mérito de nenhum grupo específico. A falta de assunto também é uma doença grave. A ignorância quanto às verdades alheias também é violência. Enquanto “olhar o outro” não for um prazer, as violências continuarão a aliviar a solidão.

Elenilson – E falando em preconceitos, há no Brasil uma hierarquia de sujeitos que têm as cores da pele bem definidas, como se cor de pele fosse algo que pudesse qualificar alguém. E na Bahia, no meio cultural, principalmente, a coisa não é muito diferente. Comenta.

Elísio Lopes Jr. – Minhas primeiras experiências com o racismo ocorreram na Bahia. O pior é que fora de Salvador, acreditam que aqui isso não ocorre. Todos somos racistas a partir de tudo o que aprendemos no dia a dia. Lembro claramente da expressão: “Eu não sou sua empregada!” É algo muito popular e dito sem culpa. Mas é de uma crueldade, de um racismo tão absurdo, que só me faz ter certeza de que todos estamos mergulhados nessa maré até o último fio de cabelo. Esse assunto deveria interessar a todos, e é nosso papel insistir nisso. Brancos e negros precisam falar sobre raça. Branco também é raça! Raça só existe em relação ao outro. Sem o branco não há o negro. Enquanto essa aproximação não for honesta, não será possível um “acordo” de respeito mútuo. Eu não acredito em democracia racial! Não somos iguais e nunca seremos. Nossa história é diferente, e história é memória física!

Elenilson – Somos sexuais, e não hetero, homo, bi, tri ou quisexuais. E esse olhar vem de algum tempo, era uma reivindicação nossa, lá nos anos 60/70. Por que você acha que existe hoje essa urgência em categorizar as pessoas em siglas? Por que nos palcos também existem estes olhares preconceituosos e rasos? 

Elísio Lopes Jr

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Elísio Lopes Jr. – Quem faz arte é o indivíduo, e ele só consegue criar a partir do que ele acredita. É preciso saber escolher a arte que lhe interessa. Sobre a questão de gênero, a arte reflete o mundo que nós temos. E o nosso mundo não está muito bonito!

Elenilson – Quem lê o livro “Diário de Corte”, de Paulo Francis, coletânea de textos publicados na Folha de 1976 até 1990, percebe que o Brasil que ele comentava lá de NY mudou muito pouco. Era indiscutível, para nós, que o Brasil seria brilhante pós-89, porque seus problemas eram os militares, a censura e a repressão. O que você acha que deu errado?

Elísio Lopes Jr. – Nada “será brilhante”. O que é brilhante é o que foi brilhante. Discordo dessas projeções!

Elenilson – Você como um competente agitador cultural, um dos poucos que ainda pensa, como percebe Salvador anacronicamente sendo uma cidade cosmopolita, favelada, fedendo a mijo e extremamente pouco vanguardista em relação aos seus costumes, valores consumíveis, olhares de transposição?

Elísio Lopes Jr. – Acho que a nossa militância envelheceu! Nossas bandeiras estão surradas. Não sabemos para onde caminhar! Os ícones são os mesmos há 50 anos. Ninguém superou Gil, e nada é mais revolucionário que o trio elétrico. Enfim! Estamos parados no século passado. Talvez porque nada será mais tão hegemônico. As verdades de hoje são mais efêmeras, menos uniformes. Hoje é muito mais difícil ser Gilberto Gil!

Elenilson – Percebo que nos seus textos tem um peso relacionado à religiosidade afro-brasileira. É proposital? Como chegou a este tema?

Elísio Lopes Jr. – Buscando a minha fé. Ainda não encontrei a casa dela, mas acredito na fé alheia.

Elenilson – Eu já fui um frequentador assíduo dos teatros de Salvador. Já me divertir horrores com Los Catedrásticos, 1,99, Fanta Maria e sua turma, Amor Barato, Fora da Ordem e muita coisa do XVIII. Hoje em dia não tenho um pingo de paciência para essa produção “acarajé com cocô” que tem sido produzida e vendida como algo muito bom. A classe artística me enoja, um bando de arrogantes que acha que teatro é local para mostrar o quanto são importantes. Aparentemente, quem faz teatro hoje parece viver num mundo de bolha de sabão: produzem espetáculos para serem aplaudidos de pé entre os próprios amigos. Comenta. 

Elísio Lopes Jr. – Paulo Dourado me disse uma frase nos anos 90 que trago para vida: “Elisio, se todos os teatros da cidade forem fechados hoje, quantos dias você acha que vai demorar para a cidade do Salvador descobrir isso?”  Isso nos dimensiona, nos localiza, e nos faz perceber o peso do nosso trabalho. Arrogância é perda de tempo. O artista é um carente, ele quer aprovação diária. Precisa da sua emoção, precisa do seu sorriso, e essa busca é uma dor diária. Principalmente quando o público não vem. Eu fiz bilheteria, fiz operação de som, de luz, varri palco… Tudo isso faz de mim a pessoa que sou hoje. Ciente da importância do que faço, da importância do meu trabalho para o mundo, e sou feliz com minhas escolhas. O mais importante é cada um saber o porque da sua arte. Sabendo porque, tudo fica mais fácil!

Elenilson – É um equívoco culpar a Cia. Baiana de Patifaria pela predileção do público sotero em consumir comédias, mas as pessoas não frequentam tanto os teatros porque vida cultural em Salvador é cara! Saiu na noite, respirou, você não paga menos que 100,00. Como sobreviver de teatro em Salvador?  

Elísio Lopes Jr. – Não concordo que a vida em Salvador seja cara. Espetáculos de R$10 reais estão sem público. Restaurantes caros estão lotados. O enigma é saber o peso e a medida da balança do público. O que é relevante? O que ganho com isso? O teatro tem dificuldade de vender o que tem de melhor, e muitos artistas criam seus espetáculos pensando no que deseja dizer, não no que é preciso dizer. Ninguém faz um grande sucesso. O sucesso acontece e faz de você uma pessoa melhor, ou pior.

Elenilson – Como você identifica um texto de um autor bacana num momento em que projetos de autores anônimos estão sendo abandonados por serem considerados ineficientes em detrimento de peças feitas por atores globais de Malhação? 

Elísio Lopes Jr. – A tevê precisa ser respeitada. Nem todos os artistas de tevê são descartáveis. Faço tevê há 10 anos, e só produzo coisas que me dizem algo. Conheci gente de muito valor, tentando traduzir arte através de um veículo de massa como a televisão. É uma missão muito difícil, desafiadora e muito digna. Mas subir num palco não tem “corta”, não tem edição e demanda verdade. O teatro tira as máscaras!

Elenilson – A contrário do que os gestores culturais alardeiam, editais não funcionam na Bahia. Servem apenas para continuar produzindo o mais do mesmo da panelinha de lambe botas de sempre. Quer publicar um livro, produzir uma peça ou um filme? Então, participe de editais de outros Estados, mas aqui a coisa não funciona. Se burocracia servisse para alguma coisa, não existia corrupção no Brasil. Comenta.

Elísio Lopes Jr. – Edital é um ato político que não deu certo. Ninguém vive ganhando um salário por ano. As comissões não dão conta da diversidade criativa. Acho um procedimento velho, covarde e que esconde na verdade um buraco muito maior: a falta de uma política mais complexa, como é a cultura.

Elenilson – Numa entrevista, Roberto Sant’Anna disse, entre discussões sobre internet, mercado cultural decadente, que “um Caetano irresponsável disse que a grande revolução baiana é o Psirico”; “que o Alavontê é um desespero de pessoas que fizeram sucesso e não fazem mais”; “que a Tropicália é uma coisa de Tom Zé, mais do que qualquer outro” e que “o teatro da Bahia carece de boas cabeças”. Você concorda que existe muita gente que deveria trabalhar com porcos ao invés de fingir produzir artes?

Elísio Lopes Jr. – Não. Quem com porcos se junta, farelos come!

Elenilson – Nestes tempos de democracia de vitrine, ler manchetes alarmistas faz mal para o coração, do tipo: “Os black blocs voltam à grande mídia”?

Elísio Lopes Jr. – Faz parte da guerrilha por clicks e curtidas!

Elenilson – Para o Estado é sempre mais fácil, mais cômodo, mais limpinho, alienar, deseducar, matar ou deixar morrer os miseráveis que enfrentar ano após ano os graves problemas sociais que temos. Como você encara essas coisas?

Elísio Lopes Jr

Elísio Lopes Jr

Elísio Lopes Jr. – Não consigo ir além da vergonha. Cada povo tem o político que merece. Eles nos representam, e há anos sabemos quem são. Então somos eles e isso é triste.

Elenilson – O Brasil desconhece a produção cultural feita na Bahia. Eu sinto um descaso com a cultura do audiovisual, da literatura, da dramaturgia baiana. Sinto certa indigência. As pessoas ainda acham que na Bahia só existe axé e pagode. Sinto a Bahia muito aquém. Comenta.

Elísio Lopes Jr. – Acho que isso é muito irregular! Os artistas estão desenhando suas histórias de uma maneira menos coletiva. Não há movimento coletivo que dê conta da criação de hoje.

Elenilson – Qual a plateia mais difícil de cativar? Os amigos da panelinha ou os desconhecidos?

Elísio Lopes Jr. – Os colegas de classe.

Elenilson – Escrever é uma benção ou uma maldição?

Elísio Lopes Jr. – Varia do dia. Céu e inferno!

Elenilson – Você tem, como uma espécie de vocação teatral, a epopeia de democratização da arte, da dramaturgia – como foi o caso da leitura daquele seu texto sobre racismo, lá na Igreja da Barroquinha. Como se embrenhou nesse desafio, visto que estes temas são pouco tratados nos palcos de cidade?

Elísio Lopes Jr. – Me pertence esse assunto. São negros, nordestinos e tenho uma história que não pode estar fora da minha escrita. Não dá pra separar.

Elenilson – Você já manteve desafetos nos seus (des)caminhos?

Elísio Lopes Jr. – Sim. Claro. Não muitos, mas extremos. Conviver com tantos egos é um brejo de sapos berradores!

Elenilson – Falar de arte em Salvador é uma coisa perigosa. Nessa cidade rasa, muitos pseudoartistas acham que o que estão fazendo no seu círculo é suficiente. Criticar uma peça, por exemplo, é quase um pedido de ser enquadrado por estes numa penitenciaria! Resultado: todo mundo diz que gosta do texto, do ator, do diretor e etc… vide o Prêmio Brasken. Todos querem aparecer sorridentes ao lado de uma Wanda Cheise e ser chamado de celebridade na Rede Bahia. Eu chamo isso de síndrome Dorian Gray. Paulinho Boca e Márcia Short foram uns dos poucos que vi bradar contra essa política da boa vizinhança. Como você manifesta a sua inteligência na convivência com esses bajuladores do lugar comum?

Elísio Lopes Jr. – Não convivo.  Eu trabalho! Essas coisas de figurar pelas relações é brega. O bom é ser referência para alguém pelo que você faz. Tive a oportunidade de dirigir grandes estrelas do Brasil, atuar ao lado de figuras profundamente midiáticas, e nenhuma delas é minha amiga pessoal. Nenhuma delas anda na minha casa, nem no aniversário das minhas filhas. É preciso não confundir o sucesso do outro com o seu.

Elenilson – Gregório de Matos já definiu a Bahia como um burgo em que se esquadrinhava a vida alheia, claro que destacando a vocação de província que existe nos recantos baianos. Se concorda, justifique, se discorda, por favor, apresente uma réplica. 

Elísio Lopes Jr. – A vida do outro é irresistível! Não há o que questionar. Aceita e fecha a cortina!

Elenilson – A chamada militância virtual do PT, treinada feito cães de guarda pela falconaria do partido para perseguir e difamar desafetos políticos, anda caçando qualquer um do contra de forma implacável. Lembrei da peça “Brasis”, de Aninha Franco, mas sinto muita falta de outros espetáculos sobre o assunto. O que você acha desse modismo de tantas comédias ao mesmo tempo agora no teatro da Bahia?

Elísio Lopes Jr. – Isso não é novo. Todo mundo quer rir. Tenho a impressão que as pessoas só esperam apagar a luz para começar a rir desesperadamente. Tenho muita dificuldade com comédias, mas acho muito nobre!

Elenilson – Como você se descreveria, já que cabem em você facetas aparentemente tão antitéticas: dramaturgo, escritor, agitador cultural, alguém que comunga da arte como algo libertário?

Elísio Lopes Jr. – Acho que não tenho definição pois sou uma obra em processo. Quero ter o saldo de um cara bacana! Nada além.

Elenilson – Uma provocação para alguém que pode ser muito dissonante: pátria cabe em pés?

Elísio Lopes Jr. – Calçados com chuteiras Nike.

Elenilson – Você não está entre os massivamente citados em redes sociais. Nem sequer tem a autoria de frases, poemas e crônicas atribuídas a outros nomes, como acontece frequentemente no meio virtual. Mas sentimos tanto a falta de gente como você, que tem o que dizer, num canal como o IRDEB – que parece que parou no tempo, mesmo em HD – pois, as emissoras de Salvador parecem um emaranhado de gente retardada que não sabe o que dizer e tenta ser legal. Então, para alguém que dirigiu prêmios importantes e até a reinauguração da Concha Acústica (*aquele anjo quase pelado foi show!) já conseguiu estabelecer uma premissa ou entender a América Latina ou um sentido de uma Pan América?

Elísio Lopes Jr. – O que somos é Pan! Pan-África! Pan-América, Pan-Feira-de-Santana. Meu negócio é misturar linguagens. Tenho mestres fundamentais na minha vida: Zebrinha, Jarbas Bitencourt… Crio melhor em grupo, no diálogo. Por isso ser Pan é o que nos define!

Elenilson – Depois que a pessoa morre, falamos: “coitado”. Às vezes é heróico. Para mim, cotidiano é o grande tesouro! Ortega y Gasset dizia: “Adimirar-se daquilo que é natural é que é o bacana”. Mas você é o tipo que acha que a morte é que dá um perfil para todos nós ou apenas entropece?

Elísio Lopes Jr. – As ações dizem quem é o homem, e a obra quem é o artista. Faça o seu, bem feito, e as flores virão… Em vida ou na morte.

Elenilson – O que ainda lhe inspira a escrever?

Elísio Lopes Jr. – Isso é muito variável. Escrita é choro e riso. É nó na garganta e risada.

Elenilson – “Cão chupando manga” é quase poesia, disse Mia Couto no TCA sobre a pobreza de linguagem de certos autores. O que você pensa de certas criaturas que usam expressões que só estão carregadas de raiva e pouca ironia, mas que lembram também um certo perigo do humor?

Elísio Lopes Jr. – Não tenho medo do humor, nem do popular. Acho que a nossa falta de pudor enquanto baianos e brasileiros é a melhor piada.

Elenilson – O que esse tal de Elisio Lopes ainda falta fazer, além de adotar os perdidos e desamparados como nós seus admiradores clandestinos?

Elísio Lopes Jr. – Putz! Criar junto com todo mundo. Tentar fazer coisas que a gente se orgulhe. Nós vamos embora e o que fizemos nesse mundo vai ficar. Falta emocionar o outro!

Elenilson – A partir de sua trajetória pessoal, como você vê o desenvolvimento do campo profissional, literário e acadêmico no Brasil, levando-se em conta as diferenças desse processo nos diferentes Estados, principalmente numa província atrasada como é o caso do nosso país?

Elísio Lopes Jr. – Somos utopia pura! Sem mais.

Elenilson – Por que o teatro tem que se confinar às paredes frias e caras de certos palcos?

Elísio Lopes Jr. – Porque o teatro é frágil e vaidoso. Muitas vezes acredita na própria ficção. É preciso levar o teatro para quem merece. Enquanto não tivermos o teatro nas escolas, na raíz da educação do ser humano, a nossa capacidade do lúdico seguirá limitada à tevê.

Elenilson – Antes de mais nada, queria agradecer por sua gentileza em tirar um tempinho para esse entrevista. Conta logo sobre qual o lado bom e ruim de ser um pensador num país onde a grande maioria não tem acesso a uma boa educação.

Elísio Lopes Jr. – Ser um triste no final de tudo. Não conseguir partilhar o conhecimento é saber do isolamento. É muito triste não ver a sabedoria popular reconhecida, não ver olhos brilhando diante dos nossos artistas. Nosso momento é muito difícil. Ética é base de tudo. Perdemos a base. Como reencontrá-la? Olhando para dentro e reavivando nosso desejo de ser feliz! Obrigado a você pela oportunidade!

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina

fotos: divulgação

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