Crítica: "O Filme da Minha Vida" é ruim, bom ou maravilhoso? | Cabine Cultural
Cinema Críticas Notícias

Crítica: “O Filme da Minha Vida” é ruim, bom ou maravilhoso?

O Filme da Minha Vida

“Dos três filmes da carreira de Mello como diretor, este é, definitivamente, o mais deslumbrante deles. Com uma narrativa que traz um ar de homenagem aos grandes épicos do cinema clássico”

Por NoSet

Se há algo que me entristece como alguém que gosta de cinema é ver a nossa produção cinematográfica sendo muito mais reconhecida nos festivais internacionais do que pelo nosso próprio público. Basta notar que, a não ser por um círculo mais restrito de cinéfilos, o público geral pouco conhece o cinema brasileiro pós-retomada, aquele iniciado a partir dos anos 2000 e que deixou para trás os tempos negros do início da década de 1990. Sim, todos sabem sobre Cidade de Deus e Tropa de Elite, mas fora esses exemplares que conseguiram se aproximar de um formato mais familiar, os belos “dramas de festival” ficaram restritos… bem, aos festivais. Fora o óbvio problema de distribuição, a verdade é que o público quer mesmo é uma indústria que seja capaz de entregar filmes de gênero toda semana. Isso, claro, não é ruim e eu mesmo compartilho dos mesmos anseios, mas virar o rosto para a arte produzida pelos nossos cineastas de festival só nos priva dos ótimos talentos que temos por aqui.

Se há um deles que definitivamente se provou uma joia brasileira, é Selton Mello. Com uma carreira de ator já admirável, tem se mostrado, com grande consistência, ser um realizador igualmente talentoso. Após o bom Feliz Natal, dirigiu o belíssimo O Palhaço, uma tocante história sobre um artista de circo que busca reencontrar a paz interior. A habilidade em mesclar tons de comédia com uma grande sensibilidade dramática tem se tornado sua principal característica e, não com surpresa, a mantém com maestria no seu 3º longa, O Filme da Minha VidaContinua a leitura

UCI OrientCinemas



3 respostas para “Crítica: “O Filme da Minha Vida” é ruim, bom ou maravilhoso?”

  1. O FILME DA MINHA VIDA

    Os trilhos. O trem. Estrada do trem. O barulho do trem nos trilhos. A fumaça. Encruzilhada… A estrada de terra. O mato na beira da estrada. Árvores na estrada. Poeira… “Sem considerar meus dias que escorriam tempo…”
    O homem. O pai. O homem pai com o menino na bicicleta. A bicicleta na estrada de terra. As mãos do pai do menino segurando a bicicleta. O menino equilibrando, indo, indo… “ Acariciava o tempo e brincava de viver…”
    Os olhos dela. Os olhos dele. Eles. Na ponte, na estrada, no lago, na fotografia, no cinema, no quarto… “ Os olhos procurando o céu…”
    Não há uma cena nesse filme que não se vista de poesia. Não há! Não há cena nesse filme que necessite de palavra. Todas as cenas “murmuram” ondas de embelezamento. Aliás, embriaga-se com a beleza de cada cenário, personagem, mobiliário, natureza e canção. A explosão da trilha sonora arrebata e arrebenta o coração. Tudo é finamente apurado para emocionar. Mas sem dramas exagerados ou romances açucarados, A mulher que ainda ama o homem que foi embora, sentindo sua presença no pomar; o filho que ainda ama o pai que foi embora e ainda espera resposta. O simples mora nos pequenos pedaços bordados pelo diretor e seu olhar de poetizado. O filme é uma declaração de amor infinita.
    Quando Boldrin, com seus olhos pequenos de azuis, nos encara no grande telão, engulo lágrima de saudade que vai longe… do ator. Vive o maquinista que ama o que faz. Imediatamente, lembro de meu pai. Da vida dedicada aos trens, de seus trilhos, suas viagens com filhos pequenos e mamãe; e de suas viagens para longe de nós… “ Alimentei tantas esperanças que bateram asas…”
    Deixo por último a paixão avassaladora pelo Johnny Massaro e seus tão poucos anos de vida transbordante de talento. Tudo é lindo e completo: gestos, fala e silêncio. O olho molhado da lágrima que não cai, derrama. Assim como seu personagem, flutuei. “ Ontem ainda eu tinha 20 anos…”
    Em tempos tão falidos de amor, O Filme da Minha Vida é bálsamo. A vida do jeito que ela é, só que muito melhor.
    E no caminho que separa uma vida da outra, um homem de uma mulher, um pai de um filho: uma linha férrea, um trem, um maquinista sonhador e a esperança… “ Sem considerar meus dias que escorriam tempo…”

  2. NÃO GOSTEI,NÃO INDICO. FILME CHATO SEM UMA HISTORIA, CHEIO DE MAU EXEMPLOS. PERDI MEU TEMPO E DINHEIRO. POR SER UM FILME DE SELTON MELLO, ESPERAMOS ALGO MELHOR, MAIS ATUANTE!

  3. Acabei de ver “O Filme da minha vida”. Um trocadilho à altura do nome. Se fosse apenas uma obra de arte plástica, como um quadro ou escultura, exclamaria um “Parla!”. Mas como é cinema, onde por querer ficamos presos numa sala escura gastando duas horas da nossa vida prestando atenção na vida dos outros… citando a fala de Paco personagem interpretado por Selton Mello, ator e diretor do longa…. acredito que esse seja não só um filme completo, mas uma obra de arte completa. Um Cinema Paradiso de humanidade embebido em prazeres e em perdão.
    “O homem sabe que é homem. O porco só é porco.” Disse Paco, mas ouso, entre grunhidos humanos, incluir nessa frase mais uma distinção… o porco jamais imaginaria ser homem como o homem imagina ser porco. De fato, é um filme filosófico. Paco era um porco de consciência amplificada, como o camundongo de Dostoiévski em Notas do Subsolo. E talvez o “belo e o sublime” tão buscados na produção cinematográfica sejam utopias da vida real, onde todo inalcançável vira arte.
    Um quê de crítica à limitação da capacidade de imaginar imposta pelo ensino escolar foi escapada pela personagem interpretada por Bruna Linzmeyer num filme muito ameno, com olhares menos inquisitores que compassivos. Diria até que seja um filme complacente que perdoa a miséria humana. Numa filosofia simples que distingue pouco mas tenazmente o homem do animal. Através de cortantes zonas limítrofes que são a consciência de si e dos outros.
    Uma fresta na janela me lembrou Victor Grippo em Inhotim e sua obra “La intimidad de la luz en St Ives, 1997”. E um enquadramento tão redondo que faz parecer fluar o protagonista intepretado por Johnny Massaro que alegre se rende ao gozo da sétima arte logo após assistir ao faroeste Rio Vermelho… Vi Tony deslizando enquanto o mundo trotava e essa visão apreciei como algo muito novo e envolvente.
    Num outro momento, o olhar do personagem interpretado por Rolando Boldrin compassado com a foto revelada foi de uma sutil perfeição que preenche cirurgicamente a passagem de uma cena a outra. O trem e o maquinista como metáfora e paradoxo de Caronte é de uma candura que injeta esperança de final feliz. Assim como o spoiler do filme pelo filme logo nos primeiros minutos fariam crer.
    As cenas deslizam imbricadas. Como na interpretada por Ondina Clais, tendo o êxtase interrompido pela realidade. As mãos de Sofia apenas poderiam tocar o que se tinha, a ordenha de uma vaca e a barra contorcida do seu vestido, e não os pensamentos e sonhos ardentes alimentados pela saudade do marido… Metáforas?
    O filme é úmido quase feito “Os dois irmãos” de Milton Hatoum. Mas otimista. E sim! é cheio de metáforas, como a que envolve bicicleta e moto representando etapa em que Tony evolui como agente desencadeador de fatos. O “sou homem” machadiano, de Bentinho, parecia cobrir a cena em que o personagem observava a dança das meninas no pátio da escola.
    Senti-me muito envolta da fumaça de cigarros. Mais que a fumaça da locomotiva… A década de 60 teve seus maus hábitos ao extremo… E esse é o cheiro do filme misturado a perfume de pomar, vinho, queijo e salame.
    Por vezes, fui transportada à França romântica, dona das luzes. Na cadência da língua na lição ensinada, na poesia declamada e nas melodias que invadiam feito o sol invade as noites. Do DNA de Vicent Cassel o filme alcançou uma mistura muito rica e real.
    O longa foi um encontro agradável com a conterrânea Vania Catani… Delicadíssima e marcante produção. Tal como o vinho que perfuma narinas da alma, abre papilas do ser como se fossem cortinas e janelas, enchendo de gozo sem pressa o corpo, “O filme da minha vida” merece ser tomado. Deu vontade de aplaudir depois da tatuagem que Selton Mello cravou na tela “aos meus pais”.
    Bom, escreveria um livro, mas não posso dar mais impressões do que já dei. Mais pessoas devem senti-lo. Vê-lo é sentar-se à mesa do cinema gourmet numa concepção sinestésica.
    Se Chico Buarque fez ” Tua Cantiga” sem ver esse filme, imagina o que pode vir por ai… Não quero privar gênios dessa experiência rica logo no início, a invadir o meio e a transcender no fim!…
    Ps.: Acho que toda obra escapa à vontade do autor. A força que toca o receptor deve ser livre. Quanto menos opiniões tiver quando for assistir ao filme mais pura será a sensação que ele te causará. Quando há uma contaminação, seja por críticos ou pela propaganda, a reação do receptor é prejudicada. Assisti ao filme de forma despretensiosa, até pensei em assitir a outro… E foi extasiante. Em tempo e paradoxalmente: se tiver sido prejudicado o primeiro contato, “O filme da minha vida” apresenta uma espécie de imunidade a spoiler… Porque o roteiro é sensitivo. Se em algum momento for dado o mergulho; no cenário, na música, no estranhamento ou no entendimento artístico… a obra te toca e não crie resistência! Entre na onda! Jogue fora o escudo e os preconceitos! Seja você a continuação da obra. Qualquer que seja sua experiência com esse filme sua descrição será única e dirá mais sobre você do que sobre a intenção da produção ou direção do filme. Isso me impressiona muito. Pare e repare. Não é demais? Quantos filmes existem que te incluem como coautor?
    #ofilmedaminhavida

Deixe uma resposta