Crítica: "O Estranho Que Nós Amamos" de Sofia Coppola, um dos filmes mais esperados do ano | Cabine Cultural
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Crítica: “O Estranho Que Nós Amamos” de Sofia Coppola

O Estranho Que Nós Amamos

Daniel Wu as Sunny – Into the Badlands _ Season 2, Episode 3 – Photo Credit: Antony Platt/AMC

Dirigido e roteirizado por Sofia Coppola. Elenco: Elle Fanning, Kirsten Dunst, Nicole Kidman, Colin Farrell, Angourie Rice, Addison Riecke, Oona Laurence, Emma Howard

Por Gabriella Tomasi

O Estranho Que Nós Amamos, novo longa dirigido pela Sofia Coppola traz uma releitura da versão original estrelado por Clint Eastwood e dirigido por Don Siegel em 1971. Interessante observar, que a antiga versão fora durante criticada pelo seu conteúdo extremamente machista e preconceituoso, o qual muito embora exista uma abordagem psicológica executada entre papéis de abusado/abusador, infelizmente colocava a mulher em uma condição bastante questionável, do ponto de vista moral, haja vista sua temática de incesto, abuso sexual, pedofilia, ente outros. Mas graças ao bom talento da filha de Francis Ford Coppola, mesmo que esta versão não consiga almejar o mesmo impacto e choque em relação à sua trama, a cineasta consegue desenvolver um tipo de tensão muito mais refinada e sutil de maneira a envolver o espectador por meio da instigação, ao invés de explorar o contexto fabusleco e do absurdo como outrora, embora que, para tanto, tenha que descartar muito do seu material original. Devo esclarecer antes de começar a dissertar sobre o filme que, ainda que realizada ao início, o objetivo neste presente texto está longe de traçar uma comparação detalhada acerca de ambas versões, pois se tratam de duas visões bastante diferentes.

Nesta versão, durante a Guerra Civil dos Estados Unidos, na região sulista, uma garota de 11 anos chamada Amy (Laurence) encontra, enquanto colhe cogumelos no local, um soldado da União (da região norte) chamado John McBurney (Farrell), ferido em meio à floresta. Não sabendo ao certo como agir, ela acaba conduzindo-o até a escola para meninas comandada por Martha Farnsworth (Kidman), a professora Edwina (Dunst) e mais quatro meninas para que ele possa se recuperar.  Coppola então, vencedora na categoria de melhor direção no Festival de Cannes em 2017, faz jus ao seu prêmio trazendo uma direção maravilhosa com planos que enaltecem o isolamento de todas as mulheres que residem no local, apenas pela condução do olhar de lado de fora que se aproxima das barras de ferro que cercam – e protegem – a grande mansão, assim como a constante vigia do perímetro enquanto testemunhamos grandes explosões da guerra no horizonte. A partir do acolhimento de um “inimigo”, o dilema entre as meninas se torna cada vez mais intrigante, até mesmo pela atração pela figura masculina colocada em xeque, despertando a vaidade delas na maneira de se vestir e de se portar, fazendo com que eventualmente todas questionem suas atitudes e suas emoções contrárias dessa rivalidade entre os Estados. Mas aqui, esse sentimento em relação ao homem surge de forma muito mais natural.

Nicole Kidman, como a dona da escola, faz um excelente trabalho em transparecer uma mulher forte e firme que, ao mesmo tempo, se confunde com certa frieza de caráter, quando por exemplo, em seu desfecho mórbido, Martha está mais preocupada com os pontos que as meninas dão na costura de uma toalha branca do que o que realmente está ocorrendo ali. A aproximação de sua personagem com o soldado é, portanto, desenvolvido de forma gradual e sutil, como por exemplo, o momento em que ela hesita em dar banho a John ou oferece bebidas para tomar em sua companhia: um escudo protetor que vai aos poucos se desintegrando em razão da presença masculina. Dunst, por sua vez, almeja aquele amor idealizado pela sua falta de experiência, que é traduzida inclusive em inocência. Já Amy trás uma admiração e amizade profunda por John; quase uma figura paterna. Elle Fanning, a qual interpreta Alicia, é uma das figuras mais interessantes, pois desde o início da trama desenvolve uma atração sexual advinda das fases de sua idade. É visível, portanto, a maneira como ela se posiciona nas tarefas e nas aulas, sempre com olhar preguiçoso e entediante, como uma autêntica adolescente que vê em John uma oportunidade de concretizar suas curiosidades. E, por fim, John, que traz uma figura cada vez mais enigmática acerca de seus reais propósitos, sem nunca perder o seu charme.

O Estranho Que Nós Amamos

O Estranho Que Nós Amamos

Com o intuito de intensificar todo o mistério que surge por trás das intenções de seus personagens, Coppola soube utilizar a contextualização de uma época por meio da fotografia para criar momentos de tirar o fôlego, como por exemplo, a ausência de luz elétrica faz com que a iluminação seja mais expressiva ainda, em razão dos altos contrastes em tom gótico (com certa influência no expressionismo alemão) e feixos de luzes das velas acesas, as quais criam ora sensações claustrofóbicas de John naquele ambiente, ora também para enaltecer as cores quentes de um jantar alegre, ou mesmo a paleta fria da escuridão em momentos que causam tristeza ou incerteza nos personagens. Isso sem mencionar a fotografia bastante natural dos jardins que lembram uma floresta e ressaltam o sentimento de isolamento em relação ao resto do mundo.

Quanto à sua direção, um cuidado extremo fora pensado para posicionar todas as personagens femininas nos planos de acordo com suas personalidades, transparecidas igualmente pela linguagem corporal das atrizes, sempre vistas em conjunto e fitando fixamente o único personagem masculino, imitando verdadeiros tableaux vivants, ou, em outras palavras, pinturas vivas para criar suspense. E a partir dessa abordagem é que se retira também um sentimento praticamente de obsessão em relação a John, somente pela maneira em que todas cantam e tocam música para ele, ou os olhares quietos enquanto o soldado engasga com a comida. Porque esta é a assinatura de Sofia Coppola: tudo implícito e dito com os olhos, com a maneira de portar, com a maneira de comer e, principalmente o componente forte do silêncio, o que diz muito mais do que os próprios diálogos do roteiro.

O Estranho Que Nós Amamos, em suma, é uma obra que resulta em uma experiência cinematográfica inigualável.

 

Gabriella Tomasi é crítica de cinema, graduanda em letras, membro do coletivo de mulheres críticas de cinema – ELVIRAS, e possui o blog Ícone do Cinema

2 respostas para “Crítica: “O Estranho Que Nós Amamos” de Sofia Coppola”

  1. filme imersivo, de ambientação, com imagens lindas. Os problemas se encontram no equilíbrio entre os momentos mostrados ao público e outros em que a informação é passada através de diálogos ou imagens óbvias demais.

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