Literatura: sou um escritor num país sem leitores na FLIPELÔ
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Literatura: sou um escritor num país sem leitores na FLIPELÔ

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O ator Jackson Costa direto do Programa Aprovado para o palco principal

O ator Jackson Costa direto do Programa Aprovado para o palco principal

“Nós escritores escrevemos… enquanto não beijamos na boca, enquanto não trepamos loucamente, enquanto o sol foge pela janela, enquanto a noite escorre pela lapela, enquanto a chuva ainda teima em não chegar.”

Por Elenilson Nascimento

O Universo macro e micro ainda é o meu quarto, a estante dos meus livros, minhas caixas de CDs, minhas pilhas de filmes, meus catálogos com reportagens antigas, minhas correspondências com autores mortos e nada é capaz de mudar essa sensação de vazio concreto, apesar de essencialmente abstrato, que toma meu coração! Mas já já quero cair na gandaía!

Desde muito cedo sempre tive inclinação encubada para a escrita. Coisa (quase sempre) desestimulada pela família, amigos e professores. Lembro que, em mais um dia banal lá nas minhas aulas inúteis no antigo curso ginasial no Severino Vieira, a professora perguntou aos alunos o que queriam ser quando crescessem. Fui a única voz destoante da classe. Todos respondiam: médico, dentista, advogado, enfermeira, policial, gerente de banco, político, jogador de futebol, etc. Fui o único que disse que desejava escrever. Vi os risinhos dos colegas e o ar de foca mofa da professora. Mas não me dobrei. Segui o meu sonho. Na verdade, sigo até hoje esse sonho.

Mas poder ser escritor é maravilhoso… é uma coisa única. Mesmo que os abutres e hienas de plantão no Facebook cobrem até para você publicar a sua respiração! Mas poder ser a razão do ódio desse povo de merda é, no entanto, algo que até então eu desconhecia… A vaidade desses pseudoartistas faz a gente imaginar se faz bem, se cai bem, se beija bem, se ilumina bem o cabelo, se deflora, se deflagra, se caga, se fode. Contudo, uma coisa eu sempre tenho certeza… de alguma forma, um livro é sempre inteligível para quem só compra livros cifrados, pela pessoa a quem o endereçamos.

A poetisa recifense Jair Martins “comendo” o livro “Diálogos Inesperados...”, de E. Nascimento

A poetisa recifense Jair Martins “comendo” o livro “Diálogos Inesperados…”, de E. Nascimento

Por outro lado, não é nada fácil ser autor em um país como o Brasil e ver seu livro publicado. E poucos leitores valorizando o seu esforço. Esta vidinha de escritor é um tédio com um “T” bem grande pois a maioria das editoras só se interessa pelos medalhões (ou então por livros de autoajuda, de putarias, de fofocas, de colinária e de vampiros tontos) ou por livros traduzidos (best-sellers que já vêm com propaganda feita em seus países de origem).

O autor nacional, principalmente, os nordestinos, de maneira geral, vê seu livro ser rejeitado, mofando em caixas em baixo da cama ou sendo vendidos por centavos. Várias editoras já devolveram originais meus na velocidade da luz… Um editor, nestes editais culturais que só privilegiam as panelinhas, disse o seguinte, na carta que enviou junto com o original devolvido: “Seu livro é muito bom. Tem grande potencial de venda. Mas, no momento, preferimos lançar traduções. Não gostamos de arriscar com autores nacionais. Agora, se quiser bancar a edição…” Era editor de uma grande editora, dessas que tem listinhas em revistas semanais e espaço cativo em programas da tevê local.

Outro dia, fui a uma das poucas, boas e grandes livrarias no Iguatemi, em Salvador (BA). Os livros nacionais estavam num cantinho escuro, pareciam escondidos, envergonhados. Como querem que esses livros vendam? Por fotossíntese? Por osmose? Ou abdução? Nas escolas e universidades, alunos não têm hábito de leitura, acomodados na pasmacera que virou a educação. Se seus professores não leem, imaginem a geração de alunos que estão formando… Vamos continuar coizando por aí!

O ator Déo Garcez, o André da novela “Escrava Isaura”, com a atriz Thais Araújo

O ator Déo Garcez, o André da novela “Escrava Isaura”, com a atriz Thais Araújo

Algumas vezes, leitores reclamam dos livros escritos no Brasil. Falam que não é literatura. Comparam com livros estrangeiros. Dizem que as capas dos livros nacionais são horríveis. Mas não sabem que esses atuais livros vindos de fora (sobretudo, dos Estados Unidos) não têm um único autor. São escritos por uma verdadeira equipe. Então, como o autor nacional pode competir com eles? Não pode! E digo mais: se o leitor nacional não prestigiar o autor nacional, ninguém o fará!

O autor nacional é um verdadeiro herói, que, muitas vezes, tem de pagar do seu próprio bolso, a edição do seu livro. Há muito que deixei de prestigiar grandes editoras. Aliás, sempre fui esnobado por elas. Portanto, não compro nada que elas lançam. Nem sei o que elas editam. Não sei e nem me interessa. Meu caminho sempre foi nas pequenas e médias editoras, nas quais pude escrever e lançar o que queria. E, hoje, continua sendo nas pequenas e médias editoras que meus livros são publicados.

Agora, fala de literatura na Bahia sem citar esta FLIPELÔ – Festa Literária Internacional do Pelourinho, além de soar como uma grande contradição pode parecer impossível. Foi lindo o evento! A abertura poderia ter sido aberta para o público e amantes de livros, mas a organização preferiu deixar a ilustre presença da Bethânia restrita somente aos convidados das famosas panelinhas. Mas soube que o sarau “Maria Bethânia e As Palavras”, na Igreja de São Francisco, foi maravilhoso! Como também maravilhosos foram as mesas para os debates, os bate-papo sobre poesia e protesto com o  Emicida e as presenças de muitos escritores. Contudo, os livros estavam com os mesmos preços das livrarias, ou seja, nem me prostituindo eu conseguiria comprar metade do que eu queria levar pra casa!

Estes formatos de feiras literárias são maravilhosos para colocar, enfim, a sempre atrasada e provinciana Bahia no cenário de destaque de algo bacana. É bom para todo mundo: para os autores, para os leitores e principalmente para os editores e donos de livrarias, aliás, os únicos que ganham sempre com vendas de livros. Mas eu agradeço aos poucos e bons leitores que surgiram lá para prestigiar, que ainda acreditam em meu trabalho e que já estavam cobrando o #TarjaPreta. Agradeço aos seres celestiais que me guiam e protegem com suas asas cósmicas, muito obrigado, e sejam sempre comigo, de forma semelhante que sou também para convosco… Aos amigos escritores mortos, cujos dentes um dia já foram de leite, que minha paz seja com vocês, pois sei que assim como na fase de consolidar a nova arcada dentária que foi, por vezes, muito dolorida, a literatura também ainda está sendo.

O cantor, compositor, sambista e escritor Martinho da Vila

O cantor, compositor, sambista e escritor Martinho da Vila

Agradeço essas festinhas literárias, toda movimentação que se dá em torno desses encontros, onde o único grande objeto é o livro. As vezes me sinto um escritor fracassado e não sou feliz por ser assim pois assim como o mestre Darci, detestaria ocupar o posto daqueles que acreditam que me venceram: os bocós das letras, os bajuladores de plantão, os lambedores de botas! Sou um rapaz que não tem mais dentes de leite… Meu alimento espiritual também já se dá pela forma sólida… Minha conta bancária continua vazia, mas que eu seja merecedor de tantas bênçãos, ainda invisíveis por terceiros, em minha vida! Viva a literatura nacional! P.S. Bola fora dos organizadores da Flipelô foi ter colocado a festa literária nos mesmos dias da Campus Party Bahia. Concorrência bastante desleal!

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina


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