Memória Patrimônio e Sociedade: De Que Lembram Os Museus?
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Memória Patrimônio e Sociedade: De Que Lembram Os Museus?

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Patrimônio e Sociedade; memória social, identidade cultural, patrimônios, coleções e muito mais

Memória Patrimônio e Sociedade: De Que Lembram Os Museus?

Assim como acontece em todos os meses de maio, desde 2002, com a promoção da Semana Nacional de Museus, o Ministério da Cultura, por meio do Instituto Brasileiro de Museus, propõe há onze anos a Primavera dos Museus que busca promover as entidades, sublinhar atividades e ressaltar temáticas. Este ano o foco escolhido nos faz pensar numa história da cultura brasileira: Museus e Suas Memórias.

Como é fácil encontrar pela internet e livros, os museus começaram a se instituir na sociedade ocidental no século XVIII, com uma grande explosão de fundação de museus no século XIX. Alguns outros, principalmente os de caráter mais temático e menos generalistas, foram aparecendo aos poucos durante o século passado e continuam sendo fundados nos dias atuais. A questão aqui proposta é que todos os museus, sejam eles aqueles que se constituíram por meio de alguma narrativa os grandes ícones da cultura brasileira como o Museu Imperial, o Museu Oscar Niemeyer, o Museu Histórico Nacional ou o Museu da República, os aqueles temáticos e por vezes menos conhecidos como o Museu do Folclore Edison Carneiro, o Museu de Arte Sacra da Boa Morte, o Museu Afro-Brasil ou o Museu de História do Pantanal, têm um passado que pertence apenas a si e isso está embotado de memórias muitas vezes não lembradas. Num paralelo podemos pensar que é o caso de termos um psicólogo que atende muitas pessoas em terapia, mas que ninguém pensa que também pode ter problemas, questões existenciais e afins, e dessa forma precisar também de um terapeuta, portanto, uma terapia do terapeuta; ou aquele que, de fora, vê a cena de um antropólogo no meio de uma tribo nativa no Norte do Brasil e descreve a cena que viu, portanto, uma antropologia do antropólogo. Então, de que estamos falando aqui? Da memória daquele que lembra. E por que falar dessa memória? Porque na maioria das vezes as memórias lembradas por esse que lembra, o museu, não são evidenciadas uma vez que as recordações trazidas a nós por esses locais são de terceiros: grupos, personagens, momentos históricos, ícones artísticos. É a mesma coisa que falarmos pela terapia do terapeuta, que também tem a necessidade de conversar, se abrir e ouvir um terceiro sobre si, e pelo anto cultural daquele que analisa culturas, o antropólogo, que assim como seus objetos de estudo é parte de um grupo, com identidades, tradições e modos.

Vamos tomar como exemplo o grande Museu de Arte de São Paulo. O MASP não é e não pode ser visto apenas como um espaço de exposições de arte, e por que não? O MASP foi co-idealizado e fundado por Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, conhecido apenas por Assis Chateaubriand ou Chatô, e isso já nos diz muita coisa. Chatô foi um notório empresário da comunicação, escritor, político, jornalista, professor e tantas outras coisas. No auge do seu trabalho com a comunicação, Chateaubriand, então proprietário dos Diários Associados, possuiu mais de cem jornais, revistas, emissoras de rádio de TV e agências telegráficas. Ele estava incluso num momento importante para toda a história nacional, se é que posso julgar assim como se algum momento seja menos importante, e o MASP também. O Brasil passava por tempos de vacas gordas: a quebra da bolsa em 1929, a ascensão de Getúlio Vargas ao poder em 1930 e sua forte política intervencionista e a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, oportunizaram devido a diversos fatores um surto industrial no país, substituindo em partes a produção cafeeira, criando e/ou notabilizando grandes centros urbanos como São Paulo. A cidade, que ainda era culturalmente marcada pela Semana de Arte Moderna de 1922, tinha apenas um museu para a arte: a Pinacoteca do Estado de São Paulo, fundada em 1905.

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Assis Chateaubriand, que usava seus numerosos campos midiáticos para defender suas ideias, após sair da “campanha de aviação” com êxito, passou a defender a criação e um museu de arte de nível internacional no Brasil. São Paulo foi escolhida para sediar o novo museu justamente pelo grande desenvolvimento ali presente, mais particularmente no campo financeiro. Para além da história nacional, o MASP se inclui na história internacional porque Chatô aproveitou o pós-guerra, momento de reconstrução das cidades europeias bombardeadas, para fazer parte do acervo artístico dado que muitas famílias e cidades do Velho Mundo precisavam de dinheiro e por isso estavam vendendo obras ou coleções inteiras, e justamente pela numerosa oferta os preços baixaram muito. Pietro Maria Bardi, crítico e colecionador de arte italiano, foi convidado para dirigir “um museu”, ainda não bem planejado pelo empresário da comunicação, e este, após aceitar, sugeriu o nome Museu de Arte, “para não haver distinção entre as artes”, e os modos de ser a fazer da entidade. O aceite que deveria durar um ano na direção do museu transformou-se em quase cinquenta. Lina Bo Bardi, casada com Pietro, era arquiteta e em 1968 projetou o prédio no qual está atualmente lotado o MASP, se tornando também um ícone da história da arquitetura nacional, principalmente pelas simbólicas colunas vermelhas.

Não mais entrarei a fundo na história do MASP, paremos aqui nas nuances de sua criação. Essas trajetórias todas entrecruzadas, esses momentos nacionais e internacionais de altos e baixos e a consolidação deste que hoje é um ícone museológico já são memórias bastante a serem lembradas nessa Primavera dos Museus, não? Mais que o momento da fundação do MASP em 1947, quantas outras memórias podemos encontrar dentro e fora daquele ambiente? Quantas exposições passaram por ali? Quantos artistas sentiram-se ou iriam sentir-se realizados ao ter suas telas num circuito expositivo lá dentro? Quantos curadores se orgulharam de assinar um desses circuitos? E, o mais importante, quantas pessoas já não passaram por ali, viram de fora ou entraram para ter contato com as artes, e se emocionaram? Durante estes anos todos quantas vezes o Museu de Arte foi importante para alguém por política, sentimento, marketing ou história? Não só o MASP, mas de cada Museu da Inconfidência a cada Museu Mazzaropi, de cada Museu da Amazônia a cada Casa Porto das Artes Plásticas, de cada Museu da Gente Sergipana a cada Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli, de cada Museu Municipal Atílio Rocco a cada Círculo de Estudos Bandeirantes, de que lembram estes que fazem parte da nossa história cultural e que nos fazem lembrar? Ah, se meu museu falasse.

Curitiba, 21 de agosto de 2017.

Luciano Chinda.

Titulado em nível de graduação em Conservação e Restauro de Bens Culturais, graduado em História, especialista em Gestão, Preservação e Valorização de Patrimônios e Acervos e em Estudos em Memória, e mestre em Patrimônios, Acervos e Memória. Atualmente é Historiador e Conservador-Restaurador do Círculo de Estudos Bandeirantes, em Curitiba, entidade cultural agregada à PUCPR onde também ministra aulas e oficinas periódicas para graduandos em História


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