Crítica: vale a pena assistir “O Jantar”, estreia da semana?
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Crítica: vale a pena assistir “O Jantar”, estreia da semana?

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O Jantar

O Jantar

Dirigido e roteirizado por Oren Moverman. Baseado no livro homônimo escrito por Herman Koch. Elenco: Richard Gere, Laura Linney, Steve Coogan, Rebecca Hall, Adepero Oduye, Chloë Sevigny, Miles J. Harvey. Seamus Davey-Fitzpatrick, Charlie Plummer

Por Gabriella Tomasi

Baseado em um best-seller holandês que já conta com sua terceira adaptação, O Jantar é um filme que gira em torno da história de dois casais: Stan Lohman (Gere), um deputado de influência, sua esposa Kate (Hall), seu irmão Paul Lohman (Coogan) e sua esposa Claire (Linney) que se reúnem para uma ceia luxuosa em um restaurante bem conceituado. O encontro não é ao acaso, pois os personagens se reúnem para discutir o que fazer sobre o possível envolvimento de seus filhos, Rick (Davey-Fitzpatrick), Beau (Harvey) e Michael (Plummer) ainda menores de idade, em um crime grave, mas que ainda não foram identificados. O resultado, já adianto, é um daqueles longas que permanecem muito tempo depois na mente de seu espectador, mas não pelos motivos certos.

Vale ressaltar, primeiramente, que cinema nunca é feito para ser imparcial. Os cineastas imprimem um ponto de vista e uma subjetividade que lhes são muito particular, mesmo quando a história advém de uma adaptação. É natural, por conseguinte, que a temática possa envolver os aspectos mais virtuosos ou então os mais grosseiros do ser humano. O problema é que O Jantar se apropria da segunda categoria para não somente evocar empatia do espectador pelos seus personagens, mas também idolatrar e defender esses defeitos pavorosos e sem o mínimo de responsabilidade pelos próprios atos, ao invés de deixar despertar uma reflexão sobre eles. Essa abordagem, portanto, revela-se completamente maniqueísta de se fazer filme ao direcionar o que sua audiência deve ou não sentir em relação ao que está sendo trabalhado. E isso é indefensável.

Este seria um filme perfeito para Aaron Sorkin adaptar o roteiro devido ao seu potencial em desenvolver diálogos fortes e discursos afiados de conteúdo e que apresentem personagens realmente enfrentando o problema para o qual se reuniram, mas, ao contrário, com o roteiro de Moverman, eles nunca o fazem. Se algo importantíssimo é discutido e levantado por um personagem, há sempre outro que se sente ofendido e sai abruptamente em protesto. As frases genéricas e vazias de sentido como “você é uma criança”; “ninguém nunca me conta nada” e; ainda, as filosofias em torno da história ocidental levantadas por Paul, professor da área, são superficiais e não agregam muito à narrativa, além de se prestarem somente à didática que o filme se vê obrigado até mesmo a explicar suas próprias metáforas, como a Guerra Civil norte-americana. Além disso, a montagem se torna cada vez mais fragmentada, a partir de constantes interrupções durante o jantar, e os flashbacks que voltam no passado para aprofundar a personalidade dos personagens e justificar suas atitudes. O resultado parece apenas favorecer o personagem de Paul, enquanto os demais ficam subaproveitados. Aliás, o filho Rick sequer tem uma participação efetiva, enquanto Beau tem literalmente cinco minutos em tela.

Moverman teve uma clara intenção de ressaltar as piores características do ser humano e evidenciar o quão cruel ele pode ser, independentemente de sua condição financeira ou educação, já que aqui os mais letrados são seus próprios vilões. Porém, a explicação excessiva que subestima a inteligência do espectador e o melodrama em torno do passado para extrair empatia e, dessa forma, tornar justificável atitudes altamente repreensíveis de cada um de personagens apenas acentua o caráter manipulador do longa, como inicialmente mencionei. Paul repetindo “você faria o mesmo” cinco vezes em relação a um crime que estava neste momento prestes a cometer igualmente reforça o quanto se busca o aval do público. Em outras palavras, o que se pretende transmitir é que por meio das injustiças que aconteceram na vida do quarteto, se explicam as condutas igualmente injustas deles no presente, mas sem que houvesse efetivamente uma reflexão moral sobre isso: é vitimizá-los e colocá-los em uma situação na qual todos levantam a bandeira do seu passado para se isentar de responsabilidade pelos seus atos inconsequentes. Então quer dizer que só porque eu vim de um lar de abusos significa que posso livremente praticar abusos com outras pessoas sem culpa por isso? De acordo com o roteiro de Moverman, sim.

Portanto, aqui não há pessoas complexas, multifacetadas e que nos instigam mesmo com suas condutas mais imorais, o que é possível sim executar, como os incontáveis filmes do brilhante Quentin Tarantino, cuja temática de subversão já é marca registrada do diretor, mas sim de seres desprezíveis que não tiveram sequer o cuidado e a atenção de seu próprio realizador, quem dirá terá a de sua audiência.

O Jantar é, portanto, duas horas de desperdício de tempo que é melhor ser evitado.

Gabriella Tomasi é crítica de cinema, graduanda em letras, membro do coletivo de mulheres críticas de cinema – ELVIRAS, e possui o blog Ícone do Cinema


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1 comentário

  • Creio termos visto filmes diferentes. O que este diretor faz não é defender ou não estes personagens mas um panorama do que nos acontece na modernidade, quem são estas pessoas, e a guerra civil não está aí gratuitamente.
    Ela revela aspectos importantes dos antecedentes de certos comportamentos destas personagens. Não como justificativa mas como contexto e origem.

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