Literatura: MORRE A MAIS GENTIL DAS ESTRELAS!
Literatura Notícias

Literatura: MORRE A MAIS GENTIL DAS ESTRELAS!

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Jair Martins, poetisa, pensadora, agitadora cultural no Recife

Jair Martins, poetisa, pensadora, agitadora cultural no Recife

 

“Jair Martins, poetisa, pensadora, agitadora cultural no Recife, foi uma dessas figuras que você gostaria de embrulhar em papel de presente e deixar enfeitando a sua estante”

Por Elenilson Nascimento

É sempre difícil escrever sobre a morte de alguém, principalmente quando este alguém é extremamente querido. Sou da turma que acha que certos amigos são muito mais importantes do que muitos familiares. Sou do tipo que acha que família podemos escolher e que isso não tem nada de deselegante. Amizade sempre foi para mim com um tiro no escuro, como aquele motorista parado no sinal e que se descobre subitamente cego, como tão bem descreveu Saramago. E como falar de uma mulher gentil, inteligente, escritora, atenciosa, verdadeira, comedora de livros, comedora dos meus livros, que no último dia 11 de setembro, no mesmo dia em que se completou dezesseis anos das quedas das Torres Gêmeas, nos deixou aqui perplexos, no meio desta “treva branca” de tristeza e saudade que logo se espalhou incontrolavelmente pelo Facebook.

Jair Martins, poetisa, pensadora, agitadora cultural no Recife, foi uma dessas figuras que você gostaria de embrulhar em papel de presente e deixar enfeitando a sua estante. E como que resguardados em quarentena, todos nós que ficamos aqui, deste lado da caixa, por enquanto, como cegos, nos percebemos ainda mais reduzidos à essência humana: vazia, triste e sentindo saudades, como objetos não identificados, nessa viagem que é a vida. Mas Jair nos fazia lembrar, o tempo todo, que a responsabilidade de ter olhos e comer livros quando todos os outros já os perderam, era o que temos de mais importante. Jair nos deu, aqui, ali e em todos os lugares, uma imagem de bondade aterradora e comovente no meio destes tempos sombrios em que vivemos, à beira deste novo-velho milênio, que parece ainda não ter começado, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos espalhados na sua estante de livros, além de sempre divulgar vários outros escritores, não tão famosos mas tão importantes nas suas humildes importâncias.

Mas eu, particularmente, odeio esta ideia fracassada de morte repentina, embora todos achem que é a melhor. Discordo. Odeio. Tremo ao pensar que a morte possa estar à espreita na próxima esquina, dentro do quarto, numa biblioteca. Não quero que a minha seja súbita. Quero ter tempo para escrever o meu haikai. E acho que Jair queria um pouco mais de tempo para poder dizer a todo mundo que ela cativou, via Facebook mesmo, como a Raposa do Pequeno Príncipe, que todos devemos continuar escrevendo, lendo, vivendo e amando, nem que tudo isto seja apenas mais um argumento de sonho de quem quer escrever um livro com uma palavra só: AMOR. E loucos somos todos nós que ainda queremos escrever num país que valoriza celebridades e ignora escritores. Mas temos obrigação de continuar tentando, mesmo com os olhos vermelhos.

Depois compreendi, muito mais tarde, o que Jair sempre quis dizer: para se escrever um livro tão urgente assim, de palavras de sentidos, seria preciso ter-se tornado sábio, infinitamente sábio. Como sombra e luz. Vida e morte. Tão sábio que soubesse qual é a última palavra, aquela que permanece solitária depois que todas as outras se calam. Mas isso é coisa que só a Morte ensina. E Jair certamente nos olha do lado de lá com um olhar mais de sabedoria, como uma exigente discípula que era e vivendo a sua nova experiência num ponto onde se cruzam literatura, verdade, amor, lembrança, saudade e sabedoria, onde Jair nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Ver que somos finitos nas nossas perplexidades, para recuperarmos a lucidez, resgatarmos o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos!

Jair foi uma mulher incrível no seu esforço supremo para divulgar verdades da vida que sempre se vai. Da vida que nos engana. E se eu também estivesse para morrer, que me digam o que realmente valeu a pena nesta vida. Se me disserem que ainda me restaria apenas um ano, continuaria a ser um tolo, um escritor, um cara bacana, uma mosca agitada na teia dos medíocres, vivendo, por enquanto, nas mesquinhas rotinas do cotidiano. Mas se só me restasse um ano, então tudo se tornaria repentinamente puro, luminoso e urgente, pois os essenciais se despregam do corpo, com as suas escamas inúteis, e a Morte, essa senhora sacana e inconveniente, nos informa sobre o que realmente importa. Então, me daria ao luxo de escolher mais pessoas interessantes com quem conversar no Facebook ou pessoalmente. E poderia ficar em silêncio, se o desejasse. Ouviria mais música, leria mais livros, tomaria mais banho de mar, amaria mais gente. E, perante a Morte tudo é tão desculpável… Mas creio que não mais leria jornais. Leria mais poesias. E Nietzsche, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Reinaldo Arenas e Jair Martins. Todos eles foram aprendizes da mesma mestra, a Literatura. E certo que não perderia um segundo com filosofia barata. Acho que também me dedicaria mais à poesia com uma volúpia que até hoje não me permiti. Porque a poesia pertence ao grau da importância e ao encanto. E ouviria mais Beatles, Cranberries, Madonna, Bowie, Renato Russo e Beethoven. Além de usar meu tempo no prazer de cuidar do meu jardim…

Jair Martins, poetisa, pensadora, agitadora cultural no Recife

Jair Martins, poetisa, pensadora, agitadora cultural no Recife

O curioso é que a Morte nada tenha a dizer sobre si mesma. Quem gosta de falar sobre a Morte são os vivos. Mas só quando deixamos de ter a presença de quem realmente gostamos é que percebemos o susto infinito. A Morte de gente como a do escritor e dramaturgo Suassuna, bem como dos escritores baianos João Ubaldo e Jorge Amado, do educador e escritor Rubem Alves e, agora, da poetisa recifence Jair Martins, nos faz refletir sobre algo comum a todos nós: a Morte que nos ronda, feito uma serpente. Todos, em suas obras, retrataram a Morte e o morrer a partir de uma sensibilidade presente em poucos. Mas a Morte pode até ser o acontecimento mais desesperador ao ser humano, e a religião tem influência bem significativa nisso.

No entanto, para quem fica, nem sempre a religião pode dar conta da angústia do ser finito. Há um último suspiro. Os olhos se fecham devagar devagando. E o coração pára de vez. Vai ter gente escrevendo sobre você no Facebook e/ou em algum site, vestindo camiseta com sua cara estampada, chorando desesperadamente no seu enterro, dizendo o quando você era importante se nunca ter te dado um bom dia. Uma enxurrada de declarações de amor nas redes sociais. Tudo que até então era defeito, vai virar virtude. Vão dizer até: “Ela tinha uma personalidade forte!” Mas, o tempo vai passar. Logo, as lágrimas cessarão e, no lugar do choro incontido, só os momentos de alegria com os amigos e familiares serão realmente guardados. Logo, a vida será retomada. Você foi, mas o mundo não parou! Em breve, todos retomarão o ritmo normal de suas vidas. As pessoas continuaram. Mas, ainda existe um pouco de você entre os vivos e nos livros. Pode ser numa roda de conversa, numa reunião familiar, numa matéria de um escritor clandestino em jornal, numa retrospectiva de fim de ano. Em algum momento vão lembrar de você. Vão falar o seu nome. E você ainda vive! Você plantou sementes, como a espada de Ogum. Deixou pegadas. Lembranças. Saudades.

Contudo, as pessoas ainda pensam muito pouco sobre a Morte. Passam suas vidas preocupadas com coisas sem importâncias, adiam coisas, deixam de lado momentos e pessoas que realmente deveriam importar. Não arriscam, não leem o mundo, porque acham que é desnecessário. Reclamam muito, reclamam de tudo, mas se acovardam na hora de tomar providências. Querem que tudo mude, mas elas mesmas se recusam a mudar. E se pensassem um pouco mais na presença da Morte, não deixariam jamais de dar o telefonema que está faltando ou de mandar um “olá” pelo Facebook. Seriam um pouco mais loucas. E não iam ter medo do fim arrogante desta encarnação – porque não se pode temer algo que vai acontecer de qualquer jeito.

Conheci uns índios em Arembepe (BA) que diziam que o “hoje é um dia tão bom quanto qualquer outro para deixar este mundo”. Espero que você, caro leitor, que tenha chegado até aqui, sendo amigo (ou não) da poetisa Jair Martins, possa compartilhar mais AMOR, não importante a cor e nem o sexo desse seu amor, pois era isso que ela mais fazia. Seria uma bobagem assustar-se com a Morte, porque todos nós, cedo ou tarde, vamos morrer também. E só quem aceita isso está preparado para a vida. Por tanto, amemos mais para vivermos mais e melhor. Jair, beijão na boca!

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina


  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Deixe uma resposta